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Projeto usa as redes sociais para informar sobre limpeza e desinfecção de superfícies

Iniciativa de professora e aluna da USP em Ribeirão Preto tira dúvidas sobre uso de produtos para limpeza de superfícies e os perigos da mistura desses materiais

16/08/2021

Brenda Marchiori

O contato com superfícies e objetos contaminados continua como uma grande preocupação desde o início da pandemia da covid-19 e, como ainda há muitas dúvidas com relação à limpeza e desinfecção de superfícies, uma iniciativa da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP pretende levar informações de qualidade à população, mostrando quais produtos químicos são mais adequados e como podem ser usados de forma segura para garantir a saúde coletiva.

O projeto da professora Márcia Andreia Mesquita Silva da Veiga e da aluna do curso de bacharelado em química, Bruna Barbosa Laurentino,  utiliza os conhecimentos químicos disponíveis para publicar nas redes sociais infográficos e tabelas, mostrando as finalidades específicas de uso de cada um dos produtos, a diferença entre limpar e desinfectar, os perigos ao misturar produtos de limpeza e a forma mais adequada para realizar a higienização das mãos. Foram desenvolvidas pesquisas a respeito de cada possível interação química para orientar protocolos seguros e de fácil assimilação. Acesse aqui e clique em divulgação científica e leia as informações disponibilizadas pelas pesquisadoras.

O conteúdo disponibilizado traz ainda informações que tem como objetivo minimizar os crescentes casos de intoxicações provocadas pelo uso incorreto de produtos de limpeza. “Este projeto de divulgação científica é uma forma de orientar a população para que realize o manuseio de modo correto e confiável desses produtos que contêm componentes químicos, com o intuito de minimizar a contaminação pelo vírus e evitar acidentes”, enfatiza a professora Márcia.

A professora Márcia destaca que limpeza e desinfecção se tratam de conceitos diferentes e cita os Centers for Disease Control and Prevention (CDC, Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) para explicar que a desinfecção inativa o vírus, enquanto a limpeza é responsável por remover a sujeira.

A desinfecção é feita utilizando produtos químicos de limpeza regularizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas este processo, de acordo com a professora, “não limpa necessariamente superfícies sujas”, mas reduz consideravelmente o risco de propagação da infecção, sendo a prática mais recomendada para eliminar micro-organismos patogênicos e controlar a transmissão de algumas doenças. Márcia cita a água sanitária e os desinfetantes à base de amônias quaternárias como específicas para minimizar o risco de contaminação pelo vírus da covid-19 e outros germes.

A limpeza, por outro lado, faz a “remoção de germes, sujeiras e impurezas das superfícies; diminui o número e o risco de propagação de infecções”, mas não mata os micro-organismos. A recomendação da professora é que a limpeza seja realizada antes da desinfecção, já que esta sim “serve para matar os germes ou inativar os vírus nas superfícies”.

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Márcia Andreia Mesquita Silva da Veiga, professora da FFLCRP - Foto: Divulgação/FFCLRP

Ouça no player abaixo entrevista da professora Marcia Andreia Mesquita Silva da Veiga ao Jornal da USP no Ar, Edição Regional.

Uso correto dos produtos de limpeza

Muitos produtos de limpeza são indicados para prevenir a infecção por vírus e bactérias, como a água sanitária e os desinfetantes à base de amônia. A professora Márcia alerta que é preciso ficar atento ao utilizar esses produtos, pois alguns fatores podem interferir no grau de eficiência dos componentes químicos dos produtos, como a temperatura.

As condições da temperatura e do ambiente devem ser levados em conta no armazenamento e no momento da aplicação (da limpeza). É que o componente ativo do produto pode degradar-se ou “torná-lo instável em temperatura muito alta ou muito baixa, diminuindo sua eficiência”, afirma a professora, adiantando que a luz solar também pode deteriorar produtos químicos.

O tempo de aplicação é outro fator que importa. Márcia diz que cada ingrediente ativo necessita de um tempo mínimo que “para que sua ação seja realmente efetiva”, lembrando que a água sanitária diluída em água, por exemplo, necessita de “pelo menos 10 minutos na superfície aplicada para inativar o vírus”. 

Outras questões levantadas pela química são: superfícies não porosas, como as metálicas que não suportam água sanitária. A orientação é considerar o produto mais adequado para a limpeza ou desinfecção de uma determinada área.

Para não errar, Márcia diz que é sempre importante seguir as recomendações do rótulo do produto, atentando para “o tempo necessário de contato para maior eficácia e sobre os riscos envolvidos na manipulação e misturas inadequadas”. Recomenda também o uso de luvas ou, não sendo possível, que as mãos sejam lavadas antes e depois da limpeza ou desinfecção.

A professora não descarta, em alguns casos, o uso de equipamentos de proteção individual, os EPIs. É que determinados produtos apresentam risco à saúde e o contato com a pele, as mucosas e os olhos deve ser evitado. Outra recomendação é “arejar e permitir a exposição ao sol”, pois “os vírus não gostam da luz solar”, diz.

Misturas perigosas

As misturas de produtos de limpeza podem ser perigosas, devido aos componentes químicos presentes nas formulações, ou ainda ineficazes. Um exemplo de produto que está sendo muito usado para essas finalidades é o álcool, produto altamente inflamável, que quando utilizados em superfícies com excesso de sujeira, resíduos e gorduras, não é tão eficaz.

A água sanitária também é um produto de limpeza muito indicado para realizar a desinfecção de superfícies, pois tem como função higienizar e desinfectar superfícies, evitando, assim, a propagação do SARS-CoV-2. Mas, apesar dos seus benefícios, pode apresentar alguns riscos à saúde quando combinada com outros produtos de limpeza e isso, de acordo com a professora, “é um erro, pois essa mistura pode gerar produtos e subprodutos tóxicos”.

A mistura de água sanitária com ácidos, como o vinagre, por exemplo, gera gás cloro (Cl2) que “é tóxico e pode causar tontura, asfixia, queimaduras, danos aos olhos, irritações na pele e nas vias respiratórias”, adverte. Quando a mistura é com álcool, gás cloro e trialometanos e clorofórmio são liberados e, “além dos efeitos tóxicos causados pelo gás”, o clorofórmio “pode provocar náusea, vômitos, queimadura na pele, dano aos olhos, edema pulmonar e é suspeito de provocar câncer”.

Muitas pessoas costumam misturar a água sanitária com desinfetantes à base de amônias quaternárias, o que também gera gás cloro, além de cloroaminas e tricloroaminas. De acordo com Márcia, “estas substâncias podem causar tosse, asma, dano aos olhos (perigo de cegueira), queimaduras na pele e nas vias respiratórias, provocando dificuldades respiratórias e reações alérgicas”. E, quando combinada com compostos oxigenados, como a água oxigenada, ocorre a liberação do gás oxigênio (O2) “de maneira violenta”, conta.

Na fórmula da água sanitária, diz a professora, há hipoclorito de sódio, o que ajuda a combater a covid-19, explica a professora, porque “possui ação desinfetante, virucida, germicida e alvejante”. E, quando diluída em água, “ocorre a geração do ácido hipocloroso, que é um forte oxidante, capaz de atuar sobre as estruturas das células dos micro-organismos, impedindo o bom funcionamento dos agentes infecciosos”. A diluição é o que garante que o pH da água sanitária seja diminuído e garanta a “a prevalência do ácido hipocloroso”, responsável por inativar o vírus.

Como utilizar a água sanitária

A professora faz algumas recomendações para o uso do produto. Para limpeza de banheiros, pisos e solas de sapatos, recomenda-se usar 50 ml do produto para um litro de água. A aplicação pode ser feita com o uso de um borrifador e o tempo de contato deve ser de, pelo menos, 10 minutos para inativação dos vírus. Mas, em metais, a água sanitária pode ser corrosiva.

Para desinfecção de frutas, verduras e legumes, é necessário diluir uma colher de sopa (15 ml) de água sanitária em um litro de água, deixando por 15 minutos e, posteriormente, enxaguar bem com água.

A água sanitária deve ser utilizada para desinfectar as superfícies. Para limpar e desinfectar as mãos, pode ser utilizada bem diluída em água, mas apenas em último caso. O recomendável é que se faça a higienização das mãos sempre com água e sabonete ou álcool a 70%.

Porque lavar as mãos com água e sabão

“Uma medida simples, com lavar as mãos, pode reduzir em até 40% a contaminação por vírus e bactérias”, garante Márcia, sendo fundamental o uso de sabão ou detergentes para a eficiência da higienização. E ressalta que este “é um cuidado básico que pode reduzir o risco de contrair infecções causadas por vírus, incluindo o novo coronavírus”.

Ao lavar as mãos e objetos com sabão ou detergente, o SARS-CoV-2 é inativado e, junto com as sujeiras, é carregado com a água corrente da lavagem, conta. O vírus é “envelopado e possui uma camada chamada membrana lipoproteica muito parecida com a estrutura dos surfactantes”, presentes no detergente, explica. Essa semelhança, permite com que os surfactantes sejam inseridos na membrana do vírus. “A adição das moléculas do surfactante continua até que ocorra o rompimento da membrana e fragmentação do vírus”, inativando-o, continua a professora. Os fragmentos são, então, envolvidos em micelas, que também são carregadas e levadas pela água.

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