Centro de Pesquisa em Alimentos

Para Centro de Pesquisa em Alimentos, uma vida saudável começa na mesa

Grupo com sede na USP quer melhorar a saúde e o bem-estar por meio da pesquisa, da educação e da inovação em ciência dos alimentos

02/08/2019

Texto: Denis Pacheco

Na infância, é desejo de todos os pais que os filhos tenham acesso a uma boa alimentação. E embora a maioria dos responsáveis tenha noção do que significa introduzir uma alimentação saudável em casa, é papel da ciência dos alimentos investigar e esclarecer os mistérios que cercam a comida que vai para as nossas mesas diariamente.

Em uma rua tranquila da Cidade Universitária, no campus da USP em São Paulo, fica a sede do Centro de Pesquisa em Alimentos, também conhecido pelo nome em inglês, Food Research Center, o FoRC. Ocupando um espaço de dois andares em um prédio com laboratórios bem equipados, o centro tem como objetivo principal fazer ciência para uma vida saudável.

Para a professora Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco, do Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, o local é a culminação de um sonho de 30 anos, que reúne pesquisadores de diversas áreas e unidades da Universidade.

Parte de um projeto financiado pela Fapesp, o FoRC atua como um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid). Sua criação foi uma iniciativa de pesquisadores da USP que se tornaram pioneiros na criação do primeiro centro de pesquisa focado em alimentos e nutrição no Brasil.

Sede do Food Reserch Center (FORC), Centro de Pesquisa em Alimentos, no campus da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“O FoRC começou em 2013 e foi criado com base em um núcleo conhecido como Napan (Núcleo de Apoio à Pesquisa em Alimentos e Nutrição)”, conta Bernadette. Em cima da estrutura do Napan, o novo grupo começou a ganhar forma, adicionando ao seu corpo de pesquisadores, profissionais de outras universidades, como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp). Além deles, o centro hoje conta com especialistas do Instituto Mauá de Tecnologia.

“Temos por volta de 27 pesquisadores trabalhando, sendo sete pesquisadores principais e os demais como associados”, enumera a professora.

O grupo de profissionais inclui bioquímicos, farmacêuticos, engenheiros, especialistas em saúde pública e nutrição. “A ciência dos alimentos e a nutrição são áreas multidisciplinares. Ou seja, existem vários aspectos relacionados aos alimentos que podem ser pesquisados e a gente queria unir essas diferentes pessoas para trabalharem juntas”, explica ela.

Dentre os objetivos do FoRC estão as interações entre essas diferentes comunidades, tanto a acadêmica, quanto a de profissionais, governo, terceiro setor, todos permeando uma relação com a sociedade em geral. A ideia é divulgar o conhecimento gerado pelo grupo para servir ao público e também transferir a tecnologia ali desenvolvida para garantir futuros investimentos.

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Florença Maria Borges, pesquisadora do Centro de Pesquisa em Alimentos

Arte sobre foto de Marcos Santos / Jornal da USP

Quatro pilares fundamentais

A abordagem dos pesquisadores do FoRC partiu de uma divisão estratégica de focos de estudo, o que a professora Bernadette chama de “pilares”. Ao todo, são quatro grandes áreas de concentração. “O primeiro é chamado de ‘Sistemas Biológicos em Alimentos’, que envolve a bioquímica do alimento, sua composição química”, esclarece ela. O objetivo desse campo é propor avanços científicos relacionados, em especial, com a qualidade dos alimentos. Ou seja, melhorar a produção agrícola e a produção industrial.

Os projetos de pesquisa desse pilar envolvem a caracterização de alimentos brasileiros que o grupo classificou como “comercialmente relevantes”. O que significa estudar seus macronutrientes (os carboidratos, as proteínas e lipídeos), micronutrientes (os minerais e as vitaminas) até seus aspectos sensoriais (cor, textura e sabor) e seus potenciais benefícios ou malefícios à saúde.

“O segundo é chamado ‘Alimentos, Nutrição e Saúde’ e é voltado mais para os impactos do alimento na saúde humana, algo que vai além do sentido popular da nutrição, o de montar dietas”, exemplifica. Esse campo busca conhecer o potencial dos alimentos para promover a saúde e reduzir o risco de doenças.

Já o terceiro pilar, “Qualidade e Segurança dos Alimentos”, tem como objetivo fazer pesquisas sobre como aumentar o grau de segurança dos alimentos diante de riscos de contaminação. “O que define a qualidade de um alimento? O que ele precisa ter ou não ter para ser considerado seguro? A gente foca nessas perguntas e explora respostas”, esclarece Bernadette.

O último pilar envolve novas tecnologias e inovação. Nessa área, as pesquisas buscam desenvolver alimentos funcionais e processos inovadores de conservação, o que inclui também a criação de embalagens ecoeficientes. Um dos atuais estudos do FoRC está em busca de novos materiais para embalagens, baseados em biopolímeros de fontes renováveis.

Embora o centro tenha quatro diferentes focos, a professora esclarece que “os grupos trabalham juntos, explorando como seus resultados se inter-relacionam”.

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Miriam Sanz, pesquisadora do Centro de Pesquisa em Alimentos

Arte sobre foto de Marcos Santos / Jornal da USP

“Não precisa ser doutor”

“Eu costumo dizer que os 7 bilhões de pessoas do mundo são cientistas de alimentos, já que todo mundo come. Mas a nossa tarefa aqui é comunicar para a sociedade os nossos achados com base científica”, sumariza a professora.

Além de promover e realizar pesquisas básicas da ciência dos alimentos, o grupo tem como missão educar comunidades diversas com relação à nutrição e saúde. “Temos um trabalho de comunicação muito forte conhecido como ‘Alimentos Sem Mitos’”, conta ela.

Na internet, o site Alimentos Sem Mitos tem a meta de compartilhar informações qualificadas à sociedade, em uma linguagem acessível para todos. “Não precisa ser doutor para ler as reportagens, matérias e notas que discutem desde algumas dúvidas básicas sobre alimentos e nutrição até os últimos avanços científicos nessas áreas”, reforça a docente.

Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco - Foto: Denis Pacheco/Jornal da USP

Não precisa ser doutor para ler as reportagens, matérias e notas que discutem desde algumas dúvidas básicas sobre alimentos e nutrição até os últimos avanços científicos nessas áreas

Professora Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco, pesquisadora responsável pelo Centro de Pesquisa em Alimentos

Em busca de novas parcerias

No entanto, para atingir a meta de fazer pesquisas pioneiras, propor soluções e manter um diálogo aberto com o grande público, os pesquisadores do FoRC precisam de recursos. “O nosso problema maior é fazer as parcerias com o setor produtivo”, revela a professora.

De acordo com Bernadette, a indústria de alimentos no Brasil ainda é “pouco tecnológica” e está menos interessada em fazer pesquisa. Eles, que poderiam ser alguns dos maiores investidores de iniciativas como o FoRC, ainda estão distantes de se tornarem parceiros. Mas, basta olhar para os países desenvolvidos, para compreender que parcerias como essa são o futuro da indústria. “Nos Estados Unidos e na Europa existem vários centros parecidos com o nosso, todos apoiados pela iniciativa privada”, cita ela.

Para a professora, acordos entre universidade, governo e indústria são a chave para garantir avanços na produção mundial de alimentos. “E tem espaço para todo mundo, mas você precisa envolver a indústria para manter essa pesquisa acontecendo”, completa ela, ao ressaltar que a busca por esse grau de reconhecimento “é um desafio diário”.

Mais informações: site http://www.usp.br/forc ou e-mail forc@usp.br

Centro de Pesquisa em Alimentos

Coordenação:  Bernadette Dora Gombossy de Melo Franco
Localização: Laboratório de Engenharia de Alimentos
Rua do Lago, 250  Bloco C –  Cidade Universitária
São Paulo/SP – 
05508-080
Contato: forc@usp.br
Site: www.usp.br/forc

Outros textos da série:

Reportagem: Denis Pacheco
Arte: Thais H. Santos

Jornal da USP