O cenário de diversidade também se reflete na distribuição dos efetores descobertos entre os diferentes grupos de Salmonella. O artigo mostra que cada um desses grupos apresenta uma combinação própria de moléculas secretadas pelo T6SS. Isso indica que a bactéria seleciona e mantém efetores específicos de acordo com as pressões do ambiente em que vive. “A evolução desses sistemas e essa diversidade é estimulada tanto pela recombinação de genes, que acontece frequentemente para gerar e ativar novas toxinas, como pela seleção natural que, em um cenário de conflito biológico, impulsiona uma ‘corrida armamentista’ entre as bactérias”, afirma Souza.
Os dados ainda indicam que subgrupos de Salmonella coletados em ambientes naturais tendem a apresentar um número maior de efetores do que aqueles provenientes de pacientes, sugerindo que a diversidade de toxinas aumenta em contextos com maior variedade de competidores. “Isso acontece porque, à medida em que surgem novos desafios e adversários, o microrganismo precisa desenvolver novas ferramentas para sobressair nessas disputas por recursos”, explica o pesquisador.
De acordo com o pesquisador, os achados devem contribuir para o entendimento das estratégias de competição bacteriana e abrir caminho para novas aplicações clínicas e biotecnológicas. “Podemos ter, inclusive, aplicações que nem podemos antecipar ainda”, prevê Souza. “Acreditamos nisso porque, por exemplo, alguns de nossos trabalhos anteriores já demonstraram que proteínas importantes em eucariotos tiveram origem em toxinas bacterianas”, acrescenta, destacando o potencial desses compostos em diferentes contextos biológicos.
Souza ressalta que o campo ainda está longe de ser esgotado. “Bactérias como Salmonella, Acinetobacter e outros organismos ainda oferecem oportunidades para entendermos o papel dessas toxinas nas interações ecológicas”, afirma. “Continuamos investindo no desenvolvimento de softwares e pipelines para automatizar esse tipo de análise e ampliar a investigação para novas linhagens, como arqueas e bactérias menos conhecidas, que representam ainda mais oportunidades para esse tipo de descoberta”, conclui.
*Texto: Bianca Bosso, da Comunicação do Cepid B3. Adaptado para o Jornal da USP por Júlio Bernardes
**Estagiária sob orientação de Simone Gomes

























