Literatura infantil ajuda crianças a entenderem a morte

Publicação de aluna do curso de Psicologia da USP em Ribeirão Preto quer que assunto seja tratado e conhecido pelas crianças antes mesmo de experimentarem a perda

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Capa de A Abelhinha Poli – Foto: Reprodução

A mente de uma criança é povoada por perguntas que podem percorrer desde o caminho da infância até a vida adulta na busca por respostas. E, entre essas questões, estão temas que suscitam dúvidas até no mais experiente entre os adultos, como a morte, por exemplo. Explicar a perda não é uma tarefa fácil e foi por isso que a aluna Hellen Cristina Ramos Queiroz, do curso de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, se aventurou pela literatura infantil e escreveu A Abelhinha Poli. O livro promete ajudar as famílias a conversar com os pequenos sobre luto e terminalidade. 

O enredo de A Abelhinha começa com tragédia. Ao tentar pegar mel de uma colmeia, um urso desastrado mata, acidentalmente, os filhotes de abelhas. A única sobrevivente é a abelhinha Poli que, na busca para entender o ocorrido, protagoniza os diálogos com a abelha rainha, dedicada a tirar todas as dúvidas da filhote curiosa. A acadêmica Hellen representou, nas personagens de seu livro, crianças e adultos, dialogando sobre a morte da forma como deveria ocorrer. 

A estudante conta que o objetivo de seu trabalho é exatamente oferecer subsídio às famílias para conversarem com as crianças sobre morte, perda e luto, antes mesmo que elas experimentem essas emoções. Diz que a ideia é prepará-las para lidar com acontecimentos tão comuns à vida de forma simples e sem medo. Uma das preocupações ao escrever o livro “foi justamente não suscitar nenhum pensamento negativo na criança no momento da contação da história, ou então algum sentimento que os pais não soubessem como manejar depois”, afirma. 

A Abelhinha Poli faz parte da pesquisa de Iniciação Científica de Hellen, que integra o grupo de estudos Lutos e Terminalidades (Lute) da FFCLRP, e poderá ser adquirida após o lançamento oficial, dia 20 de fevereiro, às 9 horas, no webinar Comunicação na infância: como conversar sobre adoecimento e morte?, com transmissão ao vivo pela página do coletivo no Instagram. Para assistir, basta clicar aqui e, para adquirir o livro, os interessados devem fazer pedidos pelo (16) 98126-4185 ou procurar a Livraria Espaço Psi.

Trecho da história – Foto: Reprodução

Como as crianças lidam com o luto

Assim como para os adultos, o luto infantil passa por diversas fases que dependem do grau de desenvolvimento psicológico da criança, além de sua proximidade com o falecido. Ao receber a notícia, os pequenos podem apresentar comportamentos como choro constante, revolta e até saírem à procura do falecido. Após essas emoções, Hellen conta que os primeiros sinais da aceitação começam a surgir. “A criança pode apresentar alguns comportamentos diferentes, como ficar mais apática e não falar a respeito do que aconteceu, o que não significa que não esteja pensando sobre o assunto.” 

A maneira como as crianças lidam com a morte também é diretamente influenciada pela forma como a família se comporta diante do luto. Para a autora de A Abelhinha Poli, é preciso ter cuidado para que elas não sofram uma dupla perda, a primeira da pessoa amada e, a segunda, pelo distanciamento afetivo dos adultos. É que, na tentativa de proteger as crianças, muitas vezes o adulto age como se nada tivesse ocorrido, mas se esquecem que a perda existe e, “do mesmo modo que o adulto sente essa dor, a criança também sente”, acrescenta Hellen.

Para a estudante de Psicologia, a única diferença entre a trajetória de superação das crianças e dos adultos é a maturidade para entender a dor e ressignificá-la. Diz ser justamente esse o papel das famílias no luto infantil, pois “a criança precisa de ajuda e a função do adulto é auxiliar nesse desenvolvimento emocional”. 

Como falar sobre a morte com as crianças? 

Hellen afirma que a melhor forma de falar sobre a morte com a criança é falar a verdade. O uso de metáforas, dizendo que a pessoa morta está apenas dormindo, ou viajando, apesar de parecer eficiente, “não fica claro o bastante para o entendimento infantil e pode abrir precedentes para que a morte não seja compreendida de fato pela criança”.

Outro fato apontado pela estudante de Psicologia é que as metáforas também causam consequências físicas e emocionais. Por exemplo, associar a morte ao adormecer pode provocar na criança a disforia do sono, fazendo com que tenha medo de dormir e morrer também. Da mesma forma, afirma, dizer que a pessoa amada partiu para uma longa viagem pode despertar o sentimento de abandono, pois “se é uma pessoa que a criança amava, alguém que ela gostava tanto, porque não se despediu? Por que foi embora? Ela pode ficar esperando esse alguém voltar e ele nunca mais vai voltar”. 

Foto: Reprodução

É por isso que, para a professora Érika Arantes de Oliveira Cardoso, coordenadora do Lute, o diálogo deve ser aberto e sincero. A professora diz que esse é um tema de interesse das crianças e que, embora muitos adultos não se sintam preparados para esse assunto,independentemente da faixa etária, as perdas fazem parte da vida e podem acontecer a qualquer momento, portanto, fica mais fácil pensar e compreender esses eventos se isso já tiver sido conversado”. 

E é a proposta do coletivo Lute, afirma Érika, abrir espaço para diálogo a respeito da morte. O objetivo, continua a professora, é quebrar uma parte dessa cultura que propõe pensar na terminalidade apenas quando ela acontece, “a nossa proposta é deixar essa temática o mais naturalizada possível para que o medo vá perdendo forças e esse evento fique cada vez menos ameaçador na medida em que se faz mais conhecido”. 

Ouça no player abaixo a entrevista completa com a estudante Hellen Cristina Ramos Queiroz e a professora Érika Arantes de Oliveira Cardoso ao Jornal da USP no Ar – Edição Regional

Mais informações: hellenramos@usp.br 


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