Especialistas apresentam tecnologias e projetos para o envelhecimento ativo

Encontro na USP mostrou como empresas e cientistas têm investido na qualidade de vida de pessoas com mais de 50 anos

Por - Editorias: Universidade
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Público acompanhou discussões sobre o envelhecimento ativo – Foto: Divulgação / PRCEU

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Os desafios do envelhecimento foram o foco das discussões do segundo Simpósio USP Rumo ao Envelhecimento Ativo, realizado na campus Cidade Universitária, em São Paulo, na última quinta, 10 de maio. O evento trouxe mais de 300 pessoas ao auditório com uma heterogeneidade de idades e interesses, de jovens nascidos a partir da década de 1990 a idosos com quase 90 anos, em uma programação com quase 10 horas de duração.

O evento, que visa valorizar a população idosa e propor soluções para uma melhor qualidade de vida, é parte do programa Universidade Aberta à Terceira Idade da USP, organizado pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP em parceria com o projeto Envelhecimento Ativo do Hospital Universitário (HU).

Para Egídio Dorea, médico e coordenador do simpósio o balanço do evento é extremamente positivo. “Esse segundo simpósio foi fundamentado nos pilares do envelhecimento ativo que é participação, segurança, aprendizado continuado e saúde e no meu balanço foi extremamente positivo.”

Ele destaca a importância dos debates. “Tivemos debates muito importantes a respeito do papel do idoso no mercado de trabalho, como se recapacitar ao longo da vida. Falamos sobre a possibilidade de prevenir uma das doenças crônicas, que é um grande estigma do envelhecimento: a demência, além de cuidados paliativos, área recente na medicina brasileira, e como encarar o processo de morte por um viés mais realista. Também abordamos o papel da tecnologia no envelhecer, sobre a visão do envelhecimento na sociedade e da importância de se ter uma narrativa como propósito de vida. Por fim, falamos sobre a questão dos direitos, que deveriam ser universais e naturais.”

Discussão reuniu especialistas de diferentes áreas – Foto: Divulgação / PRCEU

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Mercado de trabalho

A preocupação com o mercado de trabalho para quem chegou aos 60 anos foi o tema do primeiro módulo do evento. A experiência com a plataforma MaturiJobs, que oferece oportunidades para pessoas acima de 50 anos, e outras iniciativas como o Lab 60+ e o 7Bi, redes que conectam e proporcionam soluções de negócios para os idosos, trouxeram ideias para a mudança na forma como as pessoas enxergam o trabalho e a criação de novas formas de emprego que possam gerar um crescimento sustentável e oportunidades para os seniores.

De acordo com Mórris Litvak, da MaturiJobs, as empresas não possuem um número preciso do percentual do consumidor 50+ e o potencial é muito grande. “As empresas olham muito mais para questão de saúde, mas há uma gama de mercado para ser explorada para esse público.”.

Há um crescimento exponencial da população idosa e é necessário que as pessoas se preparem para essa fase da vida, seja pelo viés financeiro, tecnológico ou de aprendizagem, e é isso que propuseram os profissionais que discutiram a tecnologia para o público 60+.

Inovação focada

Inúmeros projetos e soluções tecnológicas promovem ao redor do mundo soluções para projetos voltados para o público sênior, como a Aging 2.0 – rede de networking mundial criada em São Francisco, nos Estados Unidos, com polos em vários locais do mundo – que promove o fortalecimento de startups focadas em produtos e serviços inovadores. De acordo com a Layla Vallyas, diretora da rede em São Paulo, “um dos principais objetivos da rede é fomentar iniciativas que possam resolver um problema real e os desejos do público 60+”.

Dentre os cases de sucesso, ela citou o EuVô, um serviço de transporte especializado no público 60+, a Isgame, uma escola de desenvolvimento de games que promove cursos para o público 50+, no qual os idosos não só jogam como programam os jogos com o objetivo de promover suas funções cognitivas e sua memória. Há ainda a Gero360, um aplicativo de gestão de cuidados para com os idosos que engloba a participação de familiares, do cuidador profissional, do médico e de profissionais que atendem em domicílio com a intenção de trazer soluções voltadas para a rotina de cuidados e para o bem-estar.

Questionado sobre como os idosos com baixa renda podem usufruir desses benefícios, Sérgio Duque Estrada revela que, por parte do Estado, esta não é uma solução de curto prazo, mas destaca as iniciativas particulares. “Sem dúvida isso é um drama, mas estamos agindo sobre ela, aqui mesmo [participando do simpósio]. Existem algumas startups que pensam nisso como é o caso da EuVô e da Morar com Você [plataforma de compartilhamento de moradia]”, ressalta.

Simpósio sobre Envelhecimento Ativo foi realizado no auditório da Biblioteca Brasiliana, no campus Cidade Universitária – Foto: Divulgação / PRCEU

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Saúde

No bloco voltado para a saúde, foram discutidos temas como o cuidado paliativo, como prevenir e reverter a demência e como encarar o processo da finitude. De acordo com a médica Sônia Maria Dozzi Brucki, existem fatores que podem prevenir a demência.

“O comprometimento sensorial, como a perda visual e auditiva, faz com que as pessoas tenham mais chances de evoluir o quadro de perda cognitiva leve para a demência. Tratar isso é uma forma de prevenir. Quem pratica atividade física com regularidade, quem tem maior alto astral, vamos dizer assim, também tem menor chance de desenvolver demência. Em resumo, são vários fatores, exercício físico, a interação social, boa alimentação, atividade cognitiva e, principalmente, o bom humor e sociabilidade são os fatores mais importantes para manter a cabeça melhor possível”, explica.

Envelhecimento e a sociedade

No módulo que discutiu a o envelhecimento e a sociedade, o filósofo Luiz Felipe Pondé e o jornalista Gilberto Dimenstein trouxeram os conceitos de amadurecimento e narrativa como forma de encarar o envelhecimento de maneira mais plena. Pondé trouxe um questionamento e uma perspectiva do futuro para os idosos ao falar do conceito de amadurecimento no envelhecimento. “Em que medida precisamos contemplar o futuro sem a noção de amadurecimento?”.

Para ele, há um conjunto de elementos que faz parte do amadurecimento. “Primeiro, a dificuldade de sair de casa; segundo, a dificuldade de se tornar autossuficiente; terceiro, a dificuldade e temor de estabelecer vínculos afetivos a médio prazo; e o quarto marcador usado pelos pesquisadores é projeto de reprodução. Muitos jovens se envolvem profundamente com problemas sociais, mas são incapazes de criar dois filhos porque eles duram muito e custam muito caro. São poços constantes de amadurecimento e de conflito”, aponta.

O filósofo destaca a obra Rei Lear, de Shakespeare, para refletir o tema da herança, do envelhecimento, do local do idoso na sociedade e como alguns textos clássicos nos ajudam a lidar com questões humanas.

“Provavelmente, no futuro, teremos idosos que viverão muito, serão sozinhos, terão poucos vínculos, serão consumidores organizados, empoderados, mas que, se eles forem uma continuação do que os milleniuns [conceito sobre a geração de jovens nascidos a partir de 1985] são hoje, em grande medida, terão um menor amadurecimento. Se você entender amadurecimento como a capacidade que as pessoas tinham de lidar com contradições e de perceber que uma das melhores formas de tornar a sua vida infeliz é querer ser feliz o tempo todo, então quem sabe a função de amadurecimento vai pertencer à inteligência artificial”, destaca Pondé.

Dimenstein discutiu o envelhecimento a partir do conceito de narrativa que, para ele, está ligado às iniciativas que tomamos ao longo da nossa vida. “Perder a narrativa não está nem ligada à ideia do envelhecimento, está ligada à ideia da morte, ao meu fim. O que manteve a minha narrativa foi ter entrado no mundo da internet, que me obriga a aprender 24 horas por dia. Não a possibilidade de parar de ter curiosidade, senão você tem a morte. Então a ideia de aprender e a narrativa ficou uma coisa só”, explica.

Ele disse ainda que as empresas mais criativas são aquelas que lidam com a diversidade. “O mundo do trabalho percebeu que as empresas mais produtivas são as que têm mais diversidade. Gays, mulheres, negros, pessoas com deficiência e idosos. Você só consegue ser criativo de fato quando lida com a diversidade porque ela te traz repertórios grandes para ir longe”, revela Dimenstein.

Direitos Humanos

O módulo final do evento discutiu o envelhecimento e os direitos com mediação do  médico Alexandre Kalache. Os desafios da comunidade LGBT e dos negros com relação a esse tema foram discutidos pelas professoras Guita Grin Debert e Marília Berzins, respectivamente.

Para elas, o preconceito permeia ainda mais esses dois grupos. “A mulher negra, pobre e velha sofre dupla discriminação. Comumente as negras velhas são associadas, para os não negros, com as suas babás, faxineiras. Os idosos brasileiros podem experimentar o preconceito duplo, triplo ou quádruplo – racial, gênero, social e etário”, relata Marília Berzins.

Já Guita Grin, diz que as dificuldades enfrentadas pelos idosos do grupo LGBT estão relacionadas com a negação de sua identidade. “Há muitas dificuldades nesse grupo para encontrarem casa de repouso, por exemplo, principalmente se elas forem religiosas, pois precisam esconder a sua sexualidade, algo que lutaram a vida toda para mostrar.”

O ex-ministro e presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP José Gregori tratou do tema direitos humanos como algo que está em constante desenvolvimento. “Em matéria de direitos humanos nunca há a última conquista, sempre haverá algo para ser conquistado.”

Gregori ressaltou que a iniciativa do evento não pode ficar só na reflexão. “Precisamos fazer com que simpósios como este não sejam só momentos de reflexão, mas ponto de partida para podemos agir para extinguir essas deficiências.”

Questionado sobre a participação também dos jovens no evento Egídio Dórea relata que essa foi uma das preocupação da organização. “Esse foi um dos nossos grandes objetivos, abranger um público cada vez mais diverso. Eu acho que os jovens estão cada vez se preocupando mais, apesar de ainda existir essa dicotomia, porque é um fato, um desejo de todo mundo envelhecer e envelhecer bem. Então quando vemos hoje um programa de empreendedorismo, de startups, vemos a participação grande dos jovens. Mas é importante essa integração porque o idoso tem que ter a voz nesses processos. Ele sabe exatamente o que é importante para ele porque está vivenciando todos os aspectos do envelhecimento”, ressalta.

O conteúdo das palestras estão disponíveis os link do youtube com os conteúdos da manhã e da tarde.

Elcio Silva/ Assessoria de Comunicação da PRCEU
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