“USP Talks”: cientistas debatem os limites éticos da genética

No dia 30 de abril, Mayana Zatz e Fernando Reinach falam da manipulação genética de embriões humanos; evento no Masp é gratuito

 18/04/2019 - Publicado há 3 anos  Atualizado: 22/04/2019 as 10:30
Fertilização de óvulo humano in vitro – Foto: Elena Kontogianni / Wikimedia Commons

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O anúncio recente do nascimento de duas crianças geneticamente modificadas na China gerou um intenso debate internacional sobre o uso da engenharia genética na reprodução humana. Até que ponto devemos, ou não, mexer no DNA da nossa espécie? É justo alterar os genes de um embrião para evitar que a criança nasça com alguma doença genética? E se for para mudar a cor da pele ou torná-la mais forte, ou mais inteligente, de alguma forma? Também é válido? Quais são os limites éticos da manipulação genética da linhagem humana?

Esse será o tema do próximo evento da série USP Talks, dia 30 de abril, com participação dos pesquisadores Mayana Zatz e Fernando Reinach. O evento é gratuito e acontece no auditório do Museu de Arte de São Paulo (Masp), das 18h30 às 19h30. Mais detalhes aqui: USP Talks #26 – GenÉtica.

O biólogo Fernando Reinach contará a história evolutiva da engenharia genética, explicando como essa tecnologia funciona, como ela se desenvolveu e o que é possível fazer com ela — por exemplo, na medicina e na agricultura. Na sequência, a geneticista Mayana Zatz falará sobre as questões éticas associadas à aplicação dessa técnica (hoje chamada, em sua vertente mais moderna, de “edição gênica”) na modificação genética de embriões humanos. 

O objetivo da intervenção, a princípio, seria nobre: corrigir mutações hereditárias ligadas a doenças graves, como fibrose cística ou doença de Huntington. Mas muitos temem que, uma vez aberta essa porta, é inevitável que a mesma técnica seja usada para manipular características estéticas, físicas ou intelectuais do ser humano — dando origem aos chamados “designer babies”, em inglês.

No caso chinês, o pesquisador He Jiankui, da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China, usou a mais recente (e revolucionária) técnica de engenharia genética, chamada CRISPR-Cas9 (ou “crisper”), para inativar no DNA dos bebês um gene chamado CCR5, responsável por codificar uma proteína que serve como “porta de entrada” para o vírus da aids nas células. A lógica é que, com o gene inativado, a proteína não será produzida e, portanto, a pessoa ficará imune à infecção pelo HIV.

A modificação foi feita em dois embriões produzidos por fertilização in vitro, que vieram à termo no fim do ano passado, filhos de um casal cujo pai é HIV positivo. O experimento, feito “às escondidas” da universidade, foi duramente criticado pela comunidade científica internacional e até dentro da própria China, por causa de suas implicações éticas e dos possíveis efeitos adversos à saúde dos bebês. 

Vários pesquisadores e entidades científicas defendem a adoção de uma moratória global à edição genética de embriões humanos, até que as questões técnicas e éticas dessa prática possam ser melhor discutidas e resolvidas.

Serviço

O USP Talks é uma iniciativa da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, que busca aproximar a Universidade da sociedade por meio de eventos mensais, em que especialistas da academia são convidados para conversar com o público sobre temas que estão em evidência no noticiário nacional e internacional.

Para conhecer o projeto, visite o site e siga a página no Facebook. Vídeos de todos os eventos anteriores estão disponíveis no canal do YouTube.

Saiba mais sobre os nossos palestrantes deste mês:

Mayana Zatz é geneticista; professora titular do Instituto de Biociências e coordenadora do Centro de Pesquisas do Genoma Humano e Células-tronco da USP, que além da pesquisa científica oferece testes e aconselhamento genético a famílias. Autora de Genética: Escolhas que nossos avós não faziam

Fernando Reinach é biólogo, empreendedor e divulgador científico; foi professor titular dos institutos de Química e Ciências Biomédicas da USP, atuando como um dos pioneiros da genômica e da biotecnologia no Brasil. Desde 2004, escreve uma coluna semanal sobre ciência para o jornal O Estado de S. Paulo


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