Congelamento de bolsas afeta Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia

Em carta ao presidente da Capes, reitor e pró-reitor de Pesquisa da USP pedem “sensibilidade” à importância dos INCTs

O congelamento de bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) está afetando não apenas os programas de pós-graduação nas universidades, mas também os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), projetados para ser a ponta de lança da pesquisa científica nacional.

O alerta é do reitor da USP, Vahan Agopyan, e do pró-reitor de Pesquisa, Sylvio Canuto, em carta enviada hoje ao presidente da Capes, Anderson Ribeiro Correia. Eles pedem “sensibilidade” à manutenção do apoio aos institutos, salientando que “a interrupção no fluxo de bolsistas pode gerar prejuízos enormes para a continuidade das pesquisas destes programas”.

Vahan Agopyan

“Com o recente fechamento do sistema de bolsas pela Capes, igualmente bolsas do INCT não puderam ser alocadas para os novos bolsistas, mesmo aquelas com orçamento já aprovado”, diz a carta (íntegra do documento abaixo). “Há casos em que houve chamadas nacionais ou internacionais com candidatos selecionados em certames bastante concorridos, cujas bolsas não puderam ser implementadas neste momento.”

Os INCTs são institutos virtuais, multicêntricos e multidisciplinares, dedicados à pesquisa de temas estratégicos. Alguns chegam a agregar dezenas de laboratórios e pesquisadores, em diferentes instituições, que trabalham em rede para solucionar problemas científicos e desenvolver novas tecnologias em áreas como agricultura, saúde e computação.

O programa teve início em 2008, com o financiamento de 126 INCTs. Uma segunda chamada, aberta em 2014, resultou na seleção de 102 projetos — 16 deles coordenados por pesquisadores da USP. O edital previa investimentos de R$ 100 milhões por parte da Capes, CNPq e Fundos Setoriais, além de recursos complementares da fundações de apoio à pesquisa dos Estados (FAPs). A contribuição da Capes, especificamente, é dada na forma de bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, que sustentam os recursos humanos necessários para realização das pesquisas.

Os 16 INCTs coordenados por cientistas da USP tratam de temas como terapia celular, nanotecnologia farmacêutica, psiquiatria infantil, internet do futuro, biocombustíveis, fluidos complexos e eletrônica orgânica.

Sylvio Roberto Accioly Canuto

O diretor do Instituto de Biociências da USP e coordenador do INCT do Bioetanol, Marcos Buckeridge, conta que foi “pego de surpresa” pela suspensão das bolsas. “Temos seis pós-doutorandos e quatro deles estão terminando a bolsa. Estávamos exatamente no momento de trocar quando fecharam as indicações”, diz.

Ele alerta que o projeto pode “morrer na praia” sem as bolsas, já que os alunos são os principais responsáveis pela realização das pesquisas, e há experimentos que não podem ser interrompidos. “Corremos o risco de perder todo o investimento de três anos que fizemos até agora com o desenvolvimento de plantas transgênicas”, diz.

“Sem pessoas e sem recursos os INCTs serão mais um retrato deste álbum cartorial chamado Brasil: promessa vazia com carimbo e assinaturas”, diz o o médico José Eduardo Krieger, professor da Faculdade de Medicina da USP e coordenador do INCT em Medicina Assistida por Computação Científica.

Além do efeito prático imediato sobre o andamento das pesquisas, o congelamento das bolsas e os sucessivos cortes orçamentários impostos ao setor nos últimos anos têm um “impacto psicológico” severo sobre o desenvolvimento da ciência e tecnologia no Brasil, alerta ele.

Krieger lembra que as bolsas são o “último fiapo” que resta para o fomento da ciência em grande parte do País, frente à drástica redução dos investimentos públicos em pesquisa. “Já temos gente desistindo de vir para essa carreira”, diz. “É algo que a gente já vinha observando em outros Estados, e agora chegou a São Paulo. Em vez de selecionar, estamos afugentando talentos.”

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