Voluntários da USP se mobilizam para ajudar pessoas na pandemia

Alunos, professores e funcionários da Universidade têm se engajado em diversas ações para atender a demandas básicas, como alimentação e higiene, de grupos em situação de vulnerabilidade social

30/04/2020

Por David Ferrari

Muito tem se falado sobre a importância da USP nas ações de combate à pandemia de coronavírus. Pesquisadores das várias áreas do conhecimento direcionaram suas linhas de pesquisa para novas investigações com o objetivo de auxiliar a sociedade a conter o avanço da doença. A criação de respiradores artificiaiselaboração de uma vacina, testes para diagnósticos, estudo com fármacos, além de plataformas tecnológicas para monitorar e prever os casos no País são algumas das contribuições em destaque.

Em outra frente, alunos, professores e funcionários da Universidade têm se engajado em ações voluntárias para ajudar pessoas em situação vulnerável com demandas emergenciais e tão básicas como a alimentação e a higiene. Entre as várias ações, individuais ou em grupo, distribuem cestas básicas e produtos de limpeza, computadores para estudantes acompanharem aulas a distância, além de equipamentos de proteção individual para profissionais da saúde. Eles apostaram em dois remédios já descobertos para combater os momentos de dificuldade: a empatia e a solidariedade.

Confira abaixo algumas das ações que mostram o engajamento da comunidade universitária.

Mobilização pelo básico

Doação de cestas e kits de higiene e limpeza em Lorena

Cestas básicas arrecadadas em campanha de vaquinha virtual para famílias em situação vulnerável do Projeto Criança Feliz - Foto: PCF/EEL USP

O Projeto Criança Feliz atende mais de 110 crianças e jovens, de 3 a 18 anos, que realizam atividades no campus da USP em Lorena. As crianças participam de ações educativas, como o ensino de matemática e português, mantidas pelos estudantes da Escola de Engenharia de Lorena (EEL).

Em meio à pandemia, muitas das crianças assistidas pela iniciativa estão em situação de vulnerabilidade social. Como suas famílias tiveram as finanças comprometidas com reduções salariais e demissões, a equipe do projeto decidiu elaborar uma vaquinha virtual para comprar cestas básicas e doar para elas.

A campanha arrecadou mais de seis mil reais, valor suficiente para a compra de pelo menos 90 cestas básicas e itens de higiene e limpeza. O Projeto Criança Feliz estima que mais de 120 pessoas doaram diferentes quantias. Depois, a entrega das cestas foi realizada em dois dias e todos os voluntários envolvidos na ação atenderam às recomendações de segurança estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os organizadores do projeto vão repetir a ação mais um mês para atender às famílias.

Conexão com o conhecimento

Acesso a computadores e à internet para estudantes da USP Leste

Um grupo de docentes do curso de Gestão e Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP se mobilizou para conseguir computadores para alunos que, por causa da quarentena, não poderiam acompanhar as aulas a distância sem equipamentos. De acordo com André Mountian, professor que contribuiu na organização da iniciativa, a ação tinha como propósito “minimizar os prejuízos causados pelo cancelamento das aulas presenciais, especialmente a estudantes sem acesso a computador e internet, elementos necessários para o acompanhamento das aulas em EAD (ensino à distância)”.

Com o apoio da coordenação e do Centro Acadêmico Herbert de Sousa, um levantamento permitiu mapear que oito alunos do curso estavam sem conseguir assistir às aulas virtuais. Então, os professores se mobilizaram e conseguiram oito equipamentos a serem emprestados ou doados, além de captarem um pequeno fundo para custear planos de dados de internet aos alunos sem acesso. “Como docentes do curso, sabemos da importância das medidas institucionais, ou seja, das políticas públicas para que os estudantes carentes consigam acompanhar as disciplinas no formato EAD”, explica o professor Mountian. 

Dias após a iniciativa, a reitoria da USP comunicou a comunidade universitária que todos os alunos sem recursos, que não possuem acesso à internet, receberão chips e modens para poder cursar disciplinas à distância.

Cuidando dos cuidadores

Produção e distribuição de protetores faciais para profissionais da saúde

Profissionais agradecem protetores faciais doados pela comunidade USP - Foto: Divulgação/E-Group

O aluno Alain Guimarães, do mestrado em Engenharia de Sistemas da Escola Politécnica (Poli) da USP, idealizou um projeto de produção de protetores faciais para serem doados aos profissionais da saúde, numa iniciativa chamada E-Group. Com a ajuda de professores da Poli e de outros estudantes da pós-graduação, a iniciativa já produziu 3.365 protetores que foram doados a hospitais, Unidades Básicas de Saúde e clínicas. Alain também conseguiu reunir voluntários de outras faculdades (Unicamp, Unip e Instituto Mauá) em prol dessa iniciativa. Os colaboradores atuam na produção de tiaras em impressoras 3D e na montagem dos protetores,  além das atividades administrativas, como organização das entregas e dos pedidos.

Nesse processo, o grupo arrecadou quase 16 mil reais através de uma vaquinha on-line, que contribuiu para a compra dos insumos utilizados. O idealizador do E-Group informou que algumas instituições também têm ajudado na logística e na doação de materiais, como o Fundo Amigos da Poli.

A produção está sendo descentralizada. Os voluntários que possuem impressoras 3D estão atuando na impressão das tiaras, que fixam o equipamento na cabeça do profissional. Depois disso, um motoboy busca o material impresso e leva a um centro de montagem, localizado na casa de outro voluntário, onde o produto é montado e disponibilizado para doação. É importante dizer que todo o processo atende às orientações de profissionais de saúde para higienização dos locais de produção e montagem, e também dos próprios equipamentos. Além disso, o material produzido pelo E-Group atende às determinações do Ministério da Saúde para equipamentos de proteção.

O custo unitário dos protetores faciais fica em torno de cinco reais, bem abaixo do preço de mercado, que costuma ser pelo menos dez vezes maior. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail egroup.covid19@gmail.com.

Ajudando os vizinhos

Doação de kits de higiene e produção de máscaras faciais para comunidade no Butantã

Moradores da Comunidade Jardim São Remo, vizinha ao campus da capital, recebem produtos de limpeza - Foto: Jorge Maruta/USP Imagens e Enactus

Os alunos do campus da capital que fazem parte da Enactus, comunidade internacional que reúne estudantes, acadêmicos e líderes com o objetivo de construir um mundo mais sustentável, se engajaram em ações para ajudar a Comunidade Jardim São Remo na arrecadação de fundos para a compra de cestas básicas e kits de higiene e limpeza. A organização universitária uniu forças com entidades da comunidade, como o Coletivo São Remo, que reúne a Associação de Moradores.

A São Remo está situada ao lado da Cidade Universitária, no Butantã, e possui mais de 7.500 habitantes, conforme o Censo do Projeto Democracia, Artes e Saberes Plurais (2019), sendo que muitos estão em situação de vulnerabilidade. Ainda, de acordo com o censo, mais de 43% da população adulta da comunidade estava desempregada ou atuava no mercado informal, como construção civil e limpeza, antes da pandemia da covid-19. Após o surto, os números tendem a ser ainda mais preocupantes. A iniciativa arrecadou 14 mil reais, suficiente para atender cerca de 1.300 famílias com kits de limpeza, de acordo com Arthur Marcelino, aluno da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) e presidente da Enactus. A próxima meta do grupo é conseguir arrecadar o suficiente para distribuir cestas básicas.

Conheça outras ações de voluntariado da comunidade USP:

A Rede de Apoio Popular, constituída pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE Livre) da USP, Associação dos Docentes da USP (Adusp), Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) e Coletivo Butantã na Luta arrecada recursos para doação de alimentos e produtos de higiene a famílias da região da Cidade Universitária, no Butantã. O objetivo é apoiar famílias pobres durante o período de isolamento social. 

Funcionária do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, Marília Marino ensina o passo-a-passo da produção de máscaras em vídeo e registra em imagens sua colorida e diversificada produção durante a quarentena. Ela já entregou, gratuitamente, 170 máscaras de pano para funcionários e professores do Instituto.

O Centro Acadêmico Herbert de Sousa, da EACH-USP, em parceria com o Instituto União Keralux, promove campanhas para distribuir alimentos às famílias em situação financeira desfavorável do Jardim Keralux. A arrecadação ocorre pela plataforma Benfeitoria e as contribuições, em qualquer valor, são revertidas em cestas básicas. O Jardim Keralux é um bairro da periferia da zona leste de São Paulo.

No Projeto Hígia, da Faculdade de Odontologia (FO) da USP, professores e alunos voluntários utilizam impressoras 3D para produzir protetores faciais (face-shield) destinados a doação para profissionais da saúde em hospitais. Os protetores são compostos por uma haste para a cabeça e uma folha de acetato transparente na frente. O projeto aceita voluntários que tenham impressora 3D para ajudar na produção das peças. O Hígia também aceita doações pelo site vakinha.com.br.

Os alunos da comunidade Enactus USP Cidade Universitária lançaram a campanha “48h Pela São Remo” realizada na plataforma Catarse. O objetivo é arrecadar R$ 10.000, que serão revertidos em máscaras reutilizáveis para a população da comunidade São Remo, vizinha ao campus da USP na capital. Atualmente, a São Remo enfrenta os reflexos negativos da pandemia e poucos moradores podem aderir às recomendações de saúde de isolamento social e uso de máscaras.

Dária Barreto, técnica do Laboratório de Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, produziu com sua família 200 máscaras de tecido para doação aos profissionais da saúde do Hospital Universitário da USP. A desinfecção das máscaras foi realizada pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) para ficarem livres de contaminação.

A Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP está incentivando projetos voltados para ações de enfrentamento da covid-19, com amplo alcance e impacto social. Uma das ações é a capacitação e produção de máscaras de proteção facial. Com recursos próprios e doações, principalmente de tecidos e elásticos, o grupo confeccionou 618 máscaras que foram entregues gratuitamente para idosos acamados ou com alguma comorbidade de risco, e seus cuidadores e familiares.