Literatura de Milton Hatoum une ensino público e privado em projeto na USP

Iniciativa de Phablo Fachin, da FFLCH, e professoras do Colégio Palmares conecta realidades a partir de obras literárias

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Depois da atividade com o autor, os alunos se reuniram em grupos para desenvolver projetos sobre as obras – Foto: Divulgação/colégio Palmares

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Imagine ler obras literárias e ter a oportunidade de discuti-las com o próprio escritor. Essa foi a experiência pela qual passaram os alunos do 9º ano do ensino fundamental e do 2º ano do ensino médio do Colégio Palmares, em São Paulo, da Escola Estadual Odulfo de Oliveira Guimarães e da Escola Municipal Milton Marçal Silveira, ambas de Viradouro.

Após a leitura das obras Cinzas do Norte e A noite da espera em suas escolas, eles vieram ao campus Cidade Universitária da USP, na capital paulista, para uma atividade com Milton Hatoum, autor das duas obras.

O encontro, realizado em 20 de setembro, integra o projeto Conectando Realidades por meio da Literatura e foi idealizado pelo professor de Filologia e Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Phablo Fachin, e pelas professoras Julia Kodato e Élida Mantoan, do Colégio Palmares.

“Anos atrás, fizemos uma leitura muito impactante de um livro de Mia Couto em uma Festa Literária Internacional de Paraty [Flip] e começamos a pensar em maneiras para que o aluno visse a literatura da mesma forma”, relembra Phablo.

Júlia conta que a decisão de tirar a iniciativa do papel veio de uma conversa com o diretor do Palmares, Edson D’Addio. “Ele nos perguntou se não estaria na hora de realmente colocarmos em prática a função social da literatura. Entrei em contato com o Phablo para que começássemos a trabalhar nisso. O colégio apoiou completamente.”

A partir daí, foram escolhidas as duas obras a serem trabalhadas: Cinzas do Norte, leitura indicada para quem está no 9º ano, e A noite de espera, para o 2º ano do ensino médio. “As obras estão adequadas à faixa etária dos alunos, são obras de passagem. As personagens estão fechando um ciclo e começando outro. O fato de o [Milton] Hatoum ser muito acessível e gostar de falar com o leitor, principalmente com o leitor jovem, também contou na escolha”, explica Élida.
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Escritor Milton Hatoum, em pé à direita, com professores e alunos durante evento na USP, em São Paulo – Foto: Divulgação/colégio Palmares

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Além disso, complementa Phablo, “ele deixa explícito que entende a literatura como instrumento social e ela só é válida na medida em que exista diálogo entre obra e leitores.”

Ao ser perguntada sobre a importância do projeto, Élida reflete: “enquanto professores, nos sentimos muito responsáveis pela formação do indivíduo que se tornará cidadão. Nós acreditamos que nossa responsabilidade não é só de fazer o aluno se destacar academicamente, mas também o ajudar a se tornar independente, atuante, questionador e reflexivo, e isso, às vezes, não cai no vestibular.”

Encontro na USP

No dia da atividade, os alunos dos três colégios se encontraram na USP para uma palestra com o escritor e foram divididos em grupos para realizar projetos sobre os temas trabalhados. Karen Lyssa Aranki Teraçono, aluna do 2º ano do Colégio Palmares, conta sobre a experiência de trabalhar com pessoas de realidades tão distintas. “Somos muito privilegiados em poder perceber que nem todo mundo tem uma vida como a nossa, isso leva a um pensamento de como eu posso me colocar frente a essa situação.”

Ela destaca também a importância de o encontro ter ocorrido na Universidade. “Nós, do Palmares, estamos muito acostumados com o espaço privado. É diferente estar em um lugar como a USP, que é público, é de todos. Nós temos que zelar por ele, assim como ele zela por nós.”

O projeto continuará em 2019, seguindo o mesmo modelo de seleção de turmas, com alunos do ensino fundamental e médio, de escolas públicas e particulares, mas com uma modificação: o fio condutor do próximo ano será a literatura africana. As atividades estão previstas para serem iniciadas depois do Carnaval.

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