Quem vestia as crianças no passado? E-book gratuito mostra trajes infantis do Brasil imperial

Livro “Para meninos, meninas e suas bonecas” convida leitor a conhecer e construir trajes oitocentistas; publicação foi lançada no Portal de Livros Abertos da USP

 24/08/2021 - Publicado há 3 meses
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Livro investigou o que faziam e como se vestiam em cada ocasião as crianças no Brasil Imperial – Foto: Reprodução/Livro Para Meninos, meninas e suas bonecas/Acervo Museu Paulista

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O que uma criança podia fazer no Brasil do século 19? O livro Para meninos, meninas e suas bonecas: moldes e moda para crianças no Brasil do século XIX se propõe a responder. Reunindo pesquisadores da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e também da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) – ambas da USP -, além de estudiosos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a publicação acaba de ser lançada no Portal de Livros Abertos da USP e pode ser baixada gratuitamente neste link.

Em pesquisa anterior, os autores já haviam se dedicado a compreender o contexto cultural que permeava os modos de produção do traje brasileiro. Agora, o resultado é uma investigação sobre os trajes usados no país no século 19 por um público que normalmente é esquecido nas pesquisas: as crianças.

O trabalho se descortina na apresentação da vida infantil no Império. Como se relacionavam com os adultos, com o que brincavam e quais eram seus pratos favoritos – como uma espécie de sonho, recheado de caramelo e sementes de melancia.

Na primeira parte da obra, há ainda relatos de alguns adultos que viram nascer uma nova definição do conceito de infância, mais próxima do que conhecemos hoje. Antes disso, as crianças eram vistas como adultos em miniatura. Mas mesmo nas embarcações lusitanas do século 16, lá estavam elas como aprendizes, criados ou até servidoras sexuais.
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Meninos brincando de soldados ou O primeiro ímpeto da virtude guerreira – Aquarela de Debret, 1827 – Acervo: Museus Castro Maya (RJ) – Meninos brancos e negros brincam juntos, já que a separação entre eles vai acontecer por volta dos 7 anos. Mesmo assim, o traje dos meninos brancos é mais elaborado: os meninos negros usam roupas menos destacadas.

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Embora o foco narrativo esteja sobre o guarda-roupa privilegiado das crianças ricas, o livro expõe os contrastes das diferenças sociais. Enquanto indica registros de viajantes que identificavam crianças pobres andando nuas pelas ruas, a pesquisa discute casos como o de Dona Januária. Filha de Dom Pedro I, sua lista de roupas contava com mais de 300 peças. Os autores contam que as roupas eram consideradas tão caras, que podiam figurar como itens deixados em testamento para os familiares.

Os trajes e sua relação com o trabalho também expressavam a aguda diferença social entre crianças negras e brancas. As negras podiam desempenhar um papel significativo nas festividades e cerimônias religiosas, junto das brancas. A pobreza e a simplicidade se traduziam nas roupas e sapatos puídos, como dos pequenos jornaleiros retratados por Marc Ferrez, principal fotógrafo brasileiro do século 19. O registro está presente no livro.

Na sequência, a publicação faz uma referência interna, indicando alguns dos tecidos e cores disponíveis na época. Fazendo menção à publicação anterior Para vestir a cena contemporânea: moldes e moda no Brasil no século XIX, o final da parte um convida o leitor a descobrir a vasta lista de padronagens de manufatura inglesa, indiana e francesa disponível na primeira publicação do grupo, lançada em 2015.

Traje de boneca que data da virada do século 19 para o 20 – Fonte: Reprodução

Bonecas e os modelos sociais

A obra dedica um espaço de destaque para as bonecas. De acordo com os autores, elas representavam mais do que um objeto relacionado ao ato de brincar. Antes, “as bonecas ficaram muito ligadas à criação de trajes de moda e de aprendizagem de hábitos sociais”. 

A pesquisa exibe que as “artes têxteis” eram formas de introduzir as obrigações maternas entre as meninas. Bonecas de porcelana eram adornadas de acordo com o gosto da jovem dona, mas, com o passar dos anos, a fabricação artesanal alcança alto grau de refinamento, acompanhando enxovais completos. 

Outra brincadeira comum entre as crianças mais favorecidas era a de criar trajes para as bonecas de acordo com cada situação diferente da vida. As modelagens para os vestidos de bonecas e meninas vinham em revistas, que tanto estimulavam o consumismo quanto as incentivavam a dominar as artes da costura e do bordado.  

Trajes para meninos e meninas

Acompanhando aspectos históricos, o trabalho apresenta modelagens de três trajes de menino, incluindo o icônico traje de marinheiro; três trajes de menina e uma roupa de batizado, comum a ambos os sexos.

Nesta segunda parte, os autores propõem o molde e a maneira de construir os trajes de meninos, meninas e das bonecas, peças fundamentais no crescimento e envolvimento social das meninas no século 19. Eles foram desenhados sobre uma grade quadriculada para facilitar a ampliação e possibilitar a confecção do traje no tamanho adequado.

A recriação artística desses trajes é o desafio que a obra apresenta, para que o leitor veja as modelagens, adapte-as para suas necessidades e crie.

Foto: Divulgação/ECA USP

O Portal de Livros Abertos da USP

O Portal de Livros Abertos da USP, inaugurado em 2016, é mantido pela Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica (Aguia), com a reunião e divulgação dos livros digitais acadêmicos e científicos publicados pelas unidades, institutos, centros, museus e órgãos centrais da Universidade de autoria ou organização de professores e especialistas. Todas as obras estão em acesso aberto e texto completo sob licença Creative Commons 4.0.

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Para meninos, meninas e suas bonecas: moldes e moda para crianças no Brasil do século XIX
http://www.livrosabertos.sibi.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/638/569/2149-1
Autores: Fausto Viana, Isabel Italiano, Desirée Bastos e Luciano Araújo
130 páginas. ECA/USP, 2021.

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