USP Bauru ganha núcleo para simulação de atendimentos em saúde

Professor Pereira Júnior faz intervenção durante ação simulada – Foto: Tiago Rodella / HRAC

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Motociclista caído no chão, gritando de dor e com dificuldade para se movimentar. Sangue, feridas e traumas múltiplos. Cheiro de gasolina. Pedestres em desespero. Cenário caótico. Uma ação simulada serviu para os estudantes da primeira turma do curso de Medicina da USP, em Bauru, aprenderem quais os procedimentos iniciais e primeiros socorros numa situação como a descrita.

Essa foi a primeira atividade desenvolvida com os alunos no Núcleo de Educação e Capacitação em Saúde (Necs) do campus, que propicia experiência prática próxima da real já no primeiro semestre de curso – e não somente nos anos posteriores, como ocorre normalmente nas metodologias de ensino tradicionais.

“Este é um núcleo feito para que possamos trabalhar as questões de segurança do paciente. Nele podemos antecipar o que os estudantes vão fazer na prática, num ambiente seguro, controlado, para que se possa errar, parar, voltar, treinar repetidas vezes, até o aluno estar suficientemente competente para exposição do paciente”, explica o professor Gerson Alves Pereira Júnior, vice-coordenador do curso de Medicina, em Bauru.

Professora do curso e também da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, Alessandra Mazzo, completa que, como são estudantes do primeiro ano, eles ainda não irão realizar procedimentos invasivos no núcleo. “Nesse primeiro momento, os alunos irão aprender a fazer o reconhecimento de uma situação de urgência, o primeiro atendimento, a chamada por ajuda, e o acesso à Rede de Atenção às Urgências”, frisa a professora, que é uma das coordenadoras do Necs.

Além da participação de professores de Medicina, a atividade de simulação contou com a participação de alunos de pós-graduação do campus – preparados para atuar como paciente simulado e pedestres – e também do médico Rafael Arruda Alves, diretor do Departamento de Urgência e Emergência do município.

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Núcleo para a rede de saúde

Instalado em prédio dentro do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da USP, o Necs tem como finalidade educar os estudantes e capacitar, de forma permanente, professores e profissionais da rede municipal e estadual de saúde de Bauru e região, como contrapartida da USP para o desenvolvimento local e regional.

“No contexto de interação constante entre a Universidade e o Sistema Único de Saúde, o SUS, a educação e a capacitação permanente de docentes, estudantes e profissionais dos serviços são os melhores recursos para diminuir a variabilidade de práticas e de resultados e, portanto, melhorar a relação custo-efetividade da atenção à saúde”, destacou o professor José Sebastião dos Santos, coordenador do curso de Medicina da USP, em Bauru, e atual superintendente do HRAC, na inauguração do núcleo, em dezembro de 2017.

Segundo a professora Alessandra, a partir do segundo semestre de 2018 o Necs também poderá ser utilizado pelos estudantes de Odontologia e Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP, residentes e profissionais do HRAC e da rede municipal e estadual de saúde da cidade. “O planejamento de capacitações específicas será realizado em conjunto entre o curso de Medicina da USP e a rede pública de saúde, de acordo com as necessidades locais. Essa é uma contribuição da Universidade para potencializar e aprimorar a atenção em saúde em Bauru e região”, afirma.

Professor Cristiano Tonello, do curso de Medicina, em Bauru, orienta alunos em simulador – Foto: Tiago Rodella / HRAC

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“Vamos trabalhar com médicos, enfermeiros, as equipes de atendimentos de urgência e eletivos da rede de saúde. O objetivo é oferecer capacitação para esses profissionais, inclusive para mudanças e aperfeiçoamento do processo de trabalho da rede, que nós vamos colaborar como Universidade”, acrescenta o professor Pereira Júnior.

“Com a vinda do curso de Medicina, estamos discutindo, juntamente com todos os cursos da área da saúde de Bauru e sob a liderança da Secretaria Municipal de Saúde, os Contratos Organizativos de Ação Pública Ensino-Saúde (Coapes), para uma melhor organização do trabalho da rede. E o Necs é uma parte importante nesse processo, na contrapartida que a USP vai dar para a rede, para que possamos melhorar a qualidade do atendimento à população”, reforça.

As diretrizes do Coapes foram instituídas pela Portaria 1.127/2015, dos Ministérios da Educação e da Saúde, para o fortalecimento da integração entre ensino, serviços e comunidade no âmbito do SUS.

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Estrutura de ponta

O Necs conta com toda a ambientação para simulação clínica e será muito importante para antecipar e treinar as atividades que os estudantes irão realizar nos diversos serviços de saúde.

“Serão treinadas várias habilidades e competências dos estudantes de Medicina dentro do laboratório (in vitro), num ambiente simulado bem próximo à realidade, para que possam executar as atividades práticas nos serviços de saúde (in vivo). Inicialmente, as atividades serão realizadas com pacientes simulados – normalmente estudantes de outra área capacitados para tal atividade –, devidamente caracterizados, com feridas, secreção, inclusive cheiro”, relata Alessandra.

A professora pontua que o núcleo é composto de grandes salas onde são trabalhadas as habilidades – a prática dos procedimentos, como punções, curativos, suturas ou a administração de medicamento. Também existem salas voltadas para a simulação avançada, consultórios e enfermarias para capacitação de atividades práticas que serão aplicadas dentro de um contexto, como uma unidade de saúde, unidade de pronto atendimento ou hospital, dependendo da situação a ser aprendida. “Divide-se, portanto, em ambientes para treino de habilidades e para desenvolvimento de cenários simulados”, ressalta.

Cenário de centro cirúrgico, dentro do Necs – Foto: Tiago Rodella / HRAC

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De acordo com o professor Gerson Alves Pereira Júnior, há um planejamento para incrementar o Necs com equipamentos e simuladores de ponta e para ampliar a área física desse espaço, com previsão de novidades para meados do segundo semestre de 2018.

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Metodologia diferenciada

Um grande diferencial do curso de Medicina da USP, em Bauru, é sua organização a partir de metodologias ativas de ensino-aprendizagem. A atividade simulada com acidentado, por exemplo, faz parte do módulo Primeiros Socorros, integrante do ambiente de ensino Laboratório de Habilidades e Simulação, que tem como professores responsáveis Alessandra Mazzo e Gerson Alves Pereira Júnior (nas metodologias ativas existem ambientes de ensino integrados e não disciplinas).

“No Necs, que integra o ambiente de ensino Laboratório de Habilidades e Simulação, utilizamos o que chamamos de sala de aula invertida. Os alunos recebem vídeos e textos para estudarem antes e fazer uma avaliação dos diferentes cenários. Podemos até fazer avaliação on-line prévia. Então eles vêm aqui para tirar as dúvidas e fazer as atividades práticas. Nesse processo, eles chegam com perguntas pertinentes, aproveitando melhor o tempo presencial, que é muito valioso”, enfatiza Pereira Júnior.

Essa metodologia diferenciada, a atividade simulada e o novo espaço de aprendizado são valorizados pela estudante Bianca Santa Maria, do curso de Medicina. “Eu não esperava toda essa estrutura e equipamentos. Foi muito legal ver a disponibilidade de materiais que temos aqui e a possibilidade de aprendizado que teremos durante todo o desenvolvimento do curso. Já tínhamos estudado como deveríamos agir e agora é muito bom colocar em prática o conhecimento trabalhado através dos vídeos e da teoria.”

Professora Alessandra apresenta estrutura do Necs, em cenário de UTI – Foto: Tiago Rodella / HRAC

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“Acho muito importante treinarmos agora e já saber, desde o primeiro ano de Medicina, o que fazer numa situação dessas. Treinar em cenário e com paciente simulado é essencial, inclusive para já começarmos a servir a população. Num acidente real, por exemplo, eu já sei como ajudar a vítima e quais procedimentos iniciais realizar”, explica Bianca.

Ela disse, ainda, que ficou surpreendida com a metodologia ativa e a sala de aula invertida. “A gente estuda em casa e tira as dúvidas aqui, com o professor. Esse momento presencial acaba sendo muito mais produtivo do que se tivéssemos a teoria aqui, e estudássemos e tivéssemos dúvidas depois em casa, onde não temos o professor para nos responder.”

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Solenidade

A abertura das atividades no Núcleo de Educação e Capacitação em Saúde (Necs) foi realizada no dia 6 de junho e contou com a participação dos professores Carlos Ferreira dos Santos, diretor da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP, unidade onde está sediado o curso de Medicina; Gerson Alves Pereira Júnior, Alessandra Mazzo e Cristiano Tonello, professores do curso; além de docentes, servidores e estudantes do campus.

O diretor da FOB, professor Carlos Ferreira dos Santos, destacou a importância do início das atividades no núcleo. “Sempre dissemos que o HRAC seria a semente do curso de Medicina. Hoje, temos esse núcleo implantado em espaço dentro do HRAC, e que, inicialmente, será parte do curso de Medicina. Mas trata-se de um projeto muito ambicioso que também vai servir aos alunos dos cursos de Odontologia e Fonoaudiologia, residentes e profissionais do HRAC, e aos profissionais da rede pública de saúde municipal e estadual, que hoje já recebem os nossos alunos. Ajudar a organizar os serviços e capacitar os profissionais da rede é uma retribuição que a Universidade, como instituição pública, pode oferecer. Isso é devolver para a comunidade, profissionais e população – pois todos contribuímos com impostos –, todo o investimento público que é feito aqui.”

Médico Rafael Alves, do Departamento de Urgência e Emergência do município, participa da simulação de acesso à rede de urgência – Foto: Tiago Rodella / HRAC

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O professor Gerson Alves Pereira Júnior lembrou que “projetos dão certo em terreno fértil. A ousadia do campus de Bauru de propor a criação de um novo curso de Medicina na USP, depois de tantos anos, e o entusiasmo da professora Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado (ex-diretora da FOB e atual pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária da USP) e do professor Carlos (ex-vice-diretor e atual diretor da FOB) tornou possível esse grande projeto”.

Segundo Pereira Júnior, o Necs será utilizado nos seis anos do curso de Medicina, com atividades numa complexidade crescente à medida que os estudantes adquirirem autonomia para os procedimentos e também servirá, além do ensino, para a realização de pesquisa e extensão universitária.

“Aproveito para agradecer, também, em nome do professor José Sebastião dos Santos, coordenador do curso de Medicina da USP, em Bauru, a todos os professores e servidores envolvidos nesse projeto, os parceiros que encontramos e toda a acolhida que tivemos aqui”, reiterou.

Outra grande entusiasta do Necs e estudiosa das práticas em simulação, Alessandra Mazzo disse que o núcleo é um espaço interprofissional e deverá será muito visitado por estudiosos do mundo inteiro. “Já conheci muitos centros de simulação, e a estrutura aqui é incrível. A simulação tem sido colocada como um dos cinco itens para mudar a educação em saúde, por isso ela é tão importante hoje nos currículos.”

Tiago Rodella / Assessoria de Comunicação do Centrinho
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Este post foi modificado as June 18, 2018, 1:14 pm