Os sistemas alimentares são complexos e estão falidos

Por Aline Martins de Carvalho, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP

 26/03/2025 - Publicado há 1 ano

Os chamados “sistemas alimentares” são um conjunto de agentes e ações relacionadas à produção, processamento, distribuição, preparo, consumo e descarte de alimentos, que não funcionam de maneira linear. Como envolvem múltiplas interações com o meio ambiente, políticas públicas, tecnologias e padrões de consumo, seus efeitos se tornam, muitas vezes, imprevisíveis.

Vale ressaltar que não podemos falar apenas de um sistema alimentar, mas de diversos, que variam de acordo com suas características intrínsecas e também características do ambiente onde eles estão inseridos, pois cada alimento que consumimos percorreu um caminho diferente até chegar ao nosso prato, resultado de diferentes modelos de produção, processamento e distribuição. No Brasil, por exemplo, identificamos quatro grandes sistemas de expressão nacional, a partir de nossas pesquisas no Sustentarea, Núcleo de Pesquisa e Extensão da Faculdade de Saúde Pública da USP, o qual coordeno. Falaremos mais sobre os diferentes sistemas alimentares do Brasil e de suas características, pontos fortes e desafios no próximo texto da coluna! Por enquanto, vamos explorar os motivos da complexidade desses sistemas alimentares.

Como já falamos, eles são formados por diversas partes que interagem entre si e com o ambiente, o que faz com que seja muito difícil saber o que vai acontecer com eles no futuro, uma vez que eles mudam e se adaptam com o tempo e não têm um controle centralizado! Além disso, esses sistemas são conhecidos por apresentarem efeitos emergentes, isto é, efeitos que não decorrem apenas de mudanças externas, mas também das suas próprias relações internas e que são de difícil elucidação sem a utilização de técnicas apropriadas para o tratamento de sistemas complexos. No caso brasileiro, temos como exemplo altos índices concomitantes de obesidade e desnutrição, juntamente à degradação intensiva do meio ambiente, donde se poderia concluir que se tratam de sistemas alimentares falidos, isto é, que não atingem o objetivo de alimentar as pessoas de maneira adequada e equânime.

Diante desses desafios, o que podemos fazer? Como transformar sistemas alimentares que, hoje, não garantem a saúde humana e planetária? Você talvez já esteja imaginando que dividir os sistemas alimentares em pequenas partes para estudá-los, não vai esclarecer completamente essas questões, uma vez que as interações entre essas partes são adaptativas e dinâmicas.

Em vez de tentar estudar os sistemas alimentares em pequenas partes isoladas, precisamos observá-los por inteiro e entender as suas conexões internas, para chegarmos em algumas pistas de quais são os pontos de maior impacto para intervenções e quais seriam as intervenções de maior sucesso. Obviamente, encontrar soluções desse tipo exige tempo, pesquisa e ação coordenada, mas apenas a partir dessas análises interdisciplinares é que descobriremos quais os possíveis caminhos para a saúde e sustentabilidade dos sistemas alimentares no Brasil! E você, já pensou no seu papel nessa transformação?

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