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Em que momento a masculinidade passa a ser “tóxica”?
Heloísa Almeida explica que o conceito de masculinidade é algo complexo e diverso e que mudanças sociais não devem ser consideradas ameaças ao gênero masculino
Apesar da ideia equivocada de “masculinidade tóxica”, alguns comportamentos violentos associados à masculinidade surgem como uma resposta às conquistas do feminismo – Imagem: Freepik
Um estudo divulgado pela revista Nature definiu diversos indicadores da chamada “masculinidade tóxica” em homens heterossexuais, que incluem sexismo, conduta violenta e preconceito contra outras sexualidades. Porém, o estudo descobriu que a masculinidade não é necessariamente um aspecto problemático entre os homens. Heloísa Almeida, professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, explica que o termo pode ser problemático.
“No campo da antropologia, esse termo ‘masculinidade tóxica’ não é muito utilizado, porque é um termo avaliativo, que pressupõe a existência de uma normatividade e uma masculinidade boa, oposta à ‘masculinidade tóxica’. Na realidade, quando se estuda gênero, é abordado tanto as masculinidades quanto as feminilidades, como o que é ser uma mulher ou o que é ser um homem socialmente. Hoje em dia nós também temos novas questões de gênero, como, por exemplo, as pessoas trans e as pessoas não binárias, que também estão no nosso escopo do campo dos estudos de gênero. Cada época, cada sociedade, cada período histórico tem construções sobre o que é uma masculinidade ideal, uma feminilidade ideal, e o que tem sido observado nos últimos tempos é que não existe uma masculinidade ou um modo de ser homem, porque a gente pensa sempre o gênero atravessado por outros marcadores sociais da diferença.”
Heloisa Buarque De Almeida – Foto: Academia-USP
Comportamentos violentos
Heloísa ressalta que, apesar da ideia equivocada de “masculinidade tóxica”, alguns comportamentos violentos associados à masculinidade surgem como uma resposta às conquistas do feminismo. “Das pesquisas que nós temos sobre violência, seja violência doméstica ou contra mulheres em geral, a gente percebe que, quando as mulheres começam a ganhar um pouco mais de direitos, essa violência, no início, aumenta. É uma relação que os homens sentem, de algum modo, ameaçados por novas formas de poder e pelos direitos das mulheres. Na violência doméstica, por exemplo, se a esposa começa a ganhar um pouco mais do que o marido, ele começa a ficar violento. É uma masculinidade muito frágil e que se sente ameaçada por qualquer coisa, resultando nessa violência.”
“Se a gente quer melhorar a violência de gênero, a gente tem que falar de gênero na escola, com as crianças mais novas. O modo, por exemplo, que a gente produz a violência é uma masculinidade bastante convencional, que é, por exemplo, o menino chega na escola e chora, e o pai vira para ele e fala: ‘Menino não chora! engole o choro!’ Ou o menino chega em casa, triste, e diz que alguém lhe bateu, e as pessoas em volta falam: ‘Bate de volta!’ Esse comportamento é uma forma de ensinar uma masculinidade que determina que o menino não pode chorar ou ter sentimentos, mas que ele pode bater. Se ele ficar infeliz com alguma coisa ou se ele se sentir ameaçado, a reação dele será violenta. Esses ensinamentos sempre foram muito naturalizados na sociedade brasileira”, explica Heloísa.
Mudanças não devem ser consideradas ameaças
A professora explica que as mudanças da sociedade não devem ser consideradas ameaças à masculinidade, mas atitudes que promovem a igualdade. “Esse tipo de masculinidade que pode ser violenta e agressiva é a responsável por isso que a gente está vendo no Brasil: o aumento de feminicídios, da violência contra as mulheres, crianças, idosos e pessoas LGBT+. Isso vem de uma masculinidade que se sente muito questionada no mundo de hoje, porque a gente tem leis que favorecem os direitos das mulheres, que promovem a igualdade e que criminalizam esse tipo de violência, mas eles, com isso, se sentem atingidos. Quando, na verdade, a gente está só tentando colocar uma situação de maior igualdade na sociedade”, finaliza a professora.
*Sob a supervisão de Paulo Capuzzo
**Estagiário sob orientação de Simone Gomes
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