As marcas dos governantes

Por Gaudêncio Torquato, escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político

 24/03/2025 - Publicado há 1 ano

Os governantes, bons ou ruins, deixam sua marca na história. São identificados por seus feitos, sejam os considerados positivos ou os negativos. Vejamos. Getúlio Vargas governou por decretos-lei, instalando a ditadura do Estado Novo, dissolvendo partidos e mantendo o poder até 1946.

Na esfera positiva, é aplaudido por ter sido o governante que propiciou a vida dos sindicatos, criou o salário-mínimo, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), e a Petrobras, em 1953, depois de ter voltado à chefia da nação, em 1950. O “pai dos pobres”, como era chamado, é ainda considerado por muitos como o melhor chefe do Poder Executivo do século 20, a ponto de ser referência do bom governante.

Identidade do governo – o trabalhismo e o nacionalismo.

Juscelino Kubitschek cravou sua identidade no fortalecimento da indústria nacional. Mas a construção de Brasília e o Plano de Metas foram suas principais marcas. Com sua estampa simpática, o romântico mineiro conquistou as massas. Era um dançarino que apreciava ouvir o violão de Dilermando Reis tocando a marchinha Peixe Vivo.

Identidade do governo – o desenvolvimentismo.

Presidente em 1961, Jânio Quadros, o extravagante, proibiu biquínis nas praias e brigas de galo. Sua marca, a par de medidas polêmicas, foi a do presidente que adotou uma política externa independente. Renunciou, dando como motivo a pressão de “forças ocultas”. Mas esperava voltar nos braços do povo.

Identidade do curto governo – a moral e os bons costumes.

João Goulart, o vice de Jânio, tem sua imagem associada à tentativa de deslocar o Brasil para a esquerda do arco ideológico. Março de 1964, sexta-feira, 13. Comício na Central do Brasil. Jango, diante de 200 mil pessoas reunidas na Praça da República, em frente à Estação Pedro II, inflamava a massa com um discurso, que teria sido o estopim para o golpe.

Identidade do curto governo – o esquerdismo.

O ciclo militar abriu os “anos de chumbo”, “a era das trevas”. Ao longo de seus 21 anos, o país foi governado por meio de decretos-lei e de uma nova constituição. A repressão e a violência do Estado bateram nas instituições. Os direitos humanos eram considerados “coisa da esquerda”. O famigerado Ato Institucional nº 5 foi a ação mais dura do regime e a que mais proporcionou atitudes arbitrárias. O “obreirismo faraônico” dos militares construiu grandes obras, como rodovias (a Transamazônica), hidrelétricas, usinas nucleares, avenidas, marginais e metrôs.

Identidade do longo ciclo militar – a violência do Estado e o “obreirismo faraônico”.

O governo Sarney notabilizou-se pela condução do processo de redemocratização do País. Partidos políticos, até então clandestinos, foram legalizados. Abriram-se as comportas do universo da locução, com forte impulso aos eixos da democracia participativa. Referência maior da redemocratização do País foi a edificação da Constituição Federal de 1988. Na área econômica, porém, o governo não conseguiu domar o “dragão da inflação”, por meio dos Planos Cruzado I, Cruzado II e Verão.

Identidade do governo – a abertura do ciclo da redemocratização.

O governo do alagoano Fernando Collor tem sua identidade cravada em dois pilares: o Plano Collor, que objetivava, em 1990, combater a hiperinflação no Brasil por meio do confisco de depósitos bancários acima de 50 mil cruzeiros foi um desastre. Mesmo ilustrando sua imagem com a tintura de um governo que cortou subsídios estatais, o governo demitiu milhares de funcionários públicos, congelou preços e salários e privatizou empresas estatais. Collor de Melo não resistiu às denúncias de corrupção, envolvendo seu tesoureiro de campanha eleitoral, Paulo César Farias. Antes de ser aprovado o impeachment, o presidente renunciou ao cargo.

Identidade do governo – abertura comercial e corrupção.

Itamar Franco, o vice de Collor, deixou o governo com a imagem de “honesto” e, sobretudo, pela implantação do melhor plano econômico da contemporaneidade: o Plano Real, que contou com a ação decisiva e inovadora de seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, um schollar que formou um grupo de grandes economistas, responsáveis pelo engenhoso Plano Real. O plano acabou com a hiperinflação e iniciou um conjunto de programas sociais, entre os quais, o bolsa-escola, o vale-gás e o bolsa-alimentação. O Plano Real garantiu à FHC o comando do País por oito anos.

Identidade do governo – estabilização da moeda / fim da hiperinflação.

Chegamos ao governo Lula. Que imagem o lulopetismo conseguiu construir? No Lula 1, iniciado em janeiro de 1983, o PT ainda ainda se posicionava no canto esquerdo do arco ideológico. Lula chegou a ser considerado por contingentes da base da pirâmide social como “pai dos pobres”.

Fez um primeiro governo com ênfase no assistencialismo: programas como o Bolsa Família e o Fome Zero foram reconhecidos pela ONU. Mas o PT nunca reconheceu que as ações assistencialistas eram clones reformados dos programas da era FHC.

O que se pode dizer da imagem do lulopetismo, após 30 anos de governança? A economia tem caminhado mais por curvas do que por retas. O Lula 1 foi bem recebido pela sociedade. O Lula 2 já não teve tanta aprovação. A administração mergulhou numa maré de denúncias sobre corrupção.

O governo Bolsonaro, por sua vez, conduziu o País pela via da direita. O ex-capitão do Exército deu vez e voz aos grupos conservadores. Teve conquistas relevantes, como a reforma da previdência, a autonomia do Banco Central, a lei de liberdade econômica, o Marco Legal do Saneamento.

O Lula 3 mostra um governo sem rumos, caminhando nas curvas do “é dando que se recebe”. P. S.: No meio, registram-se a era tumultuada do “poste” Dilma Rousseff e, na sequência, a administração reformista do governo Temer, que, em curto espaço de tempo, realizou um denso programa de reformas, entre as quais, a reforma trabalhista e a lei da terceirização.

Identidade da era Lula – esquerdismo / assistencialismo / populismo / corrupção / guinada ao centro.

Hoje, o País continua rachado, desunido, ao contrário do que prometia o candidato petista na campanha em que anunciava a Reconstrução do País, lema que o marqueteiro Sidônio Palmeira tenta consertar.

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