Geossítio Pedra do Sino, em Ilhabela - Foto: Divulgação/GeoHereditas IGC USP

São Paulo coberto por geleiras, corredeiras no Tietê: viaje no tempo com a geologia

Livro de pesquisadora do Instituto de Geociências da USP conta a história geológica do Estado por meio de locais abertos para visitação; leitores podem interagir com mapa geológico

 01/02/2022 - Publicado há 10 meses  Atualizado: 04/02/2022 as 17:11

Valentina Moreira e Cândido

Você sabia que as montanhas, os rios e o solo contam a história da Terra antes do surgimento dos primeiros seres humanos? Mesmo que nem sempre isso seja visível ao tempo humano, as paisagens naturais estão sempre se modificando. Ao longo de bilhões de anos, elas são alteradas de acordo com o momento geológico e os seres vivos que nelas vivem. Uma longa história que fica registrada nas pedras e nas formas de relevo de cada região. 

Para tentar recontar essa história, os geocientistas pesquisam, entre outras coisas, os chamados geossítios. Nestes locais, é possível observar vestígios do passado, que ajudam a organizar a linha cronológica da história geológica. No Estado de São Paulo, os pesquisadores do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Patrimônio Geológico e Geoturismo (GeoHereditas), do Instituto de Geociências (IGc) da USP, produziram um inventário com o registro de 142 geossítios do Estado. O levantamento resultou em um mapa geológico interativo, que indica os períodos de formação dos patrimônios geológicos.

Para divulgar esse trabalho inédito realizado pelos pesquisadores, a professora do IGc  e coordenadora do projeto do inventário, Maria da Glória Motta Garcia, lançou no final de 2021 o livro Patrimônio Geológico Paulista — uma viagem no tempo geológico em 50 geossítios. Na obra, foram selecionados 50 dos 142 geossítios identificados, que trazem um breve resumo da formação geológica do Estado. 

Na produção do livro, Maria da Glória escolheu diferentes perfis de geossítios, entre aqueles que ela considerava serem os mais importantes. “Procurei mesclar geossítios que eram atrativos turísticos já consagrados e locais que são, por exemplo, um barranco na beira da estrada, justamente para mostrar que essa ciência pode ser feita em qualquer lugar”, conta. A obra pode ser adquirida por R$ 60 no site da editora Funep.

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Maria da Glória Motta Garcia, professora do Instituto de Geociências da USP - Foto: Divulgação/IGc

Livro quer aproximar o conhecimento sobre geologia do público - Foto: Divulgação/ GeoHereditas

Segundo a autora, conhecer os geossítios do Estado de São Paulo é importante não só por causa da relevância deles para a geociência. Ela explica que “muitos desses locais registram eventos climáticos do passado, e podem fazer a gente tentar entender como esses eventos podem atuar no futuro e como podemos tentar minimizar seus efeitos”. Mais que isso, Maria da Glória lembra que os geossítios são “uma memória da ciência e da Terra”. Dessa forma, “eles podem ser utilizados para fins turísticos e didáticos — desde a educação formal, que é dada nas escolas, até para ensinar não só as geociências, mas a conservação do ambiente no geral”.

Mapa geológico interativo com os períodos de formação dos patrimônios geológicos

Uma viagem no tempo por meio dos geossítios

Este barranco é, para mim, um livro aberto, uma página da história da Terra na qual leio mil coisas interessantíssimas. — É um dos barrancos mais lindos que já vi — continuou o sábio. — Observem atentamente essas superposições de camadas. Temos aqui uma série de camadas paralelas. Estão superpostas, isto é, uma em cima da outra, e são constituídas de rochas diferentes. — E que tem isso? — Tem um colosso de coisas.”

O Poço do Visconde, de Monteiro Lobato

O livro sobre geossítios destaca esta passagem da obra O Poço do Visconde, de Monteiro Lobato, em que o personagem Visconde explica para Pedrinho, Emília e Narizinho como a geociência pode ser usada como um instrumento para se conhecer o passado. “Com a observação do barranco encontrado, os personagens descobrem que o Sítio do Picapau Amarelo foi, antes, uma região coberta por água, muito diferente do que eles conheciam”, explicam os pesquisadores no livro. 

Como na ficção, os geossítios descritos na publicação também abrigam muitas descobertas. O afloramento de migmatitos encontrados na cidade de Amparo, por exemplo, são uma passagem para uma viagem de 3 bilhões de anos no passado. Essas pedras, consideradas as mais antigas do Estado de São Paulo, foram formadas quando a maior parte dos territórios que hoje compõem o Hemisfério Sul, como o continente africano e a América do Sul, estava unida em um só território — o chamado supercontinente Gondwana.

Rochas em Amparo: os migmatitos foram formados sobre intensa pressão e temperatura - Foto: Reprodução/GeoHereditas IGC USP

Rochas graníticas em Ubatuba, formadas há milhões de anos - Foto: Reprodução/GeoHereditas IGC USP

Durante o período em que Gondwana permaneceu unido, também surgiram outras formações rochosas importantes, como os granitos, apresentados no segundo capítulo do livro. De diferentes tipos, os granitos foram formadas a partir da solidificação do magma terrestre. Um resquício deste momento é o granito verde de Ubatuba, formado há 582 milhões de anos, que pode ser visitado através do passeio geológico virtual pelo litoral paulista, disponível no site do GeoHereditas.

O conhecimento não fica restrito às pedras. Além das formações rochosas, a estrutura geológica também mostra as geleiras, os mares e os desertos que cobriram o território do Estado de São Paulo. Por meio dos sedimentos da bacia do Rio Paraná, disponíveis para a visitação em locais como o Parque Geológico do Varvito, em Itu, é possível conhecer as mudanças climáticas que aconteceram aqui durante as Idades Glaciais. 

 

Parque Geológico do Varvito, em Itu - Foto: Divulgação/GeoHereditas IGC USP

Aproximando-se dos dias atuais, o livro chama a atenção para outros locais distribuídos pelo Estado que, apesar da grande importância geológica, ainda são pouco conhecidos pela população. Esse é o caso do geossítio localizado em Laranjal Paulista, onde é possível descobrir como era o rio Tietê antigamente.

Maria da Glória explica que um rio, ao longo do seu percurso, escava canais e deposita sedimentos em alguns locais, que podem ser posteriormente usados para a descrição do curso das águas. No caso do antigo Tietê, um desses pontos fica em Laranjal Paulista. Nessa cidade, segundo a geocientista, foram encontrados registros que indicam que as águas que ali passavam teriam uma força muito grande, capaz de carregar pedras. 

A autora complementa: “Se você olhar nos depósitos, você verá uma quantidade de seixos muito grandes. Para carregar uma quantidade de seixos daquele tamanho, o rio precisaria ter uma energia muito grande, ou seja, as águas precisariam ser muito fortes e ter corredeiras. E não é isso que a gente observa no atual Rio Tietê”.

Processo de erosão na Enseada da Baleia, em Cananeia - Foto: Divulgação Defesa Civil SP / Wikimedia Commons

Por mais que essas diferentes paisagens possam parecer algo do passado, a geologia mostra que transformações estão acontecendo a todo momento, inclusive enquanto você lê esta matéria. Exemplo disso é o geossítio da Enseada da Baleia, em Cananeia, destacado por Maria da Glória. 

Ela conta que, em 2018, a extensa faixa de areia que estabelecia o limite entre os estados de São Paulo e do Paraná neste local se rompeu devido a processos erosivos na região. Com isso, foi formado um novo canal de acesso do mar ao continente, modificando a fronteira entre os estados. “São Paulo perdeu um pouquinho de área e o Paraná ganhou um pouquinho. Porque o limite passava bem mais perto do Paraná e, por conta disso, o limite passou a ser bem mais perto daqui”, explica a pesquisadora.

NAP GeoHereditas

O Núcleo de Apoio à Pesquisa em Patrimônio Geológico e Geoturismo é um centro de pesquisa do IGc. Seu nome alternativo, NAP GeoHereditas, é uma união dos termos geo, que significa “Terra”, e hereditas, que significa “herança” ou “patrimônio”. Segundo Maria da Glória Motta Garcia, coordenadora do NAP, o núcleo se dedica à geoconservação, “uma área ampla que engloba temas associados à geodiversidade, ao patrimônio geológico, ao geoturismo, à educação em geociências e à interpretação e educação ambiental”.

Além da produção do inventário com o registro de 142 geossítios do Estado de São Paulo, que resultou no livro Patrimônio Geológico Paulista, os pesquisadores do NAP GeoHereditas se dedicam a atividades relacionadas a todo o processo de geoconservação. O que envolve desde a coleta de dados para o registro dos geossítios, até a divulgação do uso sustentável desse patrimônio, para a garantia de sua preservação.

Para isso, o NAP GeoHereditas conta com uma equipe interdisciplinar, com pesquisadores de várias áreas das geociências, biociências, geografia, história, do turismo e das ciências sociais. 

Para comprar o livro Patrimônio Geológico Paulista — uma viagem no tempo geológico em 50 geossítios, clique aqui.

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Com colaboração de Amanda Mazzei


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