Para além dos mais de 6 milhões de seres humanos vitimados pelo Holocausto, resistem em silêncio testemunhas inanimadas. Para o fotógrafo eslovaco-canadense Yuri Dojc, cemitérios, prédios e até livros podem ser considerados sobreviventes do nazismo. Filho de judeus da antiga Tchecoslováquia, Dojc dedicou décadas de sua carreira a documentar essas testemunhas através de iniciativas como o projeto Last Folio, que ele começou em 1997 com o objetivo de registrar remanescentes do Shoah (Holocausto) por meio de cinco diferentes séries fotográficas: Livros, Construções, Cemitérios, Fragmentos e Sobreviventes.
Uma amostra desse projeto é apresentada na exposição Last Folio, que está em cartaz até 9 de abril na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, com entrada grátis. Na mostra, são exibidas 20 fotografias da série Livros e duas da série Construções. Paralelamente, outras 30 imagens de Dojc são exibidas em mostra no Unibes Cultural (Rua Oscar Freire, 2.500, Sumaré, em São Paulo), também gratuita.
As fotografias expostas na BBM retratam livros deixados para trás em uma escola evacuada na antiga Tchecoslováquia em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. Exibidas no subsolo da BBM, as imagens de páginas devastadas pelo tempo contrastam com as prateleiras de livros novos da livraria da Editora da USP (Edusp), instalada no térreo, visíveis a quem visita a exposição.
O projeto Last Folio
Em Last Folio, ou “Última Página”, Yuri Dojc busca capturar os vestígios abandonados das comunidades judaicas do oeste da atual Eslováquia como se estivesse fazendo retratos humanos, tentando eternizar aqueles que deixaram esses objetos para trás. “Esses livros pertencem a pessoas cujos nomes foram esquecidos. Então, talvez essa seja a única forma de comemorá-las”, afirma Dojc num vídeo sobre o projeto dirigido pela cineasta Katya Krausova, que também é exibido na exposição (assista ao vídeo no link abaixo).
Yuri e e a cineasta Katya Krausova nasceram na antiga Tchecoslováquia e emigraram em 1968, após a entrada da União Soviética naquele país. Em 2006, eles retornaram ao território de origem para um itinerário fotográfico por ambientes abandonados, como escolas e sinagogas. Visitaram Bardejov, onde conheceram a escola abandonada em 1942, quando seus alunos foram levados para campos de concentração. Cadernos, boletins, certidões de nascimento e registros escolares permaneciam nas prateleiras, em que livros se decompunham. Dentre eles, Yuri encontrou um livro que pertencia ao próprio avô, Jakab.
O vídeo Last Folio: Texturas da Vida Judia na Eslováquia, dirigido pela cineasta Katya Krausova, é exibido na exposição, com legendas em português
“O mais interessante é que se trata de uma história real, com edifícios e bibliotecas que, de um dia para outro, ficaram abandonados e deixados à própria sorte”, afirma o professor Luiz Armando Bagolin, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, um dos curadores da mostra. “Quando Yuri percebeu que cada livro continha o nome de seu possuidor, ele quis conceder a cada imagem a dignidade e a grandeza de uma pessoa. Os livros se tornam, assim, metonímias de seres humanos que foram capturados e presos pelos nazistas.”
Mostra lembra 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial





A exposição é formada por 22 imagens, das quais 20 são de livros destruídos e duas de construções devastadas – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Nesta temporada no Brasil, a exposição de Yuri Dojc relembra o fim da Segunda Guerra Mundial, em 8 de maio de 1945 – há exatos 80 anos -, data que ficou marcada como o Dia da Vitória.
Há dez anos, em 2015, as fotografias de Last Folio integraram as comemorações mundiais dos 70 anos do fim da guerra, com exibições na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, na Biblioteca Nacional da Alemanha, em Berlim, no Museu Mark Rothko, na Letônia, no Museu da Tolerância, em Moscou, na Rússia, e na Galeria de Arte da Universidade Tufts, em Boston, nos Estados Unidos. Hoje, 12 das imagens do projeto fazem parte da coleção permanente da Biblioteca do Congresso, em Washington, nos Estados Unidos.
“Além de aludir à memória e à história da Shoa, a exposição faz refletir sobre o tempo presente, no qual tristemente assistimos à volta das guerras e de suas consequências nefastas para as pessoas”, afirma o professor Bagolin. “De novo comunidades inteiras desapareceram ou podem estar prestes a desaparecer do dia para noite. A arte de Yuri é um alerta e um chamado ao que ainda de humano resiste em nós.”
A exposição Last Folio, de Yuri Dojc, está em cartaz até 9 de abril, de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis.
* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro

























