Iniciativa da USP busca tornar a matemática mais atrativa para a escola pública

Disciplina do IME ganha prêmio Rubens Murillo Marques, da Fundação Carlos Chagas, por atuar na formação de professores do ensino básico

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Professoras Barbara Coromina Valério e Daniela Mariz Silva Vieira, do IME, responsáveis pela disciplina Projetos de Estágio, que recebeu o prêmio Prof. Rubens Murillo Marques – Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

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Há quem diga que a melhor maneira de aprender algo é praticar. Mas, para aprender a ensinar, é importante entender as necessidades dos alunos. A disciplina Projetos em Estágio, do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, em São Paulo, adota essa premissa e inova na maneira com que o estágio do curso de Licenciatura em Matemática é organizado. O objetivo é criar um projeto de ensino para a educação básica com base em atividades não tradicionais, como uso de jogos e questões de resolução de problemas.

Em vez de simplesmente observarem aulas, os estudantes da graduação se reúnem com professores da educação básica da escola parceira e docentes e educadores do IME para elaborar, executar e discutir maneiras de tornar os conteúdos mais interessantes aos alunos da educação básica. Dessa maneira, pensam em métodos mais eficazes de ensino.

A participação de professores da educação básica fornece bagagem quanto às necessidades das escolas que diferem do contexto universitário. “Esses professores trazem uma realidade diária que a Universidade não tem acesso”, explica a professora do IME e responsável pela disciplina Barbara Corominas Valério.

O diálogo entre a Universidade e a escola de educação básica traz consequências positivas tanto para os estudantes de licenciatura, quanto para os professores da educação básica, que participam da disciplina como um curso de extensão.

“Notamos uma diferença no nível de compreensão, aprendizado e reflexão de ambas as partes: os alunos, ao lecionar pela primeira vez, e os professores das escolas que têm a oportunidade de voltar para a Universidade”, conta a professora do IME Daniela Mariz Silva Vieira.

Com as discussões estimuladas durante a disciplina, os estudantes da licenciatura percebem a importância do planejamento na hora de ensinar e aprendem a abordar conteúdos de modo mais didático.“Não basta saber o conteúdo para ensinar. É preciso organizar pensamento”, enfatiza Barbara. Inclusive, muitos estudantes afirmam que é mais difícil ensinar conteúdos elementares, do que os mais complexos.

Como funciona

A disciplina é anual, com duração de dois semestres, a ser realizada no fim da graduação, momento em que os estudantes da licenciatura em Matemática já viram grande parte da bagagem teórica necessária para pensar em formas de ensinar. Todo ano, são formados cerca de sete grupos com aproximadamente cinco estudantes. Cada grupo fica responsável por um tema de matemática para ensinar os alunos do ensino básico, que podem ser desde o primeiro ano do fundamental até o terceiro ano do ensino médio.

Os professores das escolas contribuem com sua experiência na sala de aula. Eles ficam sabendo da oportunidade através do Centro de Aperfeiçoamento de Ensino em Matemática (CAEM), do IME, ou da comunicação informal entre colegas que já participaram da experiência em anos anteriores. Esses professores assistem às mesmas aulas da disciplina Projetos de Estágio que os estudantes da licenciatura em Matemática e, ao término do período, recebem um certificado homologado pela Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Professores do Estado de São Paulo (EFAP), servindo como pontuação para a carreira.
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Instituto de Matemática e Estatística da USP, em São Paulo – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Os docentes do IME, responsáveis pela disciplina Projetos de Estágio, são encarregados de fornecer conteúdo, materiais e metas a cada duas semanas para que os estudantes e professores da escola básica coloquem em prática no projeto. As aulas ocorrem de 15 em 15 dias e, entre uma semana e outra, há plantões de atendimento.

A disciplina conta com o apoio de três educadores, um funcionário do instituto e outros dois que são bolsistas do Programa de Formação de Professores da USP. Os bolsistas são responsáveis por fazer o meio de campo comunicativo entre os docentes  do IME, os grupos de estudantes e os professores da escola básica, e ainda acompanham o estágio dos universitários.

O estágio sempre foi obrigatório para a formação de licenciatura em Matemática, mas antes era supervisionado apenas pela Faculdade de Educação (FE) da USP. A partir de 2002, a maneira como as horas de estágio foram divididas mudou e, assim, 100 das 400 horas passaram a ser de responsabilidade do IME. 

Impacto social

“Desde alunos de seis anos, do primeiro do ensino fundamental, até estudantes do ensino médio. Em cada idade, vemos um retorno positivo: os pequenos abraçando, os maiores criando coragem em prestar vestibular aqui para a USP”, diz Daniela.

Segundo a professora Barbara, não há análises aprofundadas de quais são os impactos sociais da disciplina, mas ela destaca que é perceptível, por meio de feedbacks positivos daqueles que participam da experiência. “Há relatos de professores da educação básica que inovaram nas práticas em sala de aula e também de aluninhos que passaram a frequentar mais as aulas”, afirma Barbara.

Apesar de não constar como regra, a disciplina sempre foi aplicada em escolas da rede pública. “Tem muitos aluninhos que não sabem que a USP é pública, acham que deve ser cara e que não é local para eles. E o projeto faz com que, muito localmente, certas imagens erradas sejam apagadas”, completa Daniela.

Prêmio Professor Rubens Murillo Marques

Prêmio Prof. Rubens Murillo Marques/Fundação Carlos Chagas recebido pelas professoras do IME Barbara Coromina Valério e Daniela Marez Silva – Foto Cecília Bastos/USP Imagem

O trabalho da disciplina Projetos Estágios foi reconhecido em 2018, conquistando o primeiro lugar do prêmio Professor Rubens Murillo Marques, uma iniciativa da Fundação Carlos Chagas.

Criado em 2011, ele valoriza e divulga experiências educativas, propostas e realizadas por docentes dos cursos de Licenciatura na formação de professores para a educação básica.

“Foi uma surpresa muito grande, não imaginavámos que ganharíamos logo na  primeira vez que nos inscrevemos”, conta Daniela.

Barbara pontua que “é mais do que ganhar um prêmio, é divulgar essa iniciativa que acreditamos estar fazendo algo de diferente.”

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