“Murro em Ponta de Faca”, de Augusto Boal, ganha leitura dramática

Peça escrita em 1974 e liberada pela censura em 1978 será lida neste sábado, em São Paulo

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Primeira montagem da peça Murro em Ponta de Faca, de Augusto Boal, pela Companhia de Teatro Othon Bastos, sob a direção de Paulo José, em 1978 – Foto: Instituto Augusto Boal

“Em Portugal, outra vez me senti por demais sozinho – escrevi peça em que me via de longe: Murro em Ponta de Faca. Olhava distante, na bruma. Sentia o vento e o frio da viagem sem fim. Peça circular, nela não sou ninguém: sou todos, sou a que se mata e sou os sobreviventes. Exílio é meia morte, como prisão é meia vida”, disse o diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta brasileiro Augusto Boal, sobre o texto escrito em 1974, quando estava exilado em Portugal, no contexto da ditadura militar. A leitura dramática da peça será apresentada neste sábado, dia 14 de setembro, a partir das 14h30, no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc, em São Paulo. O evento faz parte do projeto Liberdade em Cena.

Promovido pelo Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (Obcom) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, em parceria com o CPF, o projeto vem apresentando leituras dramáticas de peças que fazem parte do Arquivo Miroel Silveira – um acervo de 6 mil documentos censurados pelo Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo entre 1930 e 1970. Segundo a coordenadora do Obcom, professora Maria Cristina Castilho Costa, da ECA, o projeto teve início em 2015 e fez a apresentação de 14 peças. “Algumas delas não tinham sido apresentadas”, ressalta a professora.

A parceria deu tão certo que, com público já formado, o Sesc convidou o Obcom para apresentar um novo projeto em 2019. Foram selecionadas 12 peças e a penúltima, Murro em Ponta de Faca, de Augusto Boal, será apresentada neste sábado. A última, Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra, será lida em novembro. O mote deste ano, segundo a coordenadora, não foram as peças proibidas, e sim as que tiveram embates com a censura, mas que depois foram liberadas.

São todas peças de cunho político, advindas do teatro social. Nome importante do Teatro do Oprimido, Augusto Boal comparece com sua postura típica de fazer um teatro político, de denúncia e crítica, como ressalta Maria Cristina. Segundo ela, é muito oportuno reapresentá-la agora em um momento em que a cultura está sendo questionada pelo governo, tanto na esfera estadual quanto federal.

Cartaz da peça, escrita em 1974 e só liberada em 1978, a que Augusto Boal não assistiu porque estava exilado em Portugal – Foto: Instituto Augusto Boal

A montagem

Liberada pela censura quatro anos após ter sido escrita, Murro em Ponta de Faca teve sua primeira montagem em 1978 pela Companhia de Teatro Othon Bastos, sob a direção de Paulo José, no Teatro de Arte Israelita Brasileiro (Taib), em São Paulo. Boal, exilado na época, não chegou a ver sua peça montada no Brasil. Com músicas de Chico Buarque na trilha sonora, a peça conta a vida de seis exilados políticos brasileiros em suas trajetórias pelo Chile, Argentina e França.

Anos depois, quando remontou a obra em 2011, Paulo José comentou sua experiência: “Em 1978 eu havia dirigido a primeira montagem de Murro em Ponta de Faca, a peça mais pessoal de Augusto Boal, escrita durante seus anos de exílio. Uma peça emocionante, especialmente para nós, seus filhos/irmãos, que pudemos ter em mãos um documento precioso, mais do que uma peça teatral, um testemunho vivo de um exilado, mudando mais de país do que de sapatos, depois de prisão e torturas no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) da Oban (Operação Bandeirante), em São Paulo. A montagem de 78, que tinha produção de Othon Bastos, pretendia chamar a atenção sobre Boal, reforçando o movimento pró-anistia. Infelizmente, quando Boal voltou ao Brasil, a peça já havia saído de cartaz.”

Cena da peça Murro em Ponta de Faca, drama de seis exilados políticos brasileiros – Foto: Instituto Augusto Boal

Em 1979, o próprio Augusto Boal levou o texto para ser encenado na França, com o título Coup de Poing Sur La Pointe Du Couteau, no Théâtre Présent (atual Théâtre Paris-Villette). Nos primeiros anos da década de 80 a peça rodou, também, por cidades da Áustria e da Alemanha, e o texto foi traduzido para o alemão por Henry Thorau e Peter Uber.

A leitura dramática, sob a direção de Roberto Ascar e com consultoria dramatúrgica de Renata Pallottini, traz no elenco Carlos Palma, Carol Cashie, Fabio Acorsi, Leandro Lago, Litta Mogoff e Maira Helen. Após a apresentação, acontece um debate com o jornalista Florestan Fernandes Júnior e o encenador, músico e professor da USP José Batista Dal Farra Martins, apresentando, segundo a coordenadora, duas visões, “uma mais acadêmica e científica e outra mais crítica”.

A professora Maria Cristina lembra a importância de reapresentar peças que transformaram o teatro brasileiro e que não são vistas atualmente nos palcos por conter um grande número de personagens. “Isso se torna possível através das leituras dramáticas, mostrando que temos a tradição de um teatro engajado e em defesa da liberdade de expressão, que tem sido a grande tônica do projeto”, conclui.

A leitura dramática de Murro em Ponta de Faca, de Augusto Boal, acontece neste sábado, dia 14 de setembro, das 14h30 às 17h30, no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc (Rua Dr. Plínio Barreto, 285, 4º andar, Bela Vista, em São Paulo). As inscrições são gratuitas e devem ser feitas neste link ou pelo telefone (11) 3254-5600.//

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