Especialistas debatem as mudanças necessárias nas universidades do País

Em encontro na USP, pesquisadores discutiram desafios das instituições

Detalhe da torre da Praça do Relógio, na Cidade Universitária. Encontro foi organizado pelo grupo A USP Diante dos Desafios do Século 21 – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Ouvir a sociedade e procurar atender às suas demandas, internacionalizar-se efetivamente – não só com intercâmbio de estudantes -, redução e flexibilização curricular, desburocratização, buscas de novas fontes de recursos, atingir a todos que queiram ter formação superior, contar com modelos diferenciados. Esses são alguns dos principais desafios da universidade brasileira diante do ritmo cada vez mais acelerado das transformações sociais e na produção de conhecimento.

Mais que desafios, essas questões talvez sejam imperativos para a universidade continuar a desempenhar o papel de principal agente de produção de conhecimento e formação de cientistas e profissionais.

Luiz Bevilacqua, professor visitante do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e ex-reitor da Universidade Federal do ABC (UFABC), costuma usar uma metáfora esportiva para definir as exigências do momento. “Uma onda que quebra na praia é uma onda de choque. As transformações no mundo e no conhecimento estão produzindo uma onda de choque para a universidade e numa onda dessas não adianta nadar: é preciso surfar, e para isso a universidade tem de escolher a prancha mais adequada.”

Bevilacqua e Naomar de Almeida Filho, ex-reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), apresentaram no dia 10 de outubro, durante o encontro A USP diante do Espelho, propostas sobre o que deve ser feito para essa onda ser surfada a contento. Os dois integram o Grupo de Trabalho A USP diante dos Desafios do Século 21, que produziu o documento USP: Propostas de Agenda para o Futuro, lançado no evento.

Painel sobre transformações do ensino superior com Naomar de Almeida Filho, Luiz Bevilacqua, Soraya Smaili, Elizabeth Balbachevsky e José Goldemberg – Foto: Leonor Calasans/IEA-USP

Discussão pública

Presente nos nomes do grupo de trabalho, do documento e do evento, a USP é tomada como referência, mas as propostas se dirigem a todas as universidades brasileiras. O trabalho é uma espécie de “livro verde” (relatório com apresentação de propostas para discussão pública) para a área no País. Bevilacqua ressaltou que não há solução única para as universidades, por isso o documento está aberto a sugestões e modificações.

Além de Bevilacqua e Almeida Filho, também participam do grupo de trabalho responsável pelo documento outros oito pesquisadores da USP envolvidos com o debate sobre o ensino superior brasileiro: Arlindo Philippi Jr.Caio DantasElizabeth BalbachevskyEugenio BucciGuilherme Ary Plonski (vice-diretor do IEA), Henrique von Dreifus, Paulo Saldiva (diretor do IEA) e Roseli de Deus Lopes.

O encontro teve quatro horas de intenso debate, com a presença de representantes da USP, Unesp, Unifesp, UFABC e outras instituições. As discussões ressaltaram a importância de várias das propostas e de como as transformações na USP podem repercutir no resto do País em função do papel de liderança da Universidade. Houve questionamentos também, como a afirmação de que várias das medidas propostas já estão em curso na USP, a necessidade de as humanidades terem maior espaço na reflexão sobre as mudanças e a defesa de que outras universidades também sejam protagonistas na elaboração de propostas.

O primeiro painel foi dedicado às Transformações Contemporâneas do Ensino Superior e abordou três aspectos: autonomia e internacionalização; modelos de formação; e desafios do século 21. O segundo teve o tema Pontos Críticos, Desafios e Propostas para a USP, com análises sobre avaliação e excelência; conexões com a sociedade; e a universidade no mundo digital.

Comentários

Além de Bevilacqua e Almeida Filho como expositores, o encontro teve a participação de sete comentaristas: José Goldemberg , ex-ministro da Educação e ex-reitor da USP; Soraya Smaili , reitora da Unifesp; Renato Janine Ribeiro, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e ex-ministro da Educação; Simon Schwartzman, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Ites); Adelaide Faljoni-Alario, da UFABC e coordenadora-adjunta da Área Interdisciplinar da Capes; Elizabeth Balbachevsky, da FFLCH; e Eugenio Bucci, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Elizabeth e Bucci também participaram da produção do relatório.

No que se refere à USP, Goldemberg afirmou faltar no documento a concepção de que o avanço depende da melhoria dos pesquisadores e consequente incremento da produção científica de impacto. Disse que a universidade brasileira é vista como fornecedora de suprimentos. “Ela recebe pouca demanda em geral e a demanda industrial é baixíssima.” Ele discorda da reivindicação de mais recursos, algo “impatriótico diante das necessidades de outras áreas, como saúde e segurança pública”. A internacionalização, em seu entender, é natural “quando se é bom e se descobre algo importante”.

Elizabeth destacou que a internacionalização é central para uma universidade, mas deve ser mais do que enviar e receber alunos. “O ponto central é a mescla com redes globais de produção e circulação de conhecimento.”

Painel sobre pontos críticos, desafios e propostas para a USP, com Luiz Bevilacqua, Adelaide Faljoni-Alario, Renato Janine Ribeiro, Eugênio Bucci e Simon Schwartzman – Foto: Leonor Calasans/IEA-USP

Outro aspecto enfatizado por ela é a necessidade de “ceder parte da autonomia e aceitar uma cogovernança externa”. Para isso, ela propõe a incorporação de um board of trustees [conselho de gestão] que represente setores da sociedade interessados na atuação da universidade. Destaca, no entanto, que esse board “não pode ser só consultivo, mas ter a capacidade de orientar os rumos da universidade, caso contrário a lógica corporativa se torna dominante”.

Para Schwartzman não se deve levar em consideração apenas as universidades de pesquisa como a USP. “Deve-se falar em sistema de ensino superior, que inclui também outros tipos de instituições de ensino, o ensino a distância e outras atividades.” Ele considera que faltou ao documento uma reflexão sobre o papel da USP nesse contexto. “Falou-se da Maria Antonia [sede da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de 1949 a 1968], mas ninguém mais é Maria Antonia no mundo. Uma universidade moderna tem escolas pesadas de engenharia, tecnologia etc.” E indagou sobre qual deve ser o papel da USP: “Ela é fundamentalmente de pesquisa ou faz também outras coisas?”.

“O negócio de uma instituição universitária é o talento”, afirmou Schwartzman. Para fazer uma política direcionado pelo talento “é preciso pagar o que o mercado internacional paga”. Não se deve esquecer, comentou, que universidades como a USP integram o serviço público, “o que torna a política de pessoal extremamente rígida, com um sistema arcaico de seleção via concurso”. Defendeu a adoção de um sistema misto de contratação de pesquisadores, ao qual seria acrescentada a atuação de comitês de busca.

Humanidades

Bucci questionou se “o paradigma da ciência resolve a questão da universidade”. Para ele, é preciso uma instância que reflita sobre a ciência. “Esse lugar talvez seja a filosofia. Ela deve ser incluída quando discutimos indicadores e qualidade da universidade.”

As relações entre ciência e democracia também foram lembradas por ele: “Nosso documento faz menção às pretensões da China em assumir a liderança científica. A ciência é compatível com um regime não democrático? A conduta e o debate científicos prosperam sem democracia?”.

Janine disse que a pergunta de Bucci sobre o papel a ser cobrado da filosofia leva à questão das diferenças próprias das humanidades. “Quando se vê um documento como esse, o caminho para as ciências e engenharias está mais ou menos definido, só faltam ajustes. Mas quando colocamos a questão das ciências humanas, fica complicado.” Para ele, a internacionalização das humanidades é algo mais trabalhoso. “Nelas, não se escreve um paper com 850 palavras. E há o problema da produção na língua local.”

Janine comentou também que “falta atrevimento” à comunidade de ciências humanas, com a carência de perguntas globalizantes para aglutinar pesquisadores. Um exemplo de trabalho com questões desse tipo seria, em sua opinião, investigar como a educação pode ser usada para a redução da desigualdade.

Mauro Bellesa / Divisão de Comunicação do IEA


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