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Exposição usa marcas do passado para pensar o futuro
Em cartaz na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, mostra reúne registros da Expedição Langsdorff - que há 200 anos percorreu o interior do Brasil, desde São Paulo até o Amazonas - para gerar reflexões sobre a preservação do ambiente
Há dois séculos, as paisagens brasileiras eram completamente diferentes: em vários pontos do País, florestas foram substituídas por edifícios e rios foram cobertos por concreto. É o que o se constata na exposição Langsdorff: A Expedição Fluvial 200 Anos Depois, em cartaz até 26 de junho na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. Nela, documentos produzidos pela Expedição Langsdorff – que de 1826 a 1829 percorreu mais de 16 mil quilômetros no interior do Brasil, de São Paulo até o Amazonas – são exibidos ao lado de fotografias atuais dos lugares visitados pelos participantes da expedição, entre eles o inventor e desenhista Hercule Florence, o pintor Aimé-Adrien Taunay, o astrônomo russo Néster Rubtsov e o botânico alemão Ludwig Riedel. Eles eram liderados pelo médico e naturalista russo Georg Heinrich von Langsdorff (1774-1852) e financiados pelo Império Russo do czar Alexandre I.
A mostra começa na Sala Multiúso da BBM, onde estão reunidas amostras botânicas da expedição, desenhos e escritos sobre os povos originários produzidos pelos viajantes, principalmente por Hercule Florence. Reproduções de seus registros de viagem ficam expostas em painéis pela sala. “Hercule é o único que conseguiu produzir um relato completo. Os desenhos dele são reproduções lógicas e já têm qualidade de gravura, ou seja, estão prontos para virar álbum de viagem”, diz a museóloga Francis Melvin Lee, curadora da mostra e superintendente do Instituto Hercule Florence, de São Paulo, que organiza a exposição em parceria com a Documenta Pantanal, a BBM, o Centro MariAntonia da USP e o Instituto Moreira Salles.
Nas paredes, painéis expõem excertos de cadernos de Florence que falam sobre os povos originários brasileiros. “Da sociedade dos apiacás podemos dizer o que se diria sobre sua nudez e sua comida, comparadas às condições do povo entre nós”, escreve ele. “Tudo é simples com eles; por consequência, nada é repugnante. Andam nus, o corpo é limpo, ignoram o grande princípio da propriedade e, assim, entre eles não há ladrões, assassinos, envenenadores ou falsários.’ Ao lado, são expostos textos e fotos sobre como aqueles indígenas se encontram atualmente. No caso dos apiacás, fica-se sabendo, por exemplo, que eles vivem em terras do Médio Tapajós e defendem seus territórios e saberes por meio do ativismo contra o desmatamento e o garimpo.
Também estão expostas duplicatas de plantas encontradas durante a expedição– exemplares extras da mesma espécie coletados na viagem. Uma delas, a Allophylus heterophyllus, pertence ao acervo do herbário da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP.
Os registros não são apenas de teor científico, mas também sobre o dia a dia da navegação pelos rios. Um exemplo disso são os desenhos do processo de varação – manobras para evitar o naufrágio diante de uma cachoeira ou outro obstáculo. “A depender do tamanho da força da queda d’água, ela tinha de ser varada”, diz o pesquisador João Carlos Cândido Santos, co-curador da mostra. “Ou seja, os viajantes paravam antes da cachoeira, colocavam toda a comida e os equipamentos no chão e levavam a canoa para o outro lado da cachoeira via terra. Depois colocavam tudo de volta e continuavam a jornada. Imagine o trabalho, dado que só no Rio Tietê existem mais de 100 quedas.”
Já na Sala BNDES da BBM, a exposição compara as ilustrações e textos sobre as paisagens brasileiras feitas durante a Expedição Langsdorff com fotos dos mesmos locais no século 21, feitas pelos fotógrafos João Pompeu e Lalo de Almeida. Em seu retrato sobre o Pantanal, por exemplo, Florence desenhou uma cascata de água cercada de arbustos e árvores, com um relato: “A região é uma imensa planície que mede 90 léguas do norte ao sul e cerca de 35 léguas de oeste a leste. Quase sempre inundada, a quantidade de água varia muito entre a estação seca e a chuvosa. O rio Paraguai, ao recuar para seu leito, deixa descobertas extensas áreas pontilhadas de baías, lagos de diferentes dimensões e canais que se interligam. Quando o rio transborda, inunda toda a região chamada Laguna de los Araiés, que os brasileiros designam como Pantanais Gerais”.
Ao lado desses registros, são exibidas fotos da década de 1970, entre outras, que mostram um cenário diferente daquele descrito pelos viajantes da expedição realizada há dois séculos. “Onde estão aquelas nascentes do Rio Paraguai, as sete léguas descritas pelos viajantes? Não sobrou nada no meio de toda a plantação de soja”, diz a curadora Francis Melvin Lee. Ela se pergunta sobre a possibilidade de conservação dessas paisagens, tão diferentes hoje. O pesquisador João Carlos Santos acrescenta: “Queremos chamar a atenção para essa destruição e promover uma reflexão entre esse passado, o presente e o que será do nosso futuro”.
Para o diretor da BBM, professor Marcelo Candido da Silva, o recurso utilizado na exposição, de aproximar os registros da expedição a imagens atuais, deixa em evidência a gravidade da devastação que transformou as paisagens brasileiras. “Em um contexto marcado pelo agravamento da crise climática, pelo avanço do desmatamento e pelas disputas em torno dos territórios tradicionais, a mostra torna o bicentenário da viagem uma ocasião para recolocar uma pergunta decisiva: o que foi feito do Brasil documentado há 200 anos?”, questiona o professor.
“Essa exposição tem relação direta com a própria trajetória editorial da BBM, que coeditou, em parceria com o Instituto Hercule Florence, o livro Viagem Fluvial: do Tietê à Amazônia, que traz o manuscrito e as imagens produzidos por Hercule Florence durante a expedição”, adiciona Silva.
De São Paulo até o Amazonas
Em 1825 começaram as preparações para a partida da expedição guiada por Georg Heinrich von Langsdorff, que era cônsul-geral da Rússia no Rio de Janeiro desde 1813. O caminho traçado era a Rota das Monções, que ia de São Paulo ao Mato Grosso por vias fluviais – começava no Rio Tietê e ia parar no Amazonas. “Nessa época, as grandes nações europeias estavam atrás de potenciais econômicos do Novo Mundo. O objetivo da expedição, então, era ‘dar uma olhadinha’ nos recursos vegetais, animais e minerais do território brasileiro”, conta a curadora Francis.
Os problemas começaram quando Langsdorff ficou doente na região amazônica. “Ele foi acometido, provavelmente, por malária e perdeu sua memória devido às febres. Outros membros do grupo contraíram a mesma doença. Hercule Florence foi o único que se recuperou. Por isso, teve de assumir as rédeas da expedição”, explica Santos.
Mas os contratempos não pararam por aí. Riedel e Taunay decidiram se separar do restante do grupo. O primeiro ficou doente e teve de ser transportado até o destino final via canoa e o segundo morreu afogado no Rio Guaporé. Assim, a maior parte da documentação da jornada recaiu sobre Florence, que desenhou e anotou as características das paisagens e das sociedades do País tropical em seus cadernos. Quando a viagem acabou, o czar Alexandre I, que havia patrocinado a expedição, já havia morrido e seu sucessor decidiu armazenar os materiais científicos coletados nos porões da Academia Científica de São Petersburgo, na Rússia, onde permaneceram por décadas. Quando encontradas, as amostras foram espalhadas pelo mundo.
A mostra Langsdorff: A Expedição Fluvial 200 Anos Depois reúne diversos desses documentos, não só para contar essa história do passado, mas também para fazer o público pensar no futuro. “Recuperar a documentação permite a análise do conteúdo com os olhos de hoje e por diversos pontos de vista”, destaca João Carlos Santos. “Podemos trazer questões decoloniais, história dos povos indígenas, história dos afrodescendentes, história das mulheres e história de outros grupos denominados minoritários, entre outros”, declara João Carlos Santos.
Ciclo de cinema para refletir
A exposição Langsdorff: A Expedição Fluvial 200 Anos Depois e a Documenta Pantanal – iniciativa que visa divulgar as características naturais do Pantanal e os perigos à integridade do bioma – vão realizar um ciclo de cinema no Centro Cultural MariAntonia e no auditório da BBM, entre os dias 16 e 25 de junho. Os 14 longas-metragens a serem exibidos abordam temas como a natureza brasileira e as identidades e tradições do País.
Os filmes se dividem em oito eixos temáticos: Expedições e Descobertas; Exploração e Resistência; Povos Indígenas, Guardiões da Floresta; Rios e Travessias; Amazônia Mítica e Real; Pantanal Vivo; Cidades e Natureza; e Natureza Poética. Alguns dos filmes confirmados na programação são Iracema: Uma Transa Amazônica (1975), de Jorge Bodanzky, Segredos do Putumayo (2022), de Aurélio Michiles, e Sinfonia da Sobrevivência (2024), de Michel Coli.
A exposição Langsdorff: A Expedição Fluvial 200 Anos Depois fica em cartaz até 26 de junho, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis.
* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro
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