Universitários produzem paródias musicais para ensinar microbiologia

“Staphylo”, criado a partir de uma canção do Backstreet Boys, faz parte do Projeto Adote uma Bactéria do Instituto de Ciências Biomédicas da USP

 Publicado: 23/01/2023  Atualizado: 27/01/2023 as 9:27
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Foto: Reprodução/YouTube

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Aprender sobre microbiologia pode ser mais divertido do que parece. Os alunos do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP mostram que isso é possível através do projeto de extensão Adote uma Bactéria. O novo trabalho Staphylo apresenta diversas características do gênero de bactérias Staphylococcus, causador de infecções na pele, através de uma paródia da canção I Want It That Way, da banda Backstreet Boys. A música Staphylo já pode ser conferida no canal do YouTube, onde é possível assistir a outros dois vídeos (Nâo) Pode Pegar e Olha a Evolução (leia mais abaixo). A produção é de Victor Reiter, egresso do curso, que também atua como produtor musical independente.

Os trabalhos de divulgação científica fazem parte do projeto de extensão Adote uma Bactéria, coordenado pela professora Rita Café e aplicado para alunos do segundo semestre de graduação em Ciências Biomédicas do ICB-USP. Nele, os alunos da disciplina de Bacteriologia são divididos em grupos e produzem conteúdo para redes sociais relacionado a diversos gêneros de bactérias, trazendo informações sobre diversos aspectos dos organismos, de morfologia à genética, passando por aspectos como resistência e identificação. “A ideia é fazer com que os alunos ‘aprendam a aprender’, pois a maneira como vão estudar sobre um gênero específico pode ser utilizada com qualquer outro gênero bacteriano no futuro, caso necessitem. Ao longo da disciplina, essas postagens ficam disponíveis para toda a sala, de forma que todos podem acompanhar e entender as diferenças entre os gêneros estudados por cada conjunto de alunos”, explica Victor, também responsável pela monitoria do projeto.

Adote uma Bactéria também é realizado em outros cursos da Universidade, como Odontologia, e de outras instituições como a Universidade Federal de Sergipe e a Universidade Estadual da Bahia. Segundo Victor, o projeto é uma metodologia de ensino ativo, no qual os grupos “adotam” um gênero bacteriano. “Cada grupo é acompanhado por um ou mais mediadores, sendo estes monitores da turma (alunos de graduação ou pós-graduação) e, além de assistir às aulas expositivas, os alunos também devem pesquisar tudo sobre a bactéria adotada (morfologia, genética, resistência, etc.) e fazer postagens em redes sociais deste projeto, sempre utilizando bibliografia adequada, como livros didáticos e artigos científicos publicados em revistas e jornais”, informa. “Essas publicações são avaliadas pelos mediadores, que podem fazer comentários e perguntas para corrigir informações e, mais importante, incentivar os alunos a discutirem a respeito do que pesquisaram, o que traz uma dinâmica de integração entre os conteúdos abordados e um maior aprofundamento em conceitos que, não fosse a metodologia, poderiam ser somente ‘decorados’ sem um entendimento adequado de seu contexto”, garante.

Staphylo | Párodia de I Want It That Way, dos Backstreet Boys

Paródias científicas

“O trabalho pode ser desde um power point até uma peça de teatro, música, speed art, entrevistas ou vídeos”, como enumera Victor. Os alunos devem criar materiais de divulgação científica que possam ser apresentados para a população em geral, com caráter de difusão e extensão universitária, e como ele diz, alguns grupos optam pela produção de panfletos ou flyers, outros fazem vídeos com desenhos animados e, ainda, há aqueles que optam pelas paródias musicais, caso de Staphylo.

Além do Staphylo, outros dos vídeos já foram produzidos por Victor: Olha a Evolução, uma paródia da canção Gangnam Style, do cantor Psy, sobre a codificação dos genomas humanos; e (Não) Pode Pegar, uma paródia de Stayin’ Alive, da banda Bee Gees, sobre clamídia. Como conta Victor, Staphylo (2022) e (Não) Pode Pegar (2019) foram desenvolvidas durante seu período como mediador no projeto, e foram criadas em conjunto com grupos de alunos das turmas de Ciências Biomédicas e Odontologia, respectivamente, inseridos em disciplinas de Bacteriologia e Microbiologia básica destes cursos de graduação. Já Olha a Evolução foi produzida por ele e seu grupo quando eram alunos da disciplina de Genética e Evolução, em 2018, como um complemento de uma apresentação sobre um artigo científico publicado na revista Science. “O desenvolvimento da paródia não era obrigatório, mas a fizemos porque seria uma boa adição ao seminário”, lembra. “De fato, foi a primeira que produzi, mas de extrema importância para que eu continuasse realizando este tipo de material no projeto do qual passei a fazer parte no ano seguinte.”

 

Produção musical

Além de biomédico, Victor é multi-instrumentista, com grande experiência na área. “Gosto muito da liberdade criativa da qual os alunos dispõem a partir desta metodologia”, comenta, revelando muitos grupos que media geralmente desenvolvem materiais em vídeo e paródias musicais. O principal ponto deste tipo de trabalho, segundo ele, é a adaptação das letras, que é feita pelos alunos, e que requer estudo para condensar um grande volume de informações nos versos de tamanhos limitados das músicas, bem como uma especial atenção para a precisão científica deste conteúdo.

“Enquanto mediador, fico responsável por auxiliar na parte de produção de áudio e vídeo e supervisão dos alunos durante a criação da letra da música, tanto para corrigir alguma eventual imprecisão quanto organizar a métrica e rima para manter a identidade da música original”, informa.  Os cenários, segundo ele, em geral, são a Cidade Universitária, no Butantã, escolhidos em conjunto com os grupos para que os vídeos possam ter uma aparência de clipes musicais, enquanto transmitem informações em uma linguagem simples para uma melhor captação da informação pelo público.

Para Victor, há muitos aspectos positivos na aplicação da música como ferramenta de ensino: “Os alunos de graduação costumam apresentar maior interesse e engajamento durante o processo de criação deste conteúdo, além de constantemente estudarem para resumir de forma eficiente o conteúdo pesquisado ao longo do semestre”. Além disso, como destaca, a adaptação da linguagem técnico-científica para um formato de comunicação informal requer cuidado e trabalho com habilidades imprescindíveis para alguns formatos de divulgação científica, algo que, cada vez mais, tem sido valorizado no mundo todo. “As paródias podem ser utilizadas pela população geral como fonte de conhecimento, além de potencialmente auxiliarem estudantes (principalmente das áreas biológicas e saúde) a recordar o conteúdo já estudado. As músicas escolhidas para este tipo de trabalho geralmente são conhecidas por um amplo número de pessoas e podem facilitar ainda mais o processo de fixação da letra, já que a melodia é familiar”, garante.

“Fico particularmente feliz com a possibilidade de unir minhas duas áreas de atuação em projetos que, embora divertidos e com certo grau de descontração, têm potencial para impactar positivamente o processo de ensino e disseminação de informações precisas para o maior número de pessoas”, afirma.

 

Confira os outros dois vídeos na playlist no YouTube ou clique nos players abaixo:

(Não) Pode pegar | Paródia de Stayin’ Alive, dos Bee Gees – Adote uma Bactéria

Olha a evolução | Paródia de Gangnam Style, do Psy

 


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