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Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa possui seu nome no Museu do Holocausto, em Israel – Foto: Reprodução / Arqshoah / LEER-USP

Instituto da USP guarda parte da história de Aracy de Carvalho

Brasileira que ajudou judeus durante a Segunda Guerra Mundial inspirou produção televisiva; acervo da USP fez parte da pesquisa que inspirou série de TV

 14/01/2022 - Publicado há 7 meses  Atualizado: 22/03/2022 as 9:22

Crisley Santana

Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa (1908-2011) foi uma brasileira reconhecida como “Justa Entre as Nações”. O título é dado por Israel por pessoas que se arriscaram a ajudar judeus durante a Segunda Guerra, mesmo sem partilhar da mesma religião, como é o caso de Aracy.

Parte dos arquivos que compõem a trajetória dela estão disponíveis para pesquisa no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, em São Paulo. São mais de 5.900 documentos documentos, incluindo cartões postais, correspondências e fotografias que exploram a vida pessoal e profissional da brasileira, como sua relação com o escritor e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967), que foi marido de Aracy após conhecê-la no consulado de Hamburgo, na Alemanha.

Foi desse consulado que a brasileira ajudou a emitir vistos para judeus que buscavam fugir da política nazista durante a Guerra, como conta Mônica Schpun, Pesquisadora do Centro de Pesquisas do Brasil Contemporâneo (CRBC) da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris (EHESS), na França.

Ela usou o acervo do IEB em sua pesquisa que resultou no livro Justa. Aracy de Carvalho e o resgate de judeus: trocando a Alemanha nazista pelo Brasil, publicado em 2011. 

“Os arquivos do IEB são arquivos pessoais dela. O que eu consultei foram principalmente algumas cartas que ela trocou no período que ela esteve em Hamburgo com a mãe dela e algumas com outros correspondentes. Também alguns cartões postais”, relatou a pesquisadora. 

Acervo da USP fez parte da pesquisa de Mônica Schpun, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, na França. Foto: Arquivo pessoal.

Cartas a Aracy

Além do IEB, Mônica pesquisou em acervos do Arquivo Nacional e na Alemanha, onde teve acesso a documentos de pessoas que foram diretamente ajudadas por Aracy. Além de contar essa história, o livro de Mônica faz um fio condutor entre a amizade da brasileira com a alemã Margareth Levy (1908-2011).

“A amizade delas construiu o fio condutor desse meu livro porque elas eram duas mulheres que vinham de meios, que tinham bagagens totalmente diferentes e que nunca teriam nem se encontrado, e muito menos ficado amigas, se não fosse esse contexto. Ela [Margareth] foi a pessoa que mais se mobilizou para o título de Justa da Aracy”, contou Mônica.

A pesquisadora explicou que para o recebimento desse título, dois judeus diretamente ajudados precisam escrever um depoimento. No caso de Aracy, além de Margareth, o alemão Günter Heilborn, que veio para o Brasil com a esposa usando um visto emitido no consulado de Hamburgo, também relatou os esforços da brasileira para salvar judeus.

Uma carta de agradecimento a Aracy escrita por um membro da comunidade judaica na Alemanha que dirigia um escritório de emigração de judeus também constitui, para a pesquisadora, uma das mais importantes provas do trabalho realizado pela brasileira no consulado. Apesar de não deixar claro, a carta deixa indícios que pessoas foram enviadas ao consulado para serem ajudadas por Aracy.

“A carta agradecendo a Aracy eu considero que é a peça chave do dossiê de Justa. Eu pude ler essa longa carta e foi feita por uma pessoa que estava vivendo um período muito complicado. Eu não acho que ele tinha tempo a perder para sentar na máquina de escrever para fazer uma carta que não fosse realmente útil. Provavelmente esse senhor estava mandando gente para ser ajudada por ela”, disse Mônica.

A obra escrita por Mônica Schpun foi adaptada pela série Passaporte para Liberdade, produção da Rede Globo em parceria com a Sony Pictures Television, na qual, como o livro, explora a trajetória de Aracy de Carvalho durante a Guerra. “É importante para fazer conhecer essa história para um um público muito maior”, comentou a pesquisadora.

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