Pandemia mostra gravidade da desigualdade brasileira também no trabalho

René Mendes afirma que a questão de trabalho é um indicador de classe social, como foi perceptível no fato dos que puderam ou não trabalhar remotamente

Nos últimos anos, já estava em discussão as transformações no trabalho em um mundo cada vez mais tecnológico e informatizado. Com a pandemia do novo coronavírus, vimos uma aceleração desse processo, que evidenciou ainda mais a nossa dependência por alguns setores essenciais e também mostrou a disparidade, por exemplo, entre quem pode fazer home office e quem é trabalhador informal. São muitas as mudanças que precisam ser feitas e já estão ocorrendo por força da necessidade, além das tendências dessas novas formas de trabalho que se adaptarão ou surgirão daqui para a frente.

Pensando também nisso, o Instituto de Estudos Avançados (IEA) promove evento sobre o assunto na próxima quarta-feira sobre o tema O mundo do trabalho a partir do coronavírus. Quem fala sobre o debate ao Jornal da USP no Ar é o professor René Mendes, coordenador do Grupo de Estudos Impactos das Novas Morfologias do Trabalho sobre a Vida dos Trabalhadores do IEA, criado no final de 2019. “Não sabíamos nada sobre a possibilidade da pandemia. Porém, a questão das mudanças no mundo do trabalho tem impactado de forma importante a vida e saúde de trabalhadores e trabalhadoras [anteriormente a isso]”, explica o professor. 

A princípio, o grupo de estudos coordenado por Mendes visava a verificar o impacto das condições do trabalho cada vez mais precarizado na vida das pessoas, por exemplo, dos motoristas e motociclistas de aplicativos, principalmente após reformas como a Trabalhista, em 2017. Com problemáticas presentes antes, durante e após a pandemia, René Mendes diz que a covid-19 veio para mostrar a gravidade da desigualdade social brasileira também no trabalho. De acordo com ele, pelo menos dois terços da população brasileira ou não tem casa própria, ou não pode trabalhar em casa, ou ainda suas atividades exigem presença física. 

“A questão do trabalho é um indicador de classe social”, aponta Mendes, citando os tipos de profissionais que precisam continuar trabalhando essencialmente: entregadores, agentes funerários e de saúde, os trabalhadores do transporte público, entre outras categorias que não puderam parar. “[Muitos falam] que o mundo do trabalho ideal tão elogiado, o teletrabalho ou trabalho remoto, todos vão trabalhar em casa. Todos não. É uma porcentagem relativamente pequena que pode trabalhar em casa”, reconhece. A outra parte majoritária da população terá que enfrentar o avanço tecnológico. Por isso, o professor reforça que é preciso ter políticas públicas que priorizem as pessoas em primeiro lugar, já que se permanecer como está “as pessoas ficarão sem trabalho ou, como intenção do projeto neoliberal, trabalharão cada vez mais, ganhando cada vez menos”.

Com grande parte da população brasileira trabalhando à margem tecnológica, quando ela não inclui nossa dimensão social acaba excluindo essas pessoas. Isso porque, geralmente, muitos trabalhos que envolvem tecnologias são baseados na meritocracia, competição, fluência em inglês e domínio de equipamentos modernos, digitais e de comunicação inacessíveis para pessoas socialmente vulneráveis.

Estas questões serão discutidas no evento do IEA, que acontece na próxima quarta-feira, 12, às 16h. São três debatedores que vão abordar a questão do emprego para todos, perfil dos trabalhadores no pós-pandemia, perspectiva de um trabalho mais humanizado e valorização do trabalho como realização. Mais informações do evento on-line, aberto a todos e gratuito, poderão ser acessadas clicando aqui.

Ouça a entrevista na íntegra no player acima.


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