
A biometria é uma forma de autenticação na segurança, semelhante a uma senha, mas que utiliza características pessoais do indivíduo. Existem diferentes tipos dessa autenticação, que pode ser pela leitura facial, das digitais, das veias da mão ou até o reconhecimento por voz e a maneira como o indivíduo faz sua assinatura.
Segundo o professor Fernando Santos Osório, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação de São Carlos da USP e pesquisador ligado ao Centro de Inteligência Artificial da USP, a biometria tem a vantagem de ser difícil de ser copiada ou obtida de forma ilícita, já que está “conectada” a uma pessoa.
Os tipos de biometria

O professor Marcos A. Simplicio Jr., da Escola Politécnica (Poli) da USP, separa dois tipos de biometrias: as estáticas e as dinâmicas. As biometrias estáticas se ligam com aspectos físicos que “não se espera que mudem”. Entre esse tipo, estão a biometria das digitais e das veias das mãos, utilizadas principalmente em sistemas bancários.
Já as biometrias dinâmicas agrupam características comportamentais, como a identificação por voz e modo de caminhar. “A minha voz não é tão estática. Ela muda um pouco de manhã, diferente de noite, se eu estou gripado, enfim, tem alguns fatores, mas, por exemplo, eu não falo a mesma palavra exatamente igual todas as vezes. Pode mudar um pouco a entonação. Um outro exemplo, que tem no filme Missão: Impossível, é a forma que a pessoa anda. A pessoa não anda sempre do mesmo jeito.”
Os fatores para escolher a biometria
Marcos A. Simplicio Jr., também coordenador do Laboratório de Arquitetura e Rede de Computadores da Poli-USP, diz que as principais biometrias utilizadas hoje são a facial e a digital. Ele explica que a utilização de um tipo específico de biometria depende de alguns elementos.
Simplicio divide cinco fatores principais que ajudam a escolher o melhor tipo de biometria para o serviço. O primeiro está associado com o custo. “Para você fazer leitura de uma face, você precisa de uma câmera. Câmera hoje é commodity. Tem diferença de custo em relação, por exemplo, a um daqueles leitores de veia das mãos”, que por ser maior e utilizar outros recursos, como o scan de infravermelho, torna-se mais caro. Outro fator é a acurácia, que está associada a de que forma aquele aspecto é único. Por exemplo, a biometria da íris possui mais detalhes do que a digital ou a facial. Sobre a facial, o professor comenta: “Tem pessoas que são parecidas: gêmeas, ou mesmo mãe e filha. Tem casos que os mecanismos de verificação muitas vezes se confundem”.

Por outro lado, a usabilidade deve ser levada em conta ou seja “o quão fácil é fazer aquela coleta”. “A digital você tem que colocar o dedo em um lugar específico. Tem que ser uma superfície limpa. Dependendo do local, pode ser difícil. Um ambiente fabril, por exemplo, que tenha pó é mais difícil usar a digital.” Os últimos dois fatores são a universalidade e a estabilidade. O professor explica que a universalidade refere-se a se todos os indivíduos que vão usar aquele serviço e que possuem o aspecto analisado. Um exemplo são pessoas que trabalham com substâncias abrasivas e tendem a perder as digitais. Já a estabilidade aborda a maneira com que efeitos externos podem prejudicar a biometria, como a poeira no ambiente industrial.
O funcionamento das biometrias e o uso da IA
As biometrias utilizam características, chamadas de minúcias, para identificar o indivíduo. Segundo Marcos A. Simplicio Jr., “[as minúcias] são pontos de interesse que caracterizam aquela biometria. Por exemplo, na face, costuma ser a distância entre os olhos, o formato do queixo, a distância entre nariz e boca, o tamanho da boca, o tamanho do nariz, a distância do nariz, o formato do crânio, ter o rosto mais redondo, mais alongado”.

O professor Fernando Osório complementa: “No caso da biometria de impressão digital, são consideradas as linhas da digital, que possuem descontinuidades, bifurcações, junções, laços, e esses detalhes da forma dos desenhos das digitais são denominados minúcias. Esses traços e atributos, características específicas e pontuais de um indivíduo, são padrões que podem ser reconhecidos e associados de forma muito confiável e quase única a uma pessoa”.
Após a coleta das minúcias, elas são comparadas dentro de um banco de dados de modo que se diferenciam os indivíduos por ela. Osório diz que a inteligência artificial (IA) pode ser treinada para identificar e analisar essas minúcias. “Os algoritmos de IA são capazes de identificar quais os traços que distinguem uma pessoa de outra, e quais os traços são característicos de uma determinada pessoa. Com isso, a IA é capaz de reconhecer e autenticar pessoas com uma alta taxa de acertos.”
A segurança de dados
Os dados gerados pelas coletas biométricas são pessoais e precisam ser guardados de forma segura. “O vazamento de dados biométricos é muito mais grave do que o vazamento de senhas. Uma senha você pode mudar. Uma propriedade e característica biométrica física é muito provável que você não vá poder alterar, assim como alterar a sua senha do banco. O roubo de dados biométricos é algo muito mais grave do que o roubo de senhas de acesso a um sistema”, diz Osório.
Simplicio afirma que os bancos de dados, ao invés de armazenar os dados da biometria bruta ou as minúcias, reservam as comparações. “Idealmente, até, nem são as minúcias diretamente armazenadas. Têm umas técnicas para fazer a proteção de banco de dados, o pessoal chama de revocable biometrics (biometria revogável), que você não guarda a informação bruta, certamente não, ou as minúcias. Você guarda informações derivadas das minúcias, quando você extrai as minúcias da leitura, você compara de forma protegida com o seu banco de dados.”
“Biometria não pode ser usada como único fator de autenticação”
O professor Marcos A. Simplicio Jr. alerta que a biometria não deve ser a única forma de autenticação e segurança de algum sistema. “Há muito tempo, todas as recomendações internacionais que eu conheço falam: ‘Não use biometria como único fator de autenticação”. Quer usar biometria mais senha? Manda ver! Usar biometria como único fator de autenticação está estritamente errado, por algumas razões, mas a principal delas é que biometria, ao contrário de outros fatores de autenticação, senha, cartão, ela não é revogável. Se eu perco meu cartão, eu peço um novo, se alguém rouba minha face e está se passando por mim, eu faço o quê?”
“Biometria não pode ser usada como único fator de autenticação, usar mais de um é bom sempre, nem precisa ser biometria, mas se for usar um único fator de autenticação como vários lugares fazem, não pode ser biometria. Se for usar um, eu sei que muita gente quer usar um só, não pode ser biometria”
Marcos A. Simplicio Jr.
O professor Fernando Osório acrescenta que a “prova de vida” é essencial para impedir que sistemas biométricos sejam enganados. “Se na biometria a pessoa está se apresentando pessoalmente e fornecendo sua biometria “em tempo real” (ao vivo), ela deve provar que está realmente “presente e ao vivo”. O reconhecimento de face não deve ser enganado por uma simples foto impressa, o reconhecimento de digitais não deve ser enganado por um dedo de plástico (sem vida, sem pulso), um reconhecimento de voz não deve ser enganado por uma simples gravação, e um reconhecedor de assinaturas não deve ser enganado por uma falsificação em papel. Por isso é importante poder verificar se realmente a pessoa está presente e ao vivo (interagindo) com o sistema”, conclui Osório.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira

























