
Muitas responsabilidades ficaram novamente expostas, em especial as da concessionária de energia elétrica da cidade, a Enel, que não se preparou para adaptar seu sistema de distribuição de energia aos impactos da ameaça climática e ainda reduziu suas equipes de manutenção em troca de uma discutível modernização – e sequer pagou as multas pelos impactos causados na população e nas atividades econômicas da cidade em 2023. Já nesse último evento, recomendou-se o enterramento dos fios da cidade que está na agenda urbanística desde o Plano Diretor Estratégico de 2002 e mantido nas suas diversas revisões, mas a queda de braços entre a concessionária e a prefeitura prosseguiu sem que houvesse nenhum avanço nessa direção.
Há um custo estimado de R$ 10 milhões por quilometro enterrado. Os R$ 2,5 bilhões gastos pela prefeitura em recapeamento de vias em 2024 já teriam permitido enterrar cerca de 250 km da fiação de cabos em rede subterrânea. Isso sem contar com a obrigatória participação da concessionária, que prefere manter a rede aérea onde aufere recursos das outras empresas de cabos inteligentes e telefonia. A média dos paulistanos de sete horas no escuro por ano é a maior entre as cidades mundiais atendidas pela Enel. Alerta-se ainda que não temos os dados concretos da situação de fornecimento de água pela Sabesp recém-privatizada, que acusa a falta de energia como causa da falta de água, mas que já vem fazendo cortes no abastecimento pela situação gerada nos quase seis meses anteriores de seca.
Mas a prefeitura não fica fora dessa responsabilidade pela combinação explosiva de um sistema aéreo de fiação de energia e cabos e os problemas recorrentes do manejo e poda da arborização urbana da cidade. Um mapa elaborado pela empresa Universilab, de Alexandre Calil, com as solicitações de poda de árvores em vermelho, indica cerca de 14 mil pedidos de poda não finalizados somente no primeiro semestre de 2024. No total, 46,7 mil solicitações foram registradas pelo telefone ou aplicativo do serviço 156, o canal oficial de atendimento da Prefeitura de São Paulo.
A prefeitura não conseguiu dar conta dos pedidos e a situação se agravou durante a tempestade com ventania de 100km/hora com as árvores e a precária distribuição de energia por fiação aérea da cidade de São Paulo. Dessa forma, estavam criadas as cadeias de impactos que vão de prejuízos ao comércio e serviços até 1,6 milhão de pessoas sem energia, além de afetar hospitais e a interrupção dos serviços de abastecimento de água com gravíssimos impactos da tempestade sobre a cidade de São Paulo. Responsabilidade também do prefeito Ricardo Nunes, que, entre outras coisas, não preparou o sistema semafórico da cidade com no breaks para enfrentar a situação pós crise e ainda revelou fragilidades no sistema de defesa civil da cidade, conforme denúncia do Sindsep – Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias no Município de São Paulo.
O fornecimento de energia pode ser interrompido por vários motivos, entre eles descargas elétricas e queda de árvores, mas o tempo que se leva para restabelecer a energia nos bairros é proporcional à velocidade de ação de limpeza das árvores caídas pela prefeitura e pela concessionária de energia elétrica em reparar o sistema de fiação com muito mais equipes e recursos técnicos para ações em campo. Ou ainda pode ser minimizado por um manejo e poda preventiva de árvores muito mais eficiente pela prefeitura. Agrega-se mais um impacto, que é a interrupção do fornecimento de água à população por falta de energia para alimentar as partes altas da cidade, mas principalmente pela escassez de água nos mananciais de abastecimento geridos pela Sabesp.
Há mais de uma década são produzidos estudos científicos sobre as árvores de São Paulo, e há um controle digitalizado de quantas são e onde se localizam. Sabe-se que as árvores caem, em parte, porque foram mal podadas ou estão doentes e quebram no tronco principal com ventos não tão fortes e durante chuvas intensas, agora cada vez mais frequentes. Infelizmente, a evolução do sistema de manejo arbóreo no município continua muito lento, reconhecendo que a manutenção e manejo adequado são fundamentais porque a arborização urbana presta serviços ambientais importantíssimos na cidade, à exemplo da regulação do clima urbano, melhoria da qualidade do ar, abrigo para avifauna, proteção do solo, absorção das águas pluviais para atenuação das inundações, entre outros efeitos positivos.
Segundo denúncias do Sindsep, a prefeitura cortou os investimentos para o cuidado permanente da cidade, não realizou nenhuma ação concreta do Plano Municipal de Arborização Urbana (PMAU), e não realizou concursos para a contratação de engenheiros agrônomos e florestais nas subprefeituras de São Paulo, com ampliação do quadro de servidores da Defesa Civil, comprometendo a eficácia e a segurança dos serviços de proteção à população. As condições de trabalho enfrentadas pelos profissionais da Defesa Civil são alarmantes: os uniformes estão deteriorados, há escassez de botas e muitas vezes faltam as de tamanho adequado. Faltam equipamentos de proteção individual (EPIs) necessários, em um cenário de desmonte e precarização.
A partir dessa primeira tempestade de primavera enfrentada pela cidade de São Paulo em 2024 e nas demais que vem ocorrendo nesse verão em 2025, a população não vem sendo previamente informada sobre as previsões de tempo severo pelas autoridades do estado e do município, e ficou claro que a cidade não tem um plano preventivo de manejo das árvores em áreas críticas pela prefeitura. Além disso, a Enel não se preparou para enfrentar com planejamento a crise climática e está muito justamente sob o risco de perder a concessão desses serviços de distribuição de energia na cidade por decisão da Agencia Nacional de Energia.
Onde está o plano de contingência da prefeitura para situações de risco climático emergencial? Qual o papel da Secretaria de Mudanças Climáticas nesse contexto? Quando será finalizado e implantado o Plano de Redução de Risco e o que nos orienta como prevenção o Plano de Ação Climática da Cidade de São Paulo para os próximos eventos que, infelizmente, já são o novo normal da crise climática a que a cidade e seus cidadãos estarão submetidos?
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