Especialistas debatem as mudanças necessárias nas universidades do País

Em encontro na USP, pesquisadores discutiram desafios das instituições

Por - Editorias: Universidade - URL Curta: jornal.usp.br/?p=201621
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Detalhe da torre da Praça do Relógio, na Cidade Universitária. Encontro foi organizado pelo grupo A USP Diante dos Desafios do Século 21 – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Ouvir a sociedade e procurar atender às suas demandas, internacionalizar-se efetivamente – não só com intercâmbio de estudantes -, redução e flexibilização curricular, desburocratização, buscas de novas fontes de recursos, atingir a todos que queiram ter formação superior, contar com modelos diferenciados. Esses são alguns dos principais desafios da universidade brasileira diante do ritmo cada vez mais acelerado das transformações sociais e na produção de conhecimento.

Mais que desafios, essas questões talvez sejam imperativos para a universidade continuar a desempenhar o papel de principal agente de produção de conhecimento e formação de cientistas e profissionais.

Luiz Bevilacqua, professor visitante do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e ex-reitor da Universidade Federal do ABC (UFABC), costuma usar uma metáfora esportiva para definir as exigências do momento. “Uma onda que quebra na praia é uma onda de choque. As transformações no mundo e no conhecimento estão produzindo uma onda de choque para a universidade e numa onda dessas não adianta nadar: é preciso surfar, e para isso a universidade tem de escolher a prancha mais adequada.”

Bevilacqua e Naomar de Almeida Filho, ex-reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), apresentaram no dia 10 de outubro, durante o encontro A USP diante do Espelho, propostas sobre o que deve ser feito para essa onda ser surfada a contento. Os dois integram o Grupo de Trabalho A USP diante dos Desafios do Século 21, que produziu o documento USP: Propostas de Agenda para o Futuro, lançado no evento.

Painel sobre transformações do ensino superior com Naomar de Almeida Filho, Luiz Bevilacqua, Soraya Smaili, Elizabeth Balbachevsky e José Goldemberg – Foto: Leonor Calasans/IEA-USP

Discussão pública

Presente nos nomes do grupo de trabalho, do documento e do evento, a USP é tomada como referência, mas as propostas se dirigem a todas as universidades brasileiras. O trabalho é uma espécie de “livro verde” (relatório com apresentação de propostas para discussão pública) para a área no País. Bevilacqua ressaltou que não há solução única para as universidades, por isso o documento está aberto a sugestões e modificações.

Além de Bevilacqua e Almeida Filho, também participam do grupo de trabalho responsável pelo documento outros oito pesquisadores da USP envolvidos com o debate sobre o ensino superior brasileiro: Arlindo Philippi Jr.Caio DantasElizabeth BalbachevskyEugenio BucciGuilherme Ary Plonski (vice-diretor do IEA), Henrique von Dreifus, Paulo Saldiva (diretor do IEA) e Roseli de Deus Lopes.

O encontro teve quatro horas de intenso debate, com a presença de representantes da USP, Unesp, Unifesp, UFABC e outras instituições. As discussões ressaltaram a importância de várias das propostas e de como as transformações na USP podem repercutir no resto do País em função do papel de liderança da Universidade. Houve questionamentos também, como a afirmação de que várias das medidas propostas já estão em curso na USP, a necessidade de as humanidades terem maior espaço na reflexão sobre as mudanças e a defesa de que outras universidades também sejam protagonistas na elaboração de propostas.

O primeiro painel foi dedicado às Transformações Contemporâneas do Ensino Superior e abordou três aspectos: autonomia e internacionalização; modelos de formação; e desafios do século 21. O segundo teve o tema Pontos Críticos, Desafios e Propostas para a USP, com análises sobre avaliação e excelência; conexões com a sociedade; e a universidade no mundo digital.

Comentários

Além de Bevilacqua e Almeida Filho como expositores, o encontro teve a participação de sete comentaristas: José Goldemberg , ex-ministro da Educação e ex-reitor da USP; Soraya Smaili , reitora da Unifesp; Renato Janine Ribeiro, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e ex-ministro da Educação; Simon Schwartzman, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Ites); Adelaide Faljoni-Alario, da UFABC e coordenadora-adjunta da Área Interdisciplinar da Capes; Elizabeth Balbachevsky, da FFLCH; e Eugenio Bucci, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Elizabeth e Bucci também participaram da produção do relatório.

No que se refere à USP, Goldemberg afirmou faltar no documento a concepção de que o avanço depende da melhoria dos pesquisadores e consequente incremento da produção científica de impacto. Disse que a universidade brasileira é vista como fornecedora de suprimentos. “Ela recebe pouca demanda em geral e a demanda industrial é baixíssima.” Ele discorda da reivindicação de mais recursos, algo “impatriótico diante das necessidades de outras áreas, como saúde e segurança pública”. A internacionalização, em seu entender, é natural “quando se é bom e se descobre algo importante”.

Elizabeth destacou que a internacionalização é central para uma universidade, mas deve ser mais do que enviar e receber alunos. “O ponto central é a mescla com redes globais de produção e circulação de conhecimento.”

Painel sobre pontos críticos, desafios e propostas para a USP, com Luiz Bevilacqua, Adelaide Faljoni-Alario, Renato Janine Ribeiro, Eugênio Bucci e Simon Schwartzman – Foto: Leonor Calasans/IEA-USP

Outro aspecto enfatizado por ela é a necessidade de “ceder parte da autonomia e aceitar uma cogovernança externa”. Para isso, ela propõe a incorporação de um board of trustees [conselho de gestão] que represente setores da sociedade interessados na atuação da universidade. Destaca, no entanto, que esse board “não pode ser só consultivo, mas ter a capacidade de orientar os rumos da universidade, caso contrário a lógica corporativa se torna dominante”.

Para Schwartzman não se deve levar em consideração apenas as universidades de pesquisa como a USP. “Deve-se falar em sistema de ensino superior, que inclui também outros tipos de instituições de ensino, o ensino a distância e outras atividades.” Ele considera que faltou ao documento uma reflexão sobre o papel da USP nesse contexto. “Falou-se da Maria Antonia [sede da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de 1949 a 1968], mas ninguém mais é Maria Antonia no mundo. Uma universidade moderna tem escolas pesadas de engenharia, tecnologia etc.” E indagou sobre qual deve ser o papel da USP: “Ela é fundamentalmente de pesquisa ou faz também outras coisas?”.

“O negócio de uma instituição universitária é o talento”, afirmou Schwartzman. Para fazer uma política direcionado pelo talento “é preciso pagar o que o mercado internacional paga”. Não se deve esquecer, comentou, que universidades como a USP integram o serviço público, “o que torna a política de pessoal extremamente rígida, com um sistema arcaico de seleção via concurso”. Defendeu a adoção de um sistema misto de contratação de pesquisadores, ao qual seria acrescentada a atuação de comitês de busca.

Humanidades

Bucci questionou se “o paradigma da ciência resolve a questão da universidade”. Para ele, é preciso uma instância que reflita sobre a ciência. “Esse lugar talvez seja a filosofia. Ela deve ser incluída quando discutimos indicadores e qualidade da universidade.”

As relações entre ciência e democracia também foram lembradas por ele: “Nosso documento faz menção às pretensões da China em assumir a liderança científica. A ciência é compatível com um regime não democrático? A conduta e o debate científicos prosperam sem democracia?”.

Janine disse que a pergunta de Bucci sobre o papel a ser cobrado da filosofia leva à questão das diferenças próprias das humanidades. “Quando se vê um documento como esse, o caminho para as ciências e engenharias está mais ou menos definido, só faltam ajustes. Mas quando colocamos a questão das ciências humanas, fica complicado.” Para ele, a internacionalização das humanidades é algo mais trabalhoso. “Nelas, não se escreve um paper com 850 palavras. E há o problema da produção na língua local.”

Janine comentou também que “falta atrevimento” à comunidade de ciências humanas, com a carência de perguntas globalizantes para aglutinar pesquisadores. Um exemplo de trabalho com questões desse tipo seria, em sua opinião, investigar como a educação pode ser usada para a redução da desigualdade.

Mauro Bellesa / Divisão de Comunicação do IEA

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