IEA e Ipea iniciam parceria para estudos sobre desenvolvimento, inovação e relações internacionais

Acordo de Cooperação Técnica formaliza as relações entre as duas instituições, uma vez que a colaboração individual de pesquisadores das duas partes já é frequente em diversas atividades

 Publicado: 23/11/2021  Atualizado: 25/11/2021 as 15:02

A partir de agora, o IEA e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) atuarão em parceria na produção de estudos sobre a relação entre estratégias de desenvolvimento, políticas de inovação e relações internacionais. A colaboração foi estabelecida em Acordo de Cooperação Técnica firmado entre a USP e o Ipea no dia 18 de novembro.

Trata-se de um mecanismo de formalização das relações entre as duas instituições, uma vez que há muito tempo é frequente a colaboração individual de pesquisadores das duas partes em diversas atividades, como destacaram participantes da solenidade de assinatura do documento.

De acordo com a justificativa que embasou a proposta, “a dinâmica dos processos de desenvolvimento econômico e social das sociedades de mercado contemporâneas, inseridas na lógica das estruturas produtivas globais, demanda o contínuo estímulo e facilitação dos sistemas nacionais de inovação, nos seus mais amplos escopos”.

Esse estímulo requer um trabalho multidisciplinar que utilize “instrumentos científicos – preponderantemente os ligados à ciência econômica – relacionados com as teorias do desenvolvimento, da inovação e do emprego de técnicas de mensuração estatística e econométrica”, explica a proposta.

Convergência de objetivos

Considerados esses requisitos, as partes do acordo identificaram uma complementaridade entre os objetivos do IEA, “unidade de cunho transversal da USP, apta a acionar e a coordenar equipes de especialistas de variadas formações”, e o Ipea, órgão ligado ao Ministério da Economia “com longo e extenso repertório de atuação nos campos de saber mencionados, com foco nas aplicações práticas dos resultados de seus estudos”.

Entre os temas de estudos abrangidos pelo acordo estão:

• relações internacionais;
• geopolítica;
• defesa e segurança nacional;
• desenvolvimento (principalmente desenvolvimento econômico e sustentabilidade social);
• planejamento a longo prazo;
• ciência, tecnologia e inovação (em particular em sua relação com a defesa e a segurança nacional);
• manejo ambiental, gerenciamento ecológico e mudanças climáticas, com ênfase em práticas conservacionistas dos biomas típicos nacionais;
• políticas públicas comparadas;
• estratégia nacional e temas estratégicos.

O cronograma inicial dos trabalhos prevê a produção e publicação de três relatórios ou artigos científicos (um a cada 20 meses) e 15 eventos (três por ano).

O acordo tem duração de cinco anos, passíveis de prorrogação, no caso de interesse das duas instituições. Pelo IEA, a coordenação será de seu diretor, Guilherme Ary Plonski, como titular, e da vice-diretora do instituto, Roseli de Deus Lopes, como vice-coordenadora. Os coordenadores pelo Ipea serão designados por sua Diretoria de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Dinte).

Além da solenidade de assinatura, o evento do dia 18 apresentou a primeira atividade conjunta no âmbito do acordo: a produção do número 28 da revista Tempo do Mundo, publicação quadrimestral da Dinte. O tema da edição (com lançamento previsto para abril de 2022) será Os Desafios Internacionais das Políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação. Os organizadores do número são Plonski e o coordenador-geral do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (Gacint) do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, Alberto Pfeifer.

Solenidade

O reitor da USP, Vahan Agopyan, saudou a celebração do acordo em mensagem gravada para a cerimônia de assinatura: “Estamos formalizando o relacionamento. Mesmo tendo no passado professores da USP dirigindo o Ipea, numa tivemos um acordo oficial”.

Para ele, o fato de o IEA ser “uma unidade especial, um centro de discussão”, possibilita que seja um instrumento de relacionamento de toda a USP com o Ipea. Afirmou que a ideia de que políticas públicas têm de ser alicerçadas em boa ciência constitui um dos pontos de convergência das visões do Ipea e da Universidade.

Segundo Vahan Agopyan, além da produção e transmissão de conhecimento, uma das características das universidades neste século é a “preocupação em sugerir políticas públicas, que podem ou não ser aceitas pelos políticos”.

O presidente do Ipea, Carlos von Doellinger, também disse que o objetivo principal do acordo “é preencher uma lacuna, pois, embora convivendo no mundo acadêmico, com muitos trabalhos, havia pouca interlocução efetiva” entre as duas instituições. Ele ressaltou que o Ipea não se dedica apenas à produção acadêmica, preocupando-se com a aplicação dos resultados nas várias dimensões sociais e institucionais abrangidas pelas suas diretorias.

Plonski também preferiu utilizar o termo formalização, pois as duas instituições já vêm colaborando há alguns meses num trabalho sobre CT&I voltada à defesa e à segurança nacional. Ele afirmou que a proposta de tema para a edição 28 da revista Tempo do Mundo remonta a uma disciplina do Programa de Pós-Graduação em Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP em parceria com o IRI.

De acordo com Plonski, o tema do número 28 da revista também dialoga com a temática da Escola São Paulo de Ciência Avançada em Diplomacia da Ciência e da Tecnologia (InnSciD), uma iniciativa sediada no IRI com parceria do IEA e apoio da Fapesp.

O diretor do IEA também citou evento organizado pelo instituto com os autores da edição 25 de Tempo do Mundo, que tratou das perspectivas de ingresso do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). “Um dos espaços de cooperação entre o IEA e o Ipea é o relacionamento com a OCDE”, afirmou.

Revista Tempo do Mundo

Na abertura do seminário sobre a temática do número 28 de Tempo do Mundo, o editor da revista, Pedro Silva Barros, apresentou a publicação como um canal de diálogo entre formuladores e executores de políticas públicas e a academia.

Os expositores do seminário foram: Janina Onuki, diretora do IRI e participante da próxima edição do Programa Ano Sabático do IEA; Carlos Henrique Brito Cruz, vice-presidente sênior de Redes de Pesquisa da Editora Elsevier, do Reino Unido, ex-presidente da Fapesp e ex-reitor da Unicamp; e o coordenador-geral do Gacint, Alberto Pfeifer.

Para Janina, vem em boa hora a discussão sobre a dimensão internacional da CT&I que será feita na revista, e “nada mais adequado que isso aconteça com a participação do IEA, um polo de atração de pesquisadores e de inovação do ponto de vista da discussão das novas políticas e dos temas internacionais”.

Ela destacou três aspectos presentes na lista de temas propostos para a revista. O primeiro deles é a utilização da CT&I como recurso de poder nas relações internacionais, no âmbito das iniciativas chamadas de soft power. Janina Onuki afirmou que os países desenvolvidos têm as questões de CT&I incorporadas à agenda de suas políticas externas, ao passo que nos países em desenvolvimento isso ocorre em menor escala, com dificuldades de ordem burocrática e para a elaboração de uma estratégia.

O segundo tópico se refere ao papel que as instituições acadêmicas têm na produção de políticas públicas, “algo o relacionado com o acordo ora assinado entre a USP e o Ipea”, acrescentou. “A USP tem se preocupado muito nos últimos anos em produzir pesquisas direcionadas às necessidades da sociedade e em apoiar políticas públicas globais de grande importância”, disse. Ela citou, como exemplos, a InnSciD, citada anteriormente por Plonski, e investimentos complementares em pesquisas em áreas estratégicas, como recente edital da universidades para pesquisas nessas áreas.

O último destaque mencionado por Janina é a abordagem de gênero nos acordos de cooperação internacional, tema de sua pesquisa no IEA no próximo ano, no Programa Ano Sabático. “Essa questão da participação das mulheres em instituições internacionais de CT&I tem-se tornado cada vez mais importante. Os convênios internacionais coordenados pela União Europeia têm destacado a importância disso nos acordos de cooperação”, afirmou.

Esforço adicional

Brito Cruz, que também é conselheiro do IEA, disse considerar o tema escolhido para a edição “extremamente oportuno, dado o ressurgimento de nacionalismos em várias partes, o que coloca em xeque as iniciativas de cooperação internacional”. No entanto, considera que o Brasil precisa fazer um esforço adicional: “O País precisa ter maior clareza sobre o porquê e como vai explorar a dimensão internacional de sua política de CT&I”. Para ele, uma parte dos esforços de exploração dessa política tem a ver com as dimensões atuais do soft power citado por Janina.

Outro lado desse esforço é o País montar uma estratégia na qual a colaboração internacional em pesquisa “ajude mais do que tem ajudado o sistema brasileiro de CT&I”, afirmou. “Precisamos assumir que CT&I é um ato social, não individual, onde a comunicação e ouvir boas ideias ajuda a avançar mais depressa. E aí há uma questão demográfica: o Brasil tem 220 milhões de habitantes e a população mundial é de 8 bilhões, sendo muito maior a chance de uma ideia boa vir do exterior.”

Outro erro que ele vê na política brasileira de CT&I – “vivi muito isso na Fapesp” – é a concepção de que “eles sabem tudo e não sabemos nada”. Para Brito Cruz, essa postura nunca vai dar certo, pois “montar uma colaboração requer um fluxo de duas vias. Os estrangeiros vão colaborar com os brasileiros se acharem que os brasileiros têm uma contribuição para os trabalhos que pretendem realizar”.

Segundo ele, dados de 2010 indicam que apenas 23% dos artigos com brasileiros entre seus autores tinham a participação de pesquisadores do exterior. No mesmo período, o índice argentino era de 45% e o dos países europeus eram sempre acima de 50%. Em 2010, houve melhora, afirmou, com São Paulo atingindo quase 40% de colaborações internacionais nos artigos e outros Estados com crescimento menor, caso do Rio de Janeiro com 35% e de Minas Gerais com 29%.

Brito Cruz citou várias outras mudanças necessárias, como aumentar a ambição internacional das startups brasileiras. “Precisamos ter empresas emergentes que queiram ser grandes empresas no mundo, não apenas em Campinas, Belo Horizonte ou Botucatu.”

Defendeu também que a colaboração de brasileiros com estrangeiros não seja pautada pela “exportação de pesquisadores”, mas sim pela partilha do trabalho, “um pedaço feito no Brasil e outro no exterior”. Em relação ao fluxo de pessoas, considera que o País precisa atrair mais pesquisadores e estudantes estrangeiros.

Com vistas à elaboração de estratégias, Brito Cruz disse que o País precisa de uma política de CT&I que não seja apenas federal, dedicada às universidades e institutos federais, mas sim nacional e que leve em consideração a vitalidade presente nos Estados.

Conflitos

Pfeifer, coordenador do nº 28 de Tempo do Mundo, ao lado de Plonski, afirmou que as relações internacionais “são um objeto múltiplo, cuja força principal é o poder, que dá conformação às relações entre os atores”. Para ele, ao falar da dimensão internacional de políticas de CT&I deve-se considerar que não se trata apenas de cooperação internacional, mas também de conflito e guerra. “É importante acompanhar os conflitos internacionais e a disputa por hegemonia em CT&I. Guerras são resolvidas quando há um avanço tecnológico, como demonstrou a bomba atômica.”

“No mundo contemporâneo, o pensamento geopolítico deve avaliar melhor as potencialidades de países que são periféricos em certas hierarquias, mas podem ser lideranças em outras, como o Brasil na área ambiental e de recursos naturais num momento em que essas pautas ganham relevância”, afirmou.

Ele lembrou comentário do filósofo e sociólogo francês Raymond Aron (1905-1983) de que o soberano precisa ter dois braços estendidos: o do soldado e o do diplomata. “Queria propor que fossem incorporados cada vez mais outros dois braços: o do empresário inovador e o do cientista.”

No caso do empresário inovador, disse que pode ser o desenvolvedor de unicórnios (empresas com valor acima de US$ 1 milhão) ou o empreendedor ligado a empresas vinculadas aos governos: “No caso da China, chama atenção o acordo de cooperação entre as empresas ligadas ao Estado e os empreendedores que saem pelo mundo. As estatais auxiliam a ação dos empreendedores privados no exterior”.

Ele exemplificou a importância do cientista como quarto braço estendido pelo soberano com a atuação de naturalistas e missões científicas de vários países europeus no Brasil no século 19: “Eles vinham coletar, descobrir, demarcar e levavam esse conhecimento a seus governantes”.

Para ele, o Brasil tem algo a falar e onde agir no que se refere às mudanças climáticas e ao aquecimento global. “Num mundo de tropicalização crescente, quem domina a ciência tropical leva vantagem. Poucos países dominam doenças tropicais, por exemplo.”

Texto: Mauro Bellesa/Instituto de Estudos Avançados da USP


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