
Esse descompasso torna-se ainda mais relevante porque a transição digital em saúde não corresponde a um processo único e homogêneo. Ela pode ser compreendida como um conjunto de diferentes ondas tecnológicas e informacionais, cada uma delas caracterizada por formas específicas de registrar, compartilhar, recuperar e utilizar informações em saúde. Assim, mais do que ensinar o uso de ferramentas digitais, torna-se necessário preparar profissionais de saúde, pacientes, familiares e cuidadores para compreender as características de cada onda de transição digital e atuar de forma adequada em diferentes contextos tecnológicos.
Na primeira onda, caracterizada pelo predomínio dos registros em papel e da comunicação presencial, a educação deve priorizar o desenvolvimento da comunicação interpessoal, da escuta ativa, da observação clínica, da elaboração adequada dos registros, da organização documental e da construção de relações de confiança. Para os profissionais de saúde, essas competências constituem a base do cuidado. Para pacientes, familiares e cuidadores, a educação deve favorecer a compreensão das orientações recebidas, a organização de documentos pessoais de saúde, a capacidade de comunicar sinais, sintomas e dúvidas e a participação ativa nas decisões relacionadas ao cuidado.
Na segunda onda, marcada pela digitalização dos registros e pela informatização dos serviços, ampliam-se as necessidades educacionais. Os profissionais passam a necessitar formação para utilizar prontuários eletrônicos, sistemas de informação, plataformas digitais e registros estruturados, preservando, simultaneamente, a qualidade da comunicação com os pacientes. A tecnologia passa a integrar a consulta, exigindo que o profissional mantenha a atenção voltada à pessoa, e não apenas à tela do computador. Para pacientes e cuidadores, a educação deve contemplar o uso de portais eletrônicos, aplicativos, resultados digitais de exames, agendamentos on-line e gerenciamento das próprias informações em saúde, sem perder a capacidade de buscar esclarecimentos diretamente com os profissionais quando necessário.
Na terceira onda, caracterizada pela interoperabilidade entre sistemas e pelo compartilhamento de informações entre diferentes instituições, amplia-se novamente o conjunto de conhecimentos necessários. Os profissionais precisam compreender fluxos informacionais distribuídos, governança de dados, padrões de interoperabilidade, privacidade, confidencialidade e segurança da informação em plataformas digitais, além de desenvolver capacidade para integrar informações provenientes de múltiplas fontes ao processo assistencial. Para pacientes, familiares e cuidadores, tornam-se importantes conhecimentos relacionados à circulação de seus dados entre diferentes serviços, ao consentimento informado, à proteção das informações pessoais, bem como à importância da precisão no registro de seus dados a fim de permitir a continuidade do cuidado e evitar erros ao longo da rede de assistência em saúde.
Na quarta onda, marcada pela incorporação crescente da inteligência de dados aos sistemas de saúde, modifica-se novamente o perfil da educação necessária. A inteligência de dados amplia capacidades humanas e reforça a necessidade do julgamento profissional, exigindo uma formação aprofundada para a interpretação de gráficos, indicadores e modelos preditivos. Os profissionais precisam ser preparados para avaliar criticamente respostas produzidas por algoritmos, reconhecer limitações, identificar vieses, supervisionar sistemas inteligentes, interpretar recomendações automatizadas e tomar decisões éticas diante de situações complexas.
A comunicação torna-se ainda mais relevante, pois o profissional passa a explicar não apenas condutas clínicas, mas também o papel desempenhado pelas tecnologias inteligentes no processo decisório. Para pacientes, familiares e cuidadores, tornam-se essenciais conhecimentos relacionados ao uso crítico das inteligências artificiais, à formulação adequada de perguntas, à interpretação criteriosa das respostas obtidas, ao reconhecimento das limitações de sistemas digitais, à proteção dos dados pessoais e à compreensão de que a inteligência artificial não substitui a atuação dos profissionais de saúde.
Como essas diferentes ondas raramente se apresentam de forma isolada, mas coexistem de forma simultânea, a situação torna-se mais complexa. Um mesmo paciente pode receber uma prescrição manuscrita, realizar exames registrados em sistemas interoperáveis, consultar um portal eletrônico de resultados e utilizar uma inteligência artificial para esclarecer dúvidas sobre sua condição clínica. Da mesma forma, um profissional pode alternar continuamente entre documentos em papel, registros eletrônicos, plataformas digitais e ferramentas baseadas em inteligência artificial ao longo de um único dia de trabalho.
Essa coexistência cria uma necessidade educacional que vai além do domínio de tecnologias específicas. Profissionais e cidadãos precisam aprender a reconhecer em qual onda da transição digital se encontra cada instituição e compreender as implicações dessa realidade para a assistência, a comunicação e o uso da informação. Em muitos casos, mais importante do que dominar uma ferramenta é compreender o contexto tecnológico no qual ela está inserida.
As implicações dessa perspectiva para a educação merecem ser consideradas. Tradicionalmente, como já mencionado, os currículos das profissões da saúde concentram-se no ensino de tecnologias específicas, como prontuários eletrônicos, telemedicina ou, mais recentemente, inteligência artificial. Entretanto, pouco se ensina sobre a própria transição digital como fenômeno histórico, organizacional e informacional.
Essa lacuna educacional ajuda a explicar um fenômeno frequentemente observado nos serviços de saúde. Muitos profissionais experimentam frustração, desânimo e confusão em seus próprios processos de trabalho ao transitarem entre instituições com diferentes níveis de maturidade digital. Ao encontrarem formas distintas de registrar informações, comunicar-se, acessar dados ou organizar fluxos assistenciais, tendem a interpretar essas diferenças como falhas organizacionais. Todavia, em muitos casos, essas diferenças podem refletir simplesmente o fato de que as instituições se encontram em diferentes estágios da transição digital. Compreender esse processo permite reduzir conflitos, expectativas irreais e dificuldades de adaptação profissional.
Situação semelhante ocorre com pacientes, familiares e cuidadores. Muitas pessoas esperam encontrar os mesmos recursos tecnológicos em qualquer serviço de saúde e não compreendem por que uma instituição oferece acesso eletrônico ao prontuário, enquanto outra ainda utiliza predominantemente documentos impressos; por que alguns serviços disponibilizam teleconsultas e outros dependem exclusivamente do atendimento presencial; ou ainda por que determinadas informações não acompanham automaticamente o paciente entre diferentes organizações. Logo, a educação da população sobre a transição digital pode contribuir para a construção de expectativas mais realistas, facilitar a navegação entre diferentes serviços e fortalecer a participação dos cidadãos no cuidado à própria saúde.
Outro eixo da educação a ser considerado é compreender que a evolução entre as diferentes ondas depende não apenas da incorporação de novas tecnologias, mas da capacidade humana de produzir informações segundo padrões terminológicos, semânticos e sintáticos capazes de serem compartilhados entre sistemas distintos. O conhecimento sobre terminologias clínicas, classificações, modelos de informação, interoperabilidade e qualidade dos registros deixa de ser um tema restrito à informática em saúde e passa a constituir uma competência estratégica para todos os profissionais envolvidos na produção e no uso da informação em saúde.
Essa necessidade revela outra limitação dos modelos de formação atuais. Não basta que existam cursos de Informática Biomédica, Computação, Engenharia ou Tecnologia capazes de desenvolver soluções tecnologicamente relevantes; essas soluções precisam ser plausíveis diante das diferentes ondas da transição digital em saúde. Ainda assim, a transição digital permanecerá incompleta se médicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas, nutricionistas, odontólogos, psicólogos e demais profissionais não compreenderem como os sistemas de informação funcionam, como os dados são estruturados, como a entrada de dados sustenta a recuperação da informação e como a qualidade dos registros influencia a interoperabilidade e a inteligência artificial.
Sob essa perspectiva, profissionais de saúde não são apenas usuários de tecnologias em saúde. Eles são igualmente responsáveis pelos processos de transição digital. Cada registro produzido com qualidade, cada padrão corretamente empregado e cada decisão relacionada à organização da informação contribuem para a evolução dos sistemas de informação em saúde. Significa dizer que as diferentes ondas da transição digital não avançam apenas porque novas tecnologias são desenvolvidas. Elas evoluem porque seres humanos comprometidos constroem, alimentam, aperfeiçoam e qualificam continuamente os ecossistemas informacionais que sustentam essas tecnologias.
Portanto, incorporar a abordagem aqui apresentada aos currículos das profissões da saúde é uma oportunidade para superar a fragmentação do ensino sobre tecnologias em saúde e reconhecer que a educação não apenas acompanha, mas também estrutura o próprio processo histórico da transição digital em saúde. Isso implica, por exemplo, ensinar de modo integrado a diferença entre sistemas de informação clínica, plataformas acadêmicas, bases de dados científicas, mecanismos de busca e inteligências artificiais generativas. Cada uma dessas tecnologias possui finalidades, arquiteturas, níveis de validação e responsabilidades próprias. Confundi-las ou utilizá-las de forma intercambiável no contexto clínico revela uma compreensão insuficiente da transição digital e pode comprometer a qualidade da informação, a segurança da tomada de decisão e a continuidade do cuidado.
Logo, formar profissionais capazes de reconhecer essas diferenças é condição para que a transição tecnológica avance, com segurança, responsabilidade e benefício efetivo para a sociedade.
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