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Monólogo traz a solidão de Robinson Crusoe para os dias de hoje
Em cartaz no Teatro da USP, peça fica em cartaz na Cidade Universitária somente nesta semana
O solista do monólogo é sorteado ao vivo em frente aos espectadores, no início da peça – Foto: Divulgação/Cacá Bernardes/Cia. de Teatro Acidental
Um sorteio entre os atores e um naufrágio. Assim começa a peça Coro dos Solitários, ou Sonhamos Ser Robinson Crusoe, inspirada no romance centenário do escritor inglês Daniel Defoe (1666-1731). A cada apresentação, o único papel do monólogo é sorteado ao vivo entre quatro atores da Cia. de Teatro Acidental. Artur Kon, Cauê Gouveia, Mariana Dias e Mariana Otero obedecem ao mesmo roteiro, que escreveram coletivamente, mas oferecem experiências únicas ao espectador. A temporada gratuita do espetáculo estreia nesta quinta-feira, dia 3, e fica em cartaz até domingo, dia 6, no Teatro da USP (Tusp), na Cidade Universitária.
O ator sorteado interpreta uma versão contemporânea de Robinson Crusoe, protagonista de uma das obras mais influentes da literatura inglesa. O livro narra a história do único sobrevivente de um naufrágio, que passa 30 anos isolado em uma ilha deserta no Caribe. Além de lutar pela sobrevivência, garantindo alimento e abrigo, Crusoe enfrenta o peso da solidão, levantando questões sobre a necessidade humana de convivência e o papel do indivíduo na sociedade. Três séculos depois de sua publicação, num mundo pós-pandemia, esse embate centenário entre isolamento e pertencimento ganha novos contornos.
“A gente parte do original do Daniel Defoe para colocar outras referências filosóficas e dramatúrgicas contemporâneas”, explica o diretor Diego Moschkovich ao Jornal da USP. “É menos para contar a história do Robinson Crusoe e mais para criar uma reflexão sobre a solidão contemporânea a partir dessa história. O que é ficar sozinho hoje em dia? É possível ficar sozinho hoje?”, acrescenta. Para Moschkovich, o livro de Defoe é uma referência no pensamento contemporâneo. “Ele marca um momento importante de criação do que nós somos enquanto indivíduos ocidentais, de cabeça ocidentalizada.”
Publicado em 1719 no Reino Unido, Robinson Crusoe carrega as ideologias dominantes na Europa da época, como o Iluminismo e o colonialismo. O protagonista personifica a lógica iluminista ao dominar a natureza da ilha pela racionalidade. Além disso, ele reflete a lógica colonial que imperava na época ao tratar a ilha como um espaço a ser explorado. O maior exemplo disso é a relação de Crusoe com o personagem Sexta-Feira, um indígena caribenho a quem ele ensina inglês, impõe sua cultura e submete à servidão.
A criação coletiva de um isolamento
“Se a gente tiver a mesma peça, o mesmo texto, a mesma encenação, as mesmas marcações, a mesma luz, a mesma música, vai ser a mesma peça?” É isso o que a Cia. Teatro Acidental tenta responder em cena. “Apesar de serem duas pessoas passando pela mesma partitura, com as mesmas palavras, são outras as reflexões suscitadas no público quando uma pessoa ou outra fala”, afirma Moschkovich.
Na Cia. Teatro Acidental, todos os membros colaboram na criação dos projetos. Coro dos Solitários começou com uma leitura coletiva do livro, mas não parou por aí. “O processo de criação partiu não só das percepções do texto, mas de alguns dispositivos de criação trazidos pela direção, como forma de a gente se aproximar da temática da solidão, e como forma também de se apropriar do texto não só decorando, mas entendendo a lógica e o desencadeamento dos acontecimentos”, afirma a atriz Mariana Dias, em texto publicado no Instagram da companhia.
O diretor Diego Moschkovich descreve uma das experiências cênicas propostas ao longo de seis meses de criação: “A tarefa era se isolar. Cada um escolhia um andar do prédio, saía para a rua ou para um outro lugar e ia mapeando as suas sensações e pensamentos. Depois de ficar uma hora isolado, tinha dez minutos para gravar um fluxo de pensamentos sobre essa experiência de isolamento. A partir desses áudios, a gente foi compondo um material cênico para levar à sala de ensaio”. Com as colaborações, o dramaturgo Artur Kon preparou o roteiro, que ficou pronto no último mês de dezembro.
A peça Coro dos Solitários, ou Sonhamos Ser Robinson Crusoe está em cartaz desta quinta-feira, dia 3, até dia 6, domingo, no Teatro da USP (Tusp), localizado no Centro Cultural Camargo Guarnieri (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, em São Paulo). As sessões acontecem às 19 horas, às 20h30 (de quinta-feira a sábado), às 18 horas e às 19h30 (domingo). Entrada grátis.
* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro
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