A Negra (1923), obra do acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Mais de 150 mil pessoas já viram as cores
do Brasil de Tarsila

A exposição no Masp vai até o dia 28. São 92 obras – várias da USP – que resgatam os sonhos da gente simples e o cotidiano de uma cultura popular

12/07/2019

Texto: Leila Kiyomura
Arte: Beatriz Abdalla

“Sinto-me cada vez mais brasileira, quero ser a pintora da minha terra. Como agradeço por ter passado na fazenda a infância toda. As reminiscências desse tempo vão se tornando preciosas para mim.”

Tarsila do Amaral

Com o sentimento de valorizar a gente e a natureza de seu país, a paulista de Capivari foi transformando lembranças em paisagens. É essa arte que resgata as formas redondas das montanhas, das árvores, o cotidiano das crianças entre os mamoeiros, a exuberância das florestas e o sonho dos trabalhadores que flui em Tarsila Popular. A exposição no Museu de Arte de São Paulo (Masp), desde a sua abertura, no dia 5 de abril, já atraiu mais de 150 mil pessoas do Brasil e do exterior. Visitantes de todas as idades não se importam de ficar horas na fila para ver em cenas “aparentemente simples” a realidade da cultura brasileira em seu contexto político, social e econômico.

Sob a curadoria de Adriano Pedrosa e Fernando Oliva, as emoções de Tarsila do Amaral revelam a sua história e a do Brasil modernista em 92 obras, entre desenhos e pinturas. Uma sensibilidade que contagia, desperta reflexões e a identificação com a própria cultura que parece ter se esvaziado diante do descaso atual com a arte, educação, história, enfim, as ciências humanas.

Diante do Abaporu, um dos símbolos do Movimento Modernista no Brasil, os visitantes param. A mulher nua, de pés grandes e cabeça pequena, sob o sol escaldante no fundo infinito azul e o verde, impressiona.

“Eu não canso de ver esse quadro”, diz Poliana Leal Nunes, de 12 anos. “É uma pintura que conversa com a gente e que sou capaz de pintar. Gostaria muito de ser como Tarsila.”

Poliana estuda na Escola Técnica Profissionalizante de Santo André (SP). “Eu quero ser profissional de artes. Quando alguém me diz que arte não tem valor, cito o Abaporu, que vale muito dinheiro. Mas não é por isso que é importante, é pelo significado. É o Brasil que fala nas cores fortes. A figura tem pés enormes que parecem sair da tela, mas por que a cabeça é tão pequena?”

Exposição Tarsila Popular. Museu de Arte de São Paulo (MASP). 2019/06/28 - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Abaporu – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A futura artista tem razão. Abaporu, com as preciosidades da lembrança de Tarsila, é um dos quadros que se destacam no mercado internacional de artes, com valor estimado em cerca de US$ 40 milhões, e integra a coleção particular do argentino Eduardo Costantini.

Quando Tarsila pintou o quadro, em 1928, jamais poderia imaginar que Abaporu, que em tupi-guarani significa “homem que come gente”, seria disputado em dólares. Tudo que ela queria era pintar um presente para o marido, Oswald de Andrade. Quando viu a tela, o escritor teve a ideia de fundar o Movimento Antropofágico. Ou seja, digerir a cultura estrangeira mas formular uma cultura nacional.

Obras do acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP são destaque na mostra

Poliana e a amiga Carolina Moura, de 12 anos, fazem questão de comentar cada tela. Visitar exposições é o seu lazer preferido. Param diante da tela Estrada de Ferro Central do Brasil, obra pintada por Tarsila em 1924, pertencente ao acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP.

Poliana Leal Nunes e Carolina Moura dos Santos. Exposição Tarsina Popular. Museu de Arte de São Paulo (MASP). 2019/06/28 Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Poliana Leal Nunes e Carolina Moura dos Santos. – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“Veja bem essa tela”, convida Carolina. “Lá longe tem a igreja, as casas do interior, e lá vem o barulho do trem, os postes, coisas da cidade. É o passado e o futuro.”

As duas amigas conversam, trocam ideias, e o pai de Poliana, o técnico em navegação Magno Nunes, ouve e observa com orgulho. “Minha filha gosta de ir aos museus, já foi no Louvre para ver a Mona Lisa de perto. Eu também aprecio muito e incentivo. Arte é qualidade de vida.”

Quando era menino, o pai de Magno colecionava os fascículos da coleção Genios da Pintura. É a herança que trouxe para casa. “Poliana já leu todos. Ela é capaz de saber as semelhanças e diferenças no estilo dos pintores. Quem aprende a observar um quadro é capaz de distinguir e compreender as formas na realidade.”

Grupo da Terceira Idade de Campinas prestigia Tarsila, a artista que cresceu na vizinhança

Quando passeiam pela vizinha Capivari, os amigos do Grupo da Terceira Idade de Campinas, identificam as paisagens de Tarsila. “Seu pai era dono de várias fazendas por aqui”, afirma Rubens Plácido, um dos integrantes do grupo. Tinha sete irmãos, foi estudar na Europa. Morou em Barcelona, Paris, mas gostava mesmo do nosso interior.”

Reg. 215-19 Floresta 1929. Museu de Arte de São Paulo (MASP). 2019/06/28 Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Floresta (1929), obra do acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Diante do quadro Floresta, pintado em 1928, também do acervo do MAC, os vizinhos da artista destacam a exuberância das cores. “Só aqui, com a luz do céu, das montanhas, que ela poderia pintar um ninho com ovos rosas, quase lilás”, diz Raquel Leal, outra integrante do grupo. “É uma paisagem muito encantada. O que será que essa floresta está gestando? Essa tela nasceu junto com Abaporu.”

Homenagem aos trabalhadores que fizeram a história do Brasil

Em A Negra está a homenagem de Tarsila às amas de leite e às mucamas presentes nas histórias de sua infância. Uma mulher forte, de lábios grossos, de seios fartos, que se contrapõe ao presente com as linhas ao fundo. Pintou o quadro em 1923, quando estava estudando em Paris. A imagem é uma lembrança que evoca as raízes do Brasil e, no fundo, a realidade nua, mais do que a personagem, em uma trama de linhas.

Reg. 215-19 Exposição Tarsina Popular. Museu de Arte de São Paulo (MASP). 2019/06/28 Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Angélica e Gabriel Gehlen – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O casal Angélica e Gabriel Gehlen visita a exposição com o filho Martin, de 1 ano e meio. “Viemos de Porto Alegre para ver Tarsila”, conta Gabriel. “Fico orgulhoso quando vejo a movimentação da pessoas em busca da própria história, dos próprios valores. Tarsila soube reverenciar A Negra ou os Trabalhadores, pessoas anônimas que consroem o País.”

Reg. 215-19 O mamoeiro de 1925. Exposição de Tarsila do Amaral: "Tarsila Popular". Museu de Arte de São Paulo (MASP). 2019/06/28 Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Mamoeiro (1925), obra do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Na cena de O mamoeiro, de 1925, obra que integra o acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, a artista reproduz a paisagem de uma cena rural. Varal de roupas, casas com janelas azuis, os mamoeiros com frutos maduros à disposição. Uma mulher caminha com seus dois filhos de mãos dadas, outra mulher na porta de casa contemplando a paisagem. Uma cena que transmite a alegria da vida simples, a poética das reminiscências de Tarsila Popular. 

A exposição Tarsila Popular fica em cartaz até 28 de julho de 2019, de quarta-feira a domingo, das 10 às 18 horas (a bilheteria fica aberta até as 17h30), e às terças-feiras, das 10 às 20 horas (bilheteria aberta até as 19h30), no Museu de Arte de São Paulo (Masp), localizado na Avenida Paulista, 1.578, em São Paulo. O ingresso custa R$ 40,00 (inteira). Grátis às terças-feiras. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3149-5959 

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