Laboratório da USP é premiado por descobrir relação entre inflamações e tumores

Alteração, provocada pelo sistema imunológico ao defender organismo da sepse, tem efeito duplo e contraditório, prevenindo um câncer inicial e estimulando um avançado

Foto: Divulgação/CRID

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O câncer continua a desafiar a ciência, mas os pesquisadores persistem. O investimento retorna através de informação para curar ou melhorar tratamentos. É o que acontece agora com a equipe liderada pelo professor Fernando de Queiroz Cunha da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP que acaba de receber o prêmio Octávio Frias de Oliveira, conferido pelo principal hospital de câncer do País, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), ao melhor trabalho de pesquisa em oncologia de 2020.

Este não é o primeiro reconhecimento com esta premiação. Na edição de 2019, outro orientado do professor Cunha esteve entre os três finalistas. Todos os dois estudos, investigando a relação entre doenças inflamatórias e os tumores nos laboratórios do Centro de Pesquisa de Doenças Inflamatórias (CRID), um dos Cepids Fapesp – Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Caio Abner Leite – Arquivo pessoal/USP

O premiado deste ano, o médico Caio Abner Leite, identificou um efeito duplo e contraditório, desencadeado pelo sistema imunológico após uma septicemia, no desenvolvimento do câncer. Segundo o pesquisador, o estado pode “prevenir um câncer em estágio inicial e, por outro lado, estimular o aumento de tumores avançados”. Leite conta que, diante da complexa relação entre o sistema imunológico e o câncer, a descoberta de uma alteração capaz de prevenir a formação de tumores “pode servir como base para diversos tipos de abordagens terapêuticas”. Estas respostas imunológicas pós-sepse fazem parte da tese de doutorado de Leite e estão publicadas no Journal for Immunotherapy of Cancer.

A pesquisa finalista do prêmio no ano passado foi realizada por Carlos Wagner de Souza Wanderley, também para sua tese de doutorado, investigando a forma como o paclitaxel, uma droga antineoplásica, atua no organismo contra o câncer. Como resultado, verificou que o medicamento não só mata as células tumorais como estimula o sistema imunológico. Os resultados estão na edição de outubro de 2018 da revista Cancer Research.

Colaboração científica multiplica conhecimento

Em comum, além de terem o professor Cunha como co-orientador de seus estudos, Leite e Wanderley foram alunos da Universidade Federal do Ceará (UFC). Os pesquisadores realizaram integralmente suas pesquisas na FMRP pela colaboração de pesquisa existente há mais de 15 anos entre os laboratórios do professor da USP e os do professor Ronaldo Ribeiro (falecido em 2015), também farmacologista, mas especialista em oncologia, da Faculdade de Medicina da UFC.

Professor Fernando de Queiroz Cunha – Foto: Arquivo pessoal/USP

Segundo Cunha, dessa colaboração resultou 60 artigos científicos publicados em revistas indexadas, com “importantes contribuições para entender os efeitos colaterais dos antineoplásicos, com a visão de que essas drogas causam um processo inflamatório”. Através das pesquisas, o professor conta que colaborou na formação de “mais de 15 mestres e doutores orientados pelo professor Ribeiro e que realizaram parte de seus trabalhos aqui na FMRP”. Com a morte do professor Ribeiro, quatro desses pesquisadores realizaram integralmente seus experimentos em Ribeirão Preto.

A felicidade de ter sido contemplado na premiação do ICESP é reconhecida pelo professor como “fruto de um processo que se desenvolve há mais de 15 anos de colaboração e mostra como ela é importante. Quando colaboramos com um grupo importante, não somamos, multiplicamos a produção do conhecimento”.

Já o pesquisador Leite credita parte importante de seu desenvolvimento pessoal e profissional ao grupo de pesquisa liderado pelo professor Cunha. Segundo Leite, porque “conta com uma rede de cientistas nacionais e internacionais”, além do fato do professor Cunha cultuar a valorização de pequenos centros brasileiros, o que é “imprescindível para o crescimento da pesquisa nacional”.

Potencial terapêutico para câncer de ovário

Além do CRID, outro Cepid Fapesp coordenado pela FMRP, o Centro de Terapia Celular (CTC) teve um de seus principais pesquisadores entre os finalistas do prêmio Octávio Frias de Oliveira. Foi o professor do departamento de genética da FMRP Wilson da Silva Jr com o estudo que identificou uma pequena molécula de RNA capaz de bloquear o processo de metástase e reduzir o tumor de ovário. Os resultados estão publicados na edição de julho de 2019 da revista Cancer Research. Mais sobre o estudo e o prêmio, na Agência Fapesp.

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