Sentimento de exclusão feminina no Direito é transformado em dados

Pesquisa da Faculdade de Direito da USP investiga desigualdade de gênero nas carreiras jurídicas e na vida acadêmica

Lançamento do livro Interações de Gênero – Foto: Vitória Machado

Há diferenças de interação de gênero no curso de Direito da Faculdade de Direito da USP, em São Paulo? O perfil do professor impacta nas relações de gênero em sala de aula? Essas duas perguntas estão entre as questões levantadas por um grupo de estudo da USP que investigou as dinâmicas de inclusão e exclusão que ocorrem no ensino jurídico a partir do gênero dos estudantes.

A análise das interações nas salas de aula da FD revelou a existência de um currículo oculto nesse ambiente universitário. Segundo as pesquisadoras, foram identificadas situações sutis de diferença de comportamento e postura entre homens e mulheres, capazes de camuflar o gênero.

O resultado da análise pode ser verificado no e-book Interações de gênero nas salas de aula da Faculdade de Direito da USP: um currículo oculto. A obra foi lançada pelo Grupo de Pesquisa e Estudo de Inclusão na Academia (GPEIA) da FD, no dia 21 de março.

O texto de 127 páginas discorre sobre as interações de gênero nos diferentes momentos e períodos do curso. Ele analisa também a questão do silenciamento dentro da faculdade, os perfis dos docentes, além do olhar feminista na primeira faculdade de direito do País. O trabalho completo está disponível gratuitamente no site da Biblioteca Digital da Unesco.

Cecília Barreto de Almeida, uma das coordenadoras do GPEIA, conta que o grupo surgiu de uma iniciativa de alunas de graduação e pós-graduação. “Sentimos que, nas aulas em que estávamos presentes, não éramos ouvidas ou, às vezes, o que falávamos não tinha repercussão”, explica.

Esse incômodo levou ela e outras pessoas a se reunirem para discutir o assunto e criar o grupo, que chegou a contar com 23 pesquisadoras e um pesquisador. “Foi com esse intuito que surgimos: tentar entender como eram as interações de gênero na sala de aula”, conta Cecília.

A ideia principal foi transformar o sentimento de exclusão em dados e transformá-los em ciência. O estudo aborda também a metodologia de ensino na educação e a produção de mulheres na pesquisa. O trabalho foi publicado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Para Luciana de Oliveira Ramos, coordenadora do grupo, as reflexões que estão sendo trazidas e o debate que se colocou só reforçam a importância da pesquisa. Para ela, o objetivo ainda é “continuar nessa agenda, mas também expandir e pensar nas outras formas de discriminação existentes e de exclusão dentro do ambiente universitário.”

A pesquisadora destaca que é necessário fazer a diferença em uma transformação futura nas profissões jurídicas e em tantas outras. “É importante de fato ressignificar essas estruturas do Direito e essas relações de poder. É isso que buscamos com essa pesquisa.”

“Estamos muito felizes com a oportunidade de publicar esse trabalho pela Unesco e com a repercussão aqui na faculdade. É o início de uma série de debates muito importantes e essa pesquisa abre um caminho interessante para isso”, conta Izabella Menezes Passos Barbosa, do GPEIA.

O livro completo pode ser acessado neste link.

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