Exposição no Espaço das Artes exibe a diversidade e a resistência da pintura

Em cartaz até 5 de setembro, mostra reúne obras de 19 artistas de diferentes gerações

 22/08/2025 - Publicado há 12 meses     Atualizado: 29/08/2025 às 17:40

Texto: *Clara Hanek

Arte: Simone Gomes

Quadros pendurados em duas paredes e um quadro colocado no meio do salão.
A exposição "Espelho Fragmentado", no Espaço das Artes, na Cidade Universitária - Foto: Marcos Santos/USP IMagens

A pintura pode ter perdido espaço na arte do século 21, mas ainda é capaz de refletir a contemporaneidade e, mais importante, afetar a sensibilidade das pessoas. É o que afirma a artista Fernanda Luz, que organizou, com o professor Geraldo de Souza Dias, do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, a exposição Espelho Fragmentado, em cartaz até 5 de setembro no Espaço das Artes, na Cidade Universitária. Inaugurada no dia 18 passado, a mostra reúne obras de 19 artistas de diferentes gerações, que expressam a diversidade possibilitada pela pintura. “A pintura é capaz de gerar vínculos entre as pessoas, diálogos, conversações e comunidades”, continua Luz, que faz mestrado em Poéticas Visuais na ECA. “A exposição é esse ponto de encontro entre gerações e entre o público e os artistas.” 

A mostra faz referência à exposição Der zerbrochene Spiegel (“O espelho fragmentado”), que aconteceu em 1993, em Viena, na Áustria. Com a participação de 40 artistas, que exibiram cerca de 300 obras, essa exposição teve o objetivo de fazer “refletir sobre a permanência, no cenário artístico, dessa linguagem milenar tantas vezes declarada morta, a pintura”, de acordo com o texto de apresentação de Espelho Fragmentado, assinado pelo professor Geraldo de Souza Dias.

Como na mostra ocorrida em Viena, a exposição no Espaço das Artes também evidencia os impulsos da pintura contemporânea, com formas que surgem através da interação com as novas tecnologias. Mas, em contraste com Der zerbrochene Spiegel, em vez de refletir sobre o ato de pintar, “aqui o intuito é entender que cada proposta pode ser como um fragmento do grande espelho capaz de refletir criticamente o mundo visível”, segundo Souza Dias.

Fernanda Luz conta que, para o professor Souza Dias, era importante que a exposição girasse em torno do afeto, com pessoas que foram pintores ou que continuaram a pintar apesar das dificuldades. Como os convites foram majoritariamente feitos por Luz e pelo professor, duas gerações de artistas estão presentes. Para Luz, o resultado ficou “muito interessante para gerar diálogos e ver como a pintura ainda persiste”.

Homem careca num salão com quadros pendurados na parede.
O professor Geraldo de Souza Dias, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, organizador da exposição - Foto: Marcos Santos/ USP Imagens

As obras

O artista e professor Carlos Alberto Fajardo e uma de suas obras expostas em "Espelho Fragmentado" - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A exposição começa com um espaço dedicado a obras do artista Carlos Alberto Fajardo, que é professor do Departamento de Artes Plásticas da ECA. Elas são compostas de instalações em vidro e fórmica em madeira, o que destoa da mostra, dedicada à pintura. Mas, segundo Fajardo, seus trabalhos se relacionam com a história da arte pictórica. Ao conceber suas obras, ele pensou em como trabalhar com cor sem fazer ação pictórica. Ele conseguiu isso com peças de fórmica montadas em madeira, todas nas mesmas dimensões e com as mesmas cores, mas trocando a posição das cores em cada peça. “Operei e fiz uma modificação em que mantém-se sempre o espaço físico e muda-se sempre o espaço cromático. Tenho todas as possibilidades de variação sem repetir uma vez a imagem”, diz Fajardo. 

Em outra obra, Fajardo sobrepõe vidros laminados em ângulos de inclinação diferentes em relação à parede, provocando uma reflexão dupla. Os vidros, apoiados no chão e encostados na parede, estabelecem uma relação de reflexão com o público. “Tem um fantasma da imagem, uma duplicação. Para mim, isso é muito interessante. Esse trabalho está integrado nessa relação estranha entre as pessoas e a alma delas”, explica Fajardo.  “Ele não tem estrutura narrativa, não conta nada. Não tem nada dentro dele, a não ser o reflexo. Ele trata das pessoas que o veem.”

 

Pinturas penduradas numa parede.
A obra "Folhas e Janelas" (2025), de Fernanda Luz, pendurada no teto - Foto: Marcos Santos/ USP Imagens
Painéis de madeira expostos numa parede.
Peças de Carlos Alberto Fajardo, que têm as mesmas cores, mas em posições diferentes - Foto: Marcos Santos/ USP Imagens

As outras obras presentes em Espelho Fragmentado colaboram para a diversidade da exposição. Entre elas estão dois trabalhos de Fernanda Luz, que fazem parte de sua pesquisa de mestrado, Reflexos Botânicos e Folhas e Janelas. A primeira nasceu de um passeio da artista pelo Jardim Botânico de São Paulo. “Nela, o sentido de cima e baixo é alterado, a vegetação se reflete num corpo de água, em conjunto com as vigas do teto de uma estufa, assim, sabemos que não se trata de uma paisagem natural pura”, comenta. Na pintura, óleo sobre linho, pode ser observada essa relação entre o natural e o construído. 

Já Folhas e Janelas, óleo sobre papel japonês, tem como foco folhas de palmeiras, com uma construção e janelas ao fundo. Ela foi disposta pendurada do teto do Espaço das Artes e se balança de forma suave, conforme o movimento dos visitantes na sala. “A gramatura do suporte permite que a luz atravesse, e afeta a forma como enxergamos a obra. Foi pintada tanto por verso como reverso e muda em relação com a luz”, explica Fernanda Luz. 

Quadro com pintura abstrata.
"Água", de Flávia Fernandes - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Óleo, madeira e linho

Outra obra da exposição, Sem título (2025), de Cláudio Barros,  se destaca pelo suporte utilizado: vigas de madeira. Pintada a óleo, a imagem é composta de diferentes elementos urbanos, como carros, construções e placas. 

A madeira também foi utilizada por Tom Wray, artista britânico radicado no Brasil, em sua obra Cut ‘n’ Paste Poem, Yellow (2023). Feita com spray e esmalte sintético, a peça chama a atenção pela vivacidade e diversidade de cores. Wray tem história com a prática do grafite, o que é evidenciado pelas referências presentes na obra.

Roda da Fortuna (2025) é uma pintura feita por Alam Lima. A obra, óleo sobre tela, retrata uma mulher nua, sentada em uma cadeira de rodas, com as mãos nos seios, em frente a uma paisagem litorânea. O professor Geraldo de Souza Dias comenta que a mulher é real e ficou feliz quando Lima mostrou para ela o resultado final. 

Vistas Impedidas, da série Zona de Transição (2020), de Francis Rodrigues, é composta de material têxtil e acrílica sobre tecido. A pintura é também uma colagem, com sobreposição de suportes e paisagens fragmentadas. 

Remanescentes (2025), de Adriel Visoto, óleo sobre linho, é feita em pequena escala (18x15cm), mas cheia de detalhes, em uma representação fiel da realidade. Na peça de tons alaranjados, observa-se o canto de um cômodo, dois abajures, um banco e a ponta de uma janela. “É um trabalho minucioso, dá para perceber que o artista está observando a imagem e a transpondo, o que é um processo difícil. Pode perder-se o encanto, mas aqui ele consegue manter”, comenta Souza Dias. 

A obra "Mito de Europa (Rapto e Violação) em 4 versões" (2015-2022), de Geraldo de Souza Dias - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A exposição Espelho Fragmentado está em cartaz até dia 5 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 10h às 20h, no Espaço das Artes da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP (Rua da Praça do Relógio, 180, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. Não é preciso fazer agendamento.

* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro


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