Mais informações: e-mail karina.tmaio@hc.fm.usp.br, com Karina Tozatto; e-mail vanderson.rocha@hc.fm.usp.br, com Vanderson Rocha.
*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado
Em meio à explosão de casos, médicos do Instituto Central (IC) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) decidiram investigar como a infecção por dengue se comportava em pacientes com doenças hematológicas (que afetam o sangue, a medula óssea, o baço e os linfonodos). Os resultados trouxeram mais informações sobre o desenvolvimento e os desfechos da doença para este grupo.
As doenças hematológicas são aquelas que comprometem a produção dos componentes do sangue, como as hemácias (glóbulos vermelhos), os leucócitos (glóbulos brancos) e as plaquetas, geradas na medula óssea. A dengue, por si só, pode causar alterações no sangue, como leucopenia (número de leucócitos abaixo do normal), linfopenia (baixa concentração de linfócitos), plaquetopenia (baixa contagem de plaquetas) e manifestações hemorrágicas, que podem levar a complicações graves, como choque hemorrágico e falência múltipla de órgãos.
Já é sabido que indivíduos com alguns tipos de doenças hematológicas possuem mais chance de desenvolverem dengue grave, mas os sinais de alerta baseados em contagem e células sanguíneas são de difícil avaliação. “A evolução de parâmetros hematológicos e de enzimas hepáticas neste cenário carece de relatos na literatura”, explica Karina Tozatto, médica hematologista do Hospital Dia da Hematologia do HC e uma das líderes da pesquisa.
“Nós queríamos saber o que acontece com a dengue nesses pacientes, já que era um período com muita gente infectada”, diz Vanderson Rocha, professor da FMUSP e coautor da pesquisa.
O estudo retrospectivo observacional (que analisa informações do passado para identificar a relação entre fatores de exposição e desfechos) foi realizado com 34 pacientes adultos que procuraram atendimento no Hospital Dia de Hematologia do HC, de março a junho de 2024. Essa é, até o momento, uma das maiores coortes de dengue para pacientes com doenças no sangue.
A maioria dos pacientes (56%) era mulher com idade média de 38 anos: 11 tinham doença falciforme, sete tinham síndrome mielodisplásica, quatro tinham síndrome mieloproliferativa, três tinham púrpura trombocitopenia imune, duas tinham hemofilia e sete outras patologias do sangue. Além disso, 29% tinham doença hepática subjacente prévia, principalmente hematrocromatrose secundária, e 62% outras comorbidades (veja quadro abaixo).
| Patologias dos participantes | |
|---|---|
| Doença falciforme | De origem genética e hereditária, altera a forma dos glóbulos vermelhos do sangue, que assumem a forma de uma foice. |
| Síndrome mielo- displásica | Grupo de doenças caracterizadas pela produção anormal de células sanguíneas na medula óssea |
| Síndrome mielopro- liferativa | Distúrbios nos quais as células-tronco da medula óssea crescem e se reproduzem de maneira anormal. |
| Púrpura trombo- citopenia imune | Distúrbio em que os anticorpos se formam e destroem as plaquetas do corpo. |
| Hemofilia | Distúrbio genético e hereditário que afeta a coagulação do sangue. |
| Hematrocromatrose secundária | Doença que se caracteriza pelo acúmulo excessivo de ferro no organismo |
Na admissão, 85% deles apresentavam dor muscular, 53% dor nas articulações, 88% febre, 65% dor de cabeça e 9% exantema (erupção na pele). Com relação às complicações da dengue, 9% apresentavam insuficiência hepática prévia.
Dois deles, ambos com doença falciforme, foram internados em UTI. Um desenvolveu necrose da medula óssea e morreu por falência múltipla de órgãos. A autópsia mostrou tromboembolismo pulmonar e êmbolos na medula óssea em vasos pulmonares. “Tivemos esse óbito documentado com os achados de autópsia, isso traz um pouco mais de novidade para a gente entender a fisiopatologia da dengue na doença falciforme e como que aconteceu esse óbito”, relata Karina.
O outro apresentou hepatite isquêmica, infecção bacteriana secundária, mas recebeu alta após 31 dias de intervenção.
As principais opções para prevenir a dengue são a vacinação, a eliminação dos focos de proliferação do mosquito Aedes aegypti e o uso de repelentes. A vacina disponível no SUS é a Qdenga, um imunizante que protege contra os quatro sorotipos da doença produzido a partir do vírus vivo atenuado, ou seja, do microrganismo infectado, mas enfraquecido.
Segundo Karina, os resultados deste trabalho acenderam um alerta: é necessário estabelecer um protocolo de vacinação voltado exclusivamente para pacientes com alguns tipos doenças hematológicas, como a anemia falciforme. Contudo, a vacina não é indicada para pacientes oncológicos. “Sabemos que a imunidade de pacientes oncológicos é prejudicada e eles podem fazer uma dengue vacinal caso recebam o imunizante”, alerta Vanderson.
O professor Vanderson disse ao Jornal da USP que a criação de um teste molecular para doadores de sangue evitaria o desenvolvimento de dengue transfusional, que ocorre em alguns casos. “Não existe hoje uma maneira de testar esses voluntários”, ressalta.
Um resumo sobre esse trabalho foi divulgado na revista Blood, publicada pela Sociedade Americana de Hematologia, e pode ser lido aqui.
Mais informações: e-mail karina.tmaio@hc.fm.usp.br, com Karina Tozatto; e-mail vanderson.rocha@hc.fm.usp.br, com Vanderson Rocha.
*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado