Os melhores debatedores em língua portuguesa são da USP e UFRN

Universitários competiram juntos e venceram campeonato internacional de debates realizado em Portugal

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Alice Bertoni e Gabriel Gomes levaram o prêmio maior da competição – Foto: Arquivo pessoal

Você teria argumentos necessários para defender ou atacar um assunto, independente da sua posição pessoal, durante sete minutos e tendo apenas 15 minutos de preparação? Alice e Gabriel não só têm essa capacidade como são os melhores entre os falantes do português. A aluna do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, em São Paulo, e o estudante de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) conquistaram o primeiro lugar do Campeonato Mundial de Debate em Língua Portuguesa.

A disputa envolveu jovens da comunidade lusófona (falantes da língua portuguesa) para debater temas variados. Qualquer conteúdo poderia ser discutido, desde que fosse possível defender lados opostos. No caso da dupla brasileira, foi preciso sustentar argumentos sobre desastres naturais, uso de energia nuclear, modelos prisionais, medicalização e povos indígenas.  

Os dois competiram na categoria de Iniciados e conseguiram se classificar para a final após passar por cinco debates classificatórios. Na última disputa, o tema foi “Existe uma poção que garante que o utilizador nunca mais pode se apaixonar. Os efeitos desta poção são irreversíveis. Esta casa permitiria, a qualquer adulto que consentisse, tomar esta poção”. A dupla se posicionou contrariamente.

“Pensamos em argumentos que fariam diferença na vida das pessoas porque o debate envolve convencimento, ele é julgado por juízes. Então há a parte técnica, mas, em geral, se trata de comunicação com pessoas”, explica Alice Bertoni.

Natural de Guaxupé, Minas Gerais, a estudante ainda foi classificada na disputa individual como 19ª melhor debatedora do mundo lusófono e a segunda melhor entre as mulheres. Para a aluna da USP, os debates trouxeram crescimento pessoal e habilidades técnicas. “É preciso ter empatia para pensar em argumentos porque, às vezes, tem uma moção que você é sorteado para defender um lado que não concorda.”

É a segunda vez que ocorre um campeonato mundial de debates em português. Assim como na primeira edição, ele foi realizado na Universidade de Lisboa, em Portugal, entre os dias 23 e 28 de abril. A organização é de um grupo da própria instituição, a Sociedade de Debates da Universidade de Lisboa (SDUL).

O debate competitivo é uma atividade acadêmica que segue o modelo de debate parlamentar, apesar de não estar relacionado com política. O modelo é o British Parliamentary (Parlamento Britânico), em que quatro equipes de duas pessoas se confrontam, com apenas 15 minutos de preparação, em discursos de sete minutos, em que procuram defender ou atacar uma moção anunciada no início do debate, independentemente da sua posição pessoal.

A posição das equipes, que condiciona o seu papel, é ditada aleatoriamente (1.º governo, 1.ª oposição, 2.º governo, 2.ª oposição), pelo que é possível que os oradores defendam posições que não sejam as suas, saindo da sua “zona de conforto”.

É a primeira vez que o Brasil vence um campeonato mundial de debates em língua portuguesa. Apesar de relativamente recente no País, existem alguns grupos destinados à formação de debatedores, como o USP Debate, projeto social criado em 2014 por estudantes da Universidade.

Por que é importante saber debater?

“Debate como uma garota” é a tradução da camiseta usada por Alice na competição – Foto: Arquivo pessoal

Alice faz parte do USP Debate. Sua entrada no coletivo a levou para diversas disputas, como o Campeonato Brasileiro de Debates, a edição do torneio Open Minas e do Rio-São Paulo, todos realizados no ano passado.

Para quem quer aprender técnicas para debater, a estudante tem um conselho: “Participe do USP Debate. Fazemos debates abertos que vão passando por todos os institutos da USP. Mesmo que as pessoas não tenham prática, elas podem ir.”

A chegada vagarosa de grupos de debates ao Brasil é um ponto que Alice lamentou. Mas se mostrou muito orgulhosa ao comentar que nomes de grandes líderes, como Barack Obama e Hillary Clinton, passaram por grupos de debatedores, como o citado por ela.

Mas será que é possível aplicar o que se aprende debatendo? A mineira disse que sim. “Dá para aplicar em quase tudo. Conversar, escrever, quando vai conversar com os pais. Além de exercitar a prática de ouvir o outro.”

A importância dos debates está também em tornar as pessoas mais críticas. Alice percebeu isso quando passou a analisar melhor as notícias, prestando atenção nos argumentos utilizados e em quais dados foram usados para basear a informação.

A estudante destaca que “aprender a argumentar, falar, é extremamente importante qualquer que seja sua carreira, pois são habilidades que ajudam por toda a vida.”

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