Exposições exaltam a cor como elemento fundamental da arte

Em cartaz no Centro MariAntonia da USP, as mostras Laboratório da Cor e Flexões do Espaço e da Cor abordam a diversidade e os recursos estéticos do pigmento

 28/08/2025 - Publicado há 12 meses     Atualizado: 12/09/2025 às 16:09

Texto: Manuela Trafane*
Arte: Gustavo Radaelli**

Exposição Laboratório da Cor no Centro MariAntonia – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A cor e a produção artística estão intrinsecamente conectadas: o que seria de Van Gogh sem seu amarelo? Ou de Mondrian sem seu vermelho? Sem seu azul? Para refletir sobre o pigmento como elemento fundamental da arte, o Centro MariAntonia da USP promove as mostras Laboratório da Cor e Flexões do Espaço e da Cor, que ficam em cartaz até 26 de outubro. A entrada é grátis.

Laboratório da Cor

Um laboratório é um local dedicado à realização de experimentos, pesquisas e análises. É justamente esse o objetivo da exposição Laboratório da Cor. Formada por um grupo de 21 artistas participantes ou ex-participantes do Grupo de Pesquisa Cromática, criado pelo professor Marco Gianotti, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, a mostra aborda as muitas facetas da cor. “Não é uma exposição pronta”, fala Gianotti. “Não é uma mostra cuja ambição é apresentar uma pesquisa feita e completa. Tem um sentido pedagógico de tentar trazer essa experiência para o público.”

O grupo foi criado por Gianotti na USP há cerca de 15 anos, e hoje engloba pesquisadores de outras universidades brasileiras. Mesmo fazendo produções artísticas, o núcleo duro dos estudos cromáticos é a pesquisa acadêmica. “Eu fui percebendo que a pesquisa da cor é muito ampla, implica o estudo de antropologia, de sociologia, de música, de fotografia, de neurociência”, explica Gianotti. 

Como as abordagens são amplas, a diversidade se torna um marco em Laboratório da Cor. Na mostra, são apresentadas diferentes perspectivas sobre a aplicação da cor em várias linguagens artísticas.

Instalação pictórica Espaços para Sonhar, por Jociele Lampert – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A professora Paloma Carvalho, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), uma das organizadoras da mostra, ressalta essa característica em sua descrição dos trabalhos. “Você tem o Moracy Almeida produzindo tinta com terra, tem a Claudete Luginieski fazendo pintura com a terra amassada e imprensada em madeira e a Taís Cabral pintando com tingimento natural índigo sobre madeira brasileira”, exemplifica a professora. “Ao mesmo tempo, tem um paredão com os artistas usando cores mais saturadas, com as tintas industriais, vibração e paleta mais intensas.”

Além de participar da curadoria, Paloma também tem obras expostas: a instalação em fachada Cachoeira Prismática: Homenagem aos Córregos Pacaembu, Saracura e Bixiga, a pintura em assemblagem Blobs Paulistanos: Contaminação Arquitetônico-Construtiva e a pintura sobre tela industrial Aquarela Meditativa. A instalação é constituída de dez longos pedaços retangulares de polietileno, pintados com tinta acrílica. Está exposta do lado de fora do salão expositivo, na área externa do Centro MariAntonia. 

O movimento do vento faz o polietileno balançar como uma cachoeira, justificando o nome da obra. Já o subtítulo vem da mudança no trabalho da artista, que embarca agora em uma pesquisa política, olhando para a natureza. “Minha intenção é falar com as pessoas mais simples. Por isso eu quero ir além do espaço fechado do museu. Quero ir para o espaço público”, diz Paloma.

Os Blobs Paulistanos, por sua vez, ficam dentro da sala. São pequenas cúpulas de acrílico com elementos coloridos soltos, inspiradas nas pastilhas dos prédios modernistas — uma tentativa de incorporar objetos e cores da cidade que chamam a atenção de Paloma. 

Pintura Aquarela Meditativa e assemblagem Blobs Paulistanos: Contaminação Arquitetônico-Construtiva, por Paloma Carvalho – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Instalação em fachada Cachoeira Prismática: Homenagem aos Córregos Pacaembu, Saracura e Bixiga, por Paloma Carvalho – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Outro artista presente na mostra, Luciano Deszo expõe três de seus óleos sobre tela. Para ele, a pintura é quase inteiramente cor. “Tanto que, em alguns idiomas, cor e tinta são a mesma palavra”, destaca.

Seu quadro Vuelta al Mundo, por exemplo, retrata um grupo de pessoas numa roda gigante, visto de cima. Os personagens sorriem, apontam e tiram fotos do espectador, de forma a inseri-lo na paisagem. As outras duas obras de Deszo, Dall-E_ex004 e SD I, são perspectivas de dentro dos carrinhos de montanhas-russas.

Para fazê-las, o artista usa a inteligência artificial como ferramenta. O momento dentro dos brinquedos é difícil de captar, logo, a tecnologia se torna ajudante, ao produzir referências para maximizar a qualidade das obras, como ele explica.

Antes, ele tentava aproximar as cores nos quadros daquelas produzidas pelo robô. Hoje, atribui valor emocional às escolhas. “Se coloco junto do azul um cor-de-rosa e os dois me causam uma sensação boa, penso em usar mais vezes essa combinação”, afirma Deszo. Também existe uma carga nostálgica nas escolhas. Um tom importante para ele é o teal, mistura entre pigmento de cobalto e azul-turquesa. “Essa era a cor representante dos anos 1990, que foi quando frequentei mais os parques.”

Série Índices de Presença, por Júlia Hallal – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Pintura Don’t Be Suspicious, por Raquel Magalhães – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A artista Anabel Antinori, mestre pela ECA, também expõe pinturas a óleo. Ao produzi-las, usa a colagem como mote, mesmo sem colar nada na tela. Ela cria digitalmente “composições colagísticas” usando um estoque de fotografias — em sua maioria, autorais. Após variar as imagens e posições, chega ao conjunto perfeito e pinta-o na tela de algodão. 

Oito obras de Anabel estão na mostra: a dupla Noturna I e Noturna II e a série de seis quadros 30×30 Areia Quente, Água morna, Palma da Mão. Suas telas contam histórias e buscam dar sentido à estranheza do cotidiano por meio de suas próprias experiências. 

Em uma das telas, a artista retrata uma anchova no topo, algumas figuras geométricas no centro e seu autorretrato pela metade, na parte inferior da tela. “É um convite para o espectador refletir sobre a incompletude das imagens e como, às vezes, elas não dão conta de narrar o todo.” As cores são abordadas em suas obras como elementos em um contexto. Nunca são trabalhadas sozinhas, mas sim como conjuntos-colagens.

Tela 30×30 da série Areia Quente, Água Morna, Palma da Mão, de Anabel Antinori – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Dupla Noturna I e Noturna II e série Areia Quente, Água Morna, Palma da Mão, de Anabel Antinori – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Durante o mês de setembro, os artistas farão visitas guiadas pela exposição. Além disso, serão disponibilizadas 150 vagas para participar de um workshop gratuito sobre cor, nas segundas-feiras de novembro, que será ministrado pela professora Paloma Carvalho.

Instalação da série Terra Estrangeira, de Monica Tinoco – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Flexões do Espaço e da Cor

Na sala ao lado da mostra Laboratório da Cor está a exposição Flexões do Espaço e da Cor. Na parede do espaço, pode-se ler: Quando a cor atinge a riqueza, a forma está na sua plenitude, Paul Cézanne. “Essa frase sempre me deixou muito intrigado. Como eu sei que a cor atingiu a riqueza para a minha forma estar na plenitude?”, indaga Marcus Vinícius, artista plástico responsável pelas obras apresentadas em Flexões do Espaço e da Cor. “Eu ficaria muito na dúvida procurando esse tom.” 

Para fugir do questionamento, Vinícius inverteu a equação de Cézanne. Ao usar formas plenas, como quadrados e retângulos, a cor colocada nelas estará, por natureza, em sua riqueza — as obras de Marcus Vinícius se encaixam nessa matemática do avesso.

A coleção Catálogo 2, por exemplo, engloba 40 quadros com cores sólidas. A tinta utilizada foi a automobilística. “Elas são feitas por fórmula. Você vai ao colorista, que atende a indústria automotiva, pede uma cor do catálogo dele e ele faz.” Por ser pintada com pistola, não existe impressão de marcas na superfície do painel, apenas a cor lisa, o que retira a evidência do corpo a corpo entre pintor e suporte.

Os tons escolhidos nela foram usados como base para outra série, Quadros Verticais. Composta de seis telas verticais com largura semelhante à do corpo humano, ela tenta gerar uma sensação de identificação com o espectador. Para compor as obras, pedaços de fórmicas foram cortados em finos retângulos e colocados formando áreas brancas em contraste com áreas de cor intensa. O artista comenta ter recebido diversas perguntas sobre como combinou as cores escolhidas. Segundo ele, isso foi “em certa medida um acaso controlado”. Primeiro, ele postou as tiras nos locais desejados das telas e as numerou. Depois, coloriu cada uma delas à medida em que pintava as obras de Catálogo 2.

Quadros Verticais, por Marcus Vinícius – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O objetivo desse processo foi explorar os diversos elementos da estrutura de sua arte: ao adicionar partes “desmembráveis”, é possível modificá-las conforme variam as discussões trazidas pelo artista. Ora com ênfase maior na cor ou na dimensão da obra, ora com menor foco na tinta. Além disso, ele afirma que queria fazer experimentações sobre como as cores se relacionam. “Eu diria que isso dialoga com toda a história da arte, porque faz parte de uma tradição iniciada com o abstracionismo, principalmente o abstracionismo geométrico, no início do século 20. Mas também vem de uma tradição dentro da arte brasileira: o concretismo, iniciado a partir dos anos 1950.”

Nas outras obras da mostra, usou o vidro. “Ele tem função protetora. Você o coloca na obra para proteger algo frágil ou algo que não deve ser tocado”, afirma o artista. Essa função se mantém nas pinturas. Por ser um material menos poroso, a tinta fica na superfície do vidro, suscetível a descascar. Assim, ele é virado ao contrário, com a parte pintada protegida. 

Já a propriedade refletora do material é usada nas obras para gerar intriga no público. “O contraste entre a superfície opaca da tinta que está no MDF e a tinta que está no vidro cria uma relação de interesse. Eu tenho certeza de que vejo a pintura opaca. Mas a cor, eu não tenho muita certeza sobre ela, por conta do reflexo no vidro.”

Interação de cores por proximidade

Marcus Vinícius nasceu em 1967 em uma família de marceneiros. Por isso, quando jovem, aprendeu com seu pai como trabalhar a madeira. Mas, por trás do serrote e da lixa, o garoto se apaixonou pelo lápis e pelo pincel. “Muito novo, eu comecei naturalmente a me interessar pelo desenho”, diz. 

A paixão era tanta que, como presente de seu aniversário de 13 anos, pediu para o pai ensinar a ele o caminho até o Museu de Arte de São Paulo (Masp). Depois disso, passou a ir quase todos os dias ver a coleção de obras do museu.

Mesmo antes disso, quando Vinícius tinha 10 anos, seu pai notou seu talento e o apresentou a um amigo artista, Tino, que serviu de mentor ao futuro artista. “O Tino sempre me falava que um pintor tinha de encontrar a sua própria cor, aquela misturada na paleta. Quanto mais eu misturasse as tintas e procurasse um tom pessoal, melhor seria para o meu trabalho.” Mas ele decidiu ir contra seu mentor. 

Marcus Vinícius - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O artista Marcus Vinícius – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O trabalho tonal não cabia em seu estilo artístico, então passou a utilizar apenas cores de catálogo — ou seja, aquelas já vindas prontas de fábrica. A interação entre as colorações em suas obras ocorre apenas por proximidade, não por mistura. No começo tinha apenas algumas opções, mas, quando descobriu as tintas automotivas, usadas no Catálogo 2, ganhou um novo espectro. “Eu tinha antes 30 cores, agora tenho 3 mil, entendeu? Difícil é escolher entre elas.”

As exposições Laboratório da Cor e Flexões do Espaço e da Cor ficam em cartaz até 26 de outubro, de terça-feira a domingo e feriados, das 10h às 18h, no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, região central de São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. Mais informações estão disponíveis no site do Centro MariAntonia.

 *Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro

**Estagiário sob orientação de Moisés Dorado

Catálogo 2, por Marcus Vinícius – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens


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