História da física ajuda a valorizar produção de cientistas excluídos

Encontro sobre temática irá ocorrer pela primeira vez na USP, em setembro, reunindo pesquisadores de história da ciência

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Otto Hahn e Lisa Meitner, a física austríaca que explicou o processo de fissão nuclear e por muito tempo foi “apagada” da história da física – Foto: Wikimedia Commons / Domínio Público

Estudar as histórias relacionadas a grandes acontecimentos científicos pode revelar problemas que foram e ainda são resultado de preconceito social. A análise é de Ivã Gurgel, do Instituto de Física (IF) da USP, em São Paulo. O professor trabalha com a história da ciência, principalmente relacionada à física, e está organizando um evento sobre o tema em setembro: o Encontro da História da Física.

Em suas aulas nos cursos de bacharelado e licenciatura em Física, ele busca a reflexão de seus alunos, revelando que não é só na prática que a física se realiza. O professor levanta a discussão de como pesquisadores podem se basear em fatos históricos e reverter apagamentos ocorridos nas páginas dos livros de nomes célebres da ciência.

Um exemplo da exclusão é Lise Meitner, um dos principais nomes da ciência no início do século 20. A física austríaca é a responsável por explicar o processo de fissão nuclear (átomos são quebrados em partes menores), que possibilita a construção de plantas nucleares e bombas atômicas. A descoberta de Lise foi feita a partir de uma ligação entre a equação do físico Albert Einstein (E= mc²) e as reações nucleares.

“As pessoas estavam tentando gerar elementos químicos mais pesados e depois, viu-se que os núcleos partiam em dois. Ela mostrou que as reações nucleares eram regidas sobre aquela equação. Foi algo desafiador porque, quando Einstein fez a equação, ele fez aquilo dentro da Teoria da Relatividade que está falando sobre espaço e tempo”, explica o professor.

Segundo Gurgel, a cientista sofreu um apagamento em sua própria época por seus pares e por quem escreveu a história relacionada à descoberta de Lise. “Recentemente, ela começou a ser recolocada na história da ciência”, destaca Gurgel.

Para evitar esses “desconhecimentos”, a história da física trabalha para que os seus pesquisadores possam ter a capacidade de analisar todas as entrelinhas que os fatos passados possam revelar sobre o conhecimento produzido.

“Penso no físico como um intelectual que consegue transitar sob os temas de ponta e diversas questões relacionadas em como a física se desenvolve. A ciência carrega características que são frutos de diferentes épocas, então conforme o tempo passa, a própria ciência muda. Mas não é tão simples entender o regime de historicidade envolvido na física”, comenta o professor.

Professor do Instituto de Física da USP, Ivã Gurgel é docente da área de história da física – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Para ele, muitos acreditam que a física, por ser uma ciência exata, não necessariamente deveria abordar questões de historicidade. “Parece que a física é só um catálogo de conceitos. E até por isso as pessoas não veem a história da ciência. Mas é algo feito por seres humanos que, dentro das suas limitações e condições sociais, tentam desenvolver projetos que vão compreender a natureza. Quando começamos olhar dessa forma, vemos a dimensão humana da ciência em todos os seus sentidos.”

Cientistas que foram destacados por suas produções e por conta da forma como a história foi tratada, se preocupavam com questões filosóficas e sociais dos conhecimentos exatos. “Nos momentos em que a física passou pelas maiores mudanças — por exemplo, a Teoria da Relatividade, a mecânica quântica — vemos que os principais cientistas que estavam envolvidos tinham preocupações que envolviam muito a filosofia da física, e muitas vezes realizavam discussões sobre a própria história da ciência”, segundo Gurgel.

Encontro de História da Física

O professor é um dos coordenadores do primeiro Encontro de História da Física que vai ocorrer de 2 a 6 setembro, no Instituto de Física, em São Paulo. No evento, as discussões terão várias abordagens a respeito do papel da história da física, indo desde fundamentos teóricos e experimentais até as próprias questões de representatividade na física. As atividades terão palestras, mesas-redondas, minicursos, debates e espaço para a apresentação de trabalhos.

“O evento tenta reunir pessoas que estão em diferentes espaços se dedicando à história da física para debater. E a nossa expectativa é que esse seja o primeiro evento de outros que possam ocorrer em outros lugares”, explica Gurgel.

Com a proposta inicial de ser uma “escola”, o evento quer formar os pesquisadores de uma maneira em que possam trabalhar, futuramente, para analisar e entender as entrelinhas da história, sem cometer o vício de repetir a exclusão de figuras dos nomes célebre de cientistas.

Mais informações: http://portal.if.usp.br/ehf/

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