Mostra na USP reúne 120 trajes usados em religiões e festas afro-brasileiras

Os trajes foram confeccionados e usados em terreiros, ritos e folguedos e estarão expostos no Espaço das Artes, na Cidade Universitária, a partir de 24 de março; coleção inclui peças do Babá Messias

 21/03/2025 - Publicado há 1 ano

Texto: Isabela Nahas*

Arte: Beatriz Haddad**

Mais de 55% da população brasileira é preta e parda, segundo o censo do IBGE de 2022 – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Uma exposição inédita na USP reunirá 120 trajes de tradições afro-brasileiras no Espaço das Artes (EdA) da USP, na Cidade Universitária, zona oeste de São Paulo. A mostra Armaduras de Corpo e Espírito: Trajes de Umbanda, Candomblé, ritos e folguedos afro-brasileiros poderá ser visitada do dia 24 de março até 11 de abril. Além da exibição dos trajes, a programação conta com uma exposição de ensaios fotográficos e cursos abertos de costura e tingimento. A mostra tem o objetivo de ser educativa e explicar os significados daquilo que se veste dentro e fora dos terreiros. A exposição ficará aberta de segunda a sexta, das 10 às 18 horas, e a entrada é livre e gratuita.

Os 120 trajes que integram a exposição foram confeccionados e usados em terreiros, ritos e folguedos de tradições afro-brasileiras. “A gente vai ver trajes da tradição africana, trajes que carregam em si restos de sangue, restos de ossos, restos de rituais, barro, terra. Acho que as pessoas vão poder presenciar a energia que esses trajes têm sozinhos”, diz Fausto Viana, figurinista e professor do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

A curadoria é assinada por Fausto, Luan Brasil (fotógrafo e pós-graduando do Departamento de Artes Cênicas da ECA) e Maria Eduarda Andreazzi (doutoranda do mesmo departamento). Além dos curadores, a produção conta com alunos da pós, da graduação e egressos. Os graduandos participam do projeto a partir de uma atividade de extensão e estão realizando um curso sobre culturas afro-brasileiras para recepcionar os visitantes.

Os cursos A Costura do Sagrado: Trajes de Umbanda, Candomblé e de folguedos derivados de ritos afro-brasileiros e Ecoprint – tingimento e impressão botânica serão realizados durante e dentro do espaço central da exposição. O objetivo é que os participantes tenham a sensação de que estão em um terreiro, que, quando não está em atividade, é muitas vezes usado para a costura. Apenas o curso de ecoprint ainda está com as inscrições abertas, que podem ser realizadas pela plataforma on-line de cursos de extensão da USP até dia 1º de abril. Não é necessário ser aluno da USP para participar.

O professor Fausto Viana é também cenógrafo e museólogo. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“O traje fala quem você é e explica uma sociedade. Não só o traje religioso. O traje religioso traz muitas informações culturais. Muitas. Mas todo traje traz.”

Reportagem do Jornal da USP visitou a montagem da exposição – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Dos terreiros para a exposição

Ritos são ações baseadas em religiões e crenças espirituais feitas com algum objetivo, como proteção ou cura. Os ritos afro-brasileiros são tradições religiosas de origem africana que se transformaram quando foram trazidas ao Brasil durante o tráfico escravista e entraram em contato com outras diversas culturas. Eles podem ocorrer dentro ou fora de terreiros de umbanda, candomblé e outras religiões de matriz africana.

Já os folguedos são tradições festivas que podem envolver ritos, como alguns blocos de Carnaval tradicionais e as Congadas. Segundo Fausto Viana, “a nossa preocupação foi mostrar como as atividades de folguedos saíram do terreiro. A gente tem a Baiana de Carnaval, os Filhos de Gandhy, a Dona Rita da Barquinha, um traje do Congo de Oeiras, do Piauí. Todas essas festividades e o Carnaval saíram do terreiro”.

Fausto destaca o exemplo do bloco Afoxé Filhos de Gandhy, fundado em 1948, em Salvador. Seus participantes desfilam cantando músicas em iorubá, com roupas brancas e azuis, influenciados pelas palavras de paz do ativista indiano Mahatma Gandhi. Apenas homens podem desfilar.

“Antes deles saírem, eles fazem uma oferenda para Exu. Eles oferecem um padê. Você mistura farinha com azeite de dendê e oferece isso para o Exu, que é a entidade que abre caminhos, para não ter briga, para não ter atrito, para ninguém sofrer violência. Agora, você vê, o padê é comida do Exu no terreiro. Então, os Filhos de Gandhy são fruto do terreiro”, explica o professor.

Filhos de Gandhy em Salvador, na Bahia, em 2012 – Foto: João Ramos – Bahiatursa via Flickr – CC BY-NC-SA 2.0

A maior parte dos trajes que serão expostos é da coleção artística de Babá Messias, um dos babalorixás mais conhecidos do País, assassinado durante um assalto à sede de sua fundação em Cotia, na região metropolitana de São Paulo, em 2011. “A gente tem 80 trajes confeccionados no ateliê dele. Tem os trajes, os tronos, os atabaques e fotos”, diz Fausto Viana. Além da exposição física, também serão disponibilizados catálogos no Portal de Livros Abertos da USP para download gratuito. “Um é especificamente sobre o Babá Messias e o outro é de todo o resto”, complementa o professor.

Os outros trajes foram emprestados por líderes religiosos e instituições do Candomblé e da Umbanda do Estado de São Paulo, como o Quilombo Jeje da cidade de Araras, o Pai Claudio de Oxóssi, líder de um terreiro em Guarulhos, a Mãe Monica Berezutchi, sacerdotisa do Templo da Luz Dourada, o pai de santo Germano Balogun, de um terreiro na zona leste da cidade de São Paulo, e a Tenda de Umbanda do Caboclo Tuano, também na zona leste. O terreiro Ilê Asé Ojuinã Sorokê Efon, no Distrito Federal, também contribuiu com a mostra.

O espaço e os trajes vivos

“Nenhum traje aqui é impune. Todos eles são vivos.”

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A exposição separa os trajes entre os de folguedos e os de atividades de terreiro em diferenças salas do EdA. Na sala central, que representa um terreiro, ficarão as roupas de folguedos, da Umbanda e outras vestes tradicionais. No teto da sala, haverá várias pequenas bandeiras brancas, que representam o céu e são uma homenagem a Oxalá, o orixá da criação na tradição iorubá. Os trajes de terreiro estão separados por religião e nação do Candomblé.

Nações são como vertentes religiosas, que vieram de regiões diferentes da África. Elas diferem, principalmente, na forma de cultuar as divindades, sejam elas orixás, voduns ou inquices, e no dialeto usado nos ritos. As nações presentes na exposição são Queto, Jeje, Efon e Angola. Cada uma delas está em uma sala diferente. A coleção de Babá Messias, da nação Jeje, estará em três outras salas. O traje de Babá Egun ficará sozinho.

O Babá Egun é um traje que abriga um espírito Egungum, um ancestral que volta ao mundo dos vivos para os aconselhar. A roupa foi trazida pelo pesquisador Luan Brasil, que é filho do babalorixá Veber Brasil, sacerdote da Casa de Candomblé Ilê Asé Ojuinã Sorokê Efon, em Brasília. Um presente da Nigéria, o Babá Egun é uma conexão entre o mundo dos vivos e o dos mortos e, por isso, apenas algumas pessoas têm autorização para tocar nele. Como a casa de Veber é de uma tradição que cultua orixás, a roupa não é vestida nem usada em rituais e fica guardada no Ilê ibo aku, um local separado para a reverência de ancestrais. O traje será exibido em uma sala fechada, que só poderá ser vista de fora.

Os ritos de Egunguns são feitos em casas que cultuam especificamente ancestrais - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Exposição Armaduras de Corpo e Espírito: Trajes de Umbanda, Candomblé, ritos e folguedos afro-brasileiros
Local: Espaço das Artes (EdA), Rua da Praça do Relógio, 160, Cidade Universitária, Butantã, São Paulo
Dia: de 24 de março a 11 de abril
Horário: das 10 às 18 horas
Entrada: livre e gratuita

Cursos:
Inscrições encerradas: A Costura do Sagrado: Trajes de Umbanda, Candomblé e de folguedos derivados de ritos afro-brasileiros
Data: de 24 a 28 de março
Inscrições abertas: Ecoprint- tingimento e impressão botânica, pela plataforma do Sistema Apolo
Data: de 7 a 11 de abril

 

*Estagiária sob supervisão de Silvana Salles
**Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado


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