Filtro dos sonhos ajuda jovens da Fundação Casa a empreender

Projeto de alunos da Escola de Engenharia de Lorena da USP estimula empreendedorismo por meio de oficinas de artesanato

 

 

Filtro dos sonhos comercializado por meio do Instagram do projeto João de Barro – Foto: Reprodução/ Instagram

Filtro dos sonhos, apanhador dos sonhos, caçador dos sonhos. São diferentes os nomes usados para o amuleto ligado à cultura indígena. Segundo a crença, ele é um purificador de energias e traz sabedoria e sorte a quem o possui. A partir da confecção desses filtros, jovens que estão cumprindo medidas socioeducativas na Fundação Casa de Lorena, interior de São Paulo, têm aprendido sobre empreendedorismo.

A iniciativa é organizada por alunos da Escola de Engenharia de Lorena (EEL) da USP. Eles integram a Enactus, uma organização mundial de estudantes que trabalha com empreendedorismo social. O grupo fez parceria com a Fundação Casa para trabalhar com jovens da instituição.

Um desses projetos é o João de Barro, que funciona desde agosto de 2017. Uma vez por semana, os universitários organizam duas oficinas: produção de artesanatos e empreendedorismo. Eles ensinam sobre precificação de produtos, cores, marketing, entre outras informações, além da confecção de filtros dos sonhos a partir de quatro técnicas diferentes. 

“Inicialmente, a ideia era realizar oficinas socioemocionais, juntamente com a aplicação de artesanato. Depois, trabalhamos na confecção de almofadas e, hoje, estamos com o filtro dos sonhos, que é o que mais funciona para os meninos”, comenta Cássia Alves, 20 anos, estudante de Engenharia Química da EEL e uma das líderes do projeto, que conta com outros nove participantes.

Cássia Marcorin Alves é um das líderes do projeto João de Barro, do qual participa desde 2019  – Foto: Arquivo pessoal

As oficinas são organizadas em turmas de 12 a 15 jovens escolhidos pela própria equipe pedagógica da Fundação Casa. Alguns deles, que já realizaram o curso, trabalham como replicadores, auxiliando os demais participantes. 

Os filtros são vendidos pela comissão do projeto a partir do Instagram ou de eventos do Grupo Enactus EEL. Quem tiver interesse, é só entrar em contato pela rede social. Uma parte da renda volta para o próprio projeto para compra de mais material. A outra retorna à fundação para compra de itens para os jovens internos, como bolas de basquete, filtro de água para a quadra etc.

Em tempos de pandemia

Em março, o Estado de São Paulo entrou em isolamento social devido à pandemia de covid-19. Assim, o João de Barro teve que fazer uma pausa. “Mantivemos contato com a Fundação Casa e discutimos a possibilidade de aplicar oficinas on-line. A fundação fechou uma plataforma para isso e estamos esperando a confirmação de uso. Em agosto, vamos começá-las”, conta Cássia.

Nesse tempo de pausa, o grupo manteve a divulgação no Instagram. “Estamos produzindo conteúdos para desmistificar a ideia que se tem dos meninos. Muita gente tem preconceito com a Fundação Casa, então trabalhamos conteúdos nesse sentido, além de expor os filtros do sonho para vendê-los.”

Oportunidade de emprego

O grupo Enactus EEL já tem planos para novas ações com jovens da Fundação Casa de Lorena, como o Canário: oficinas de barbearia com empreendedorismo. A ideia surgiu em 2019, a partir do João de Barro e do contato com um juiz da cidade. “Ele queria fazer um projeto voltado à vida dos meninos após a passagem pela fundação”, conta Adriele Braga, 24 anos, estudante de Engenharia Química da EEL e líder do projeto.

Ela ressalta um fator diferencial da ação: oferecer oportunidade de emprego após a passagem pela fundação. “Selecionaremos meninos que estão próximos de sair, assim eles irão para uma barbearia, recebendo um estágio remunerado. O juiz liberou uma verba para o projeto voltado para a compra dos materiais a serem usados nas barbearias e para pagar a bolsa para os meninos.”

Adriele Braga é a líder do projeto Canário, ela participa do Enactus desde 2018 – Foto: Arquivo pessoal

A ideia da barbearia veio de uma demanda dos próprios internos. Uma parceria foi fechada com cinco barbeiros da cidade de Guaratinguetá, vizinha a Lorena. “Eles ensinam a parte prática e nós organizamos oficinas de empreendedorismo. Passados três meses, os meninos terão um estágio remunerado dentro da barbearia, no qual conseguirão colocar em prática tudo aquilo que ensinamos.” 

O Canário terá duração total de seis meses, três dentro da fundação, com as oficinas empreendedoras e de barbearia, e três com os estágios remunerados. “Conseguimos toda a documentação para liberar o projeto, e iríamos começar sua aplicação no início deste ano, mas veio a pandemia”, diz Adriele.

Agora, a previsão é iniciar o projeto presencialmente em 2021, enquanto isso o grupo pensa alternativas para manter o contato com os jovens. “Estamos planejando fazer alguns vídeos sobre a questão empreendedora e passar a todos da fundação. Também pensamos em fazer vídeos dos barbeiros, contando um pouco sobre como é ter um próprio negócio, dificuldades e superações, para encorajar os meninos”, diz Adriele. 

Além dos dois projetos com a Fundação Casa, o grupo Enactus da EEL, que existe desde 2015, é responsável pelo Biguá, que oferece aulas de robótica em escolas públicas, e o Cigana, com oficinas de panificação, a partir do bagaço de malte, de grande valor nutricional.

O projeto Cigana tem parceria com o Centro de Referência e Assistência Social (CRAS), mas, com a pandemia, teve que pausar as atividades. O grupo não ficou parado e fez  campanha de arrecadação de dinheiro para a compra de kits de higiene. Mais de 800 famílias foram ajudadas.

No caso do projeto Biguá, houve mudanças na grade escolar das escolas e a disciplina de robótica foi descontinuada. Agora, o grupo Enactus está estruturando uma proposta de oferecer a oficina fora das escolas.

 

Para mais informações, acesse:

Enactus EEL-USP

Facebook:  https://www.facebook.com/enactuseel/ 

Instagram: https://www.instagram.com/enactus.eel.usp/?hl=pt-br 

WebSite: http://enactuseelusp.com.br/ 

Linkedin: https://www.linkedin.com/company/enactus-eel-usp/

Ouça no player abaixo entrevista de Cássia Marcorin Alves para o Jornal da USP no Ar, Edição Regional.

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