Em três atos, figurinos ajudam a contar histórias de peças teatrais da USP

Acervo de trajes existe há 70 anos e atende ao Departamento de Artes Cênicas e à Escola de Arte Dramática

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Fotos: Cecília Bastos/USP Imagens 

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.ATO 1

NO SÓTÃO DE UM TEATRO

Cena 1: descobrindo o Guarda-Roupa
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A Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, localizada no campus Cidade Universitária, em São Paulo, é composta de oito departamentos organizados em sete diferentes prédios.

Entre eles, há o Teatro Laboratório, que atende tanto ao Departamento de Artes Cênicas (CAC) quanto à Escola de Arte Dramática (EAD). A fama do lugar se dá pelas peças teatrais, pela proximidade da Praça do Relógio e pelo delicioso bolo vendido na lanchonete.

No entanto, por aqueles que não estudam no departamento, o interior do prédio não é muito conhecido.

Poucos alunos da USP sabem que no sótão do Teatro Laboratório há um acervo de figurinos de época, com chapéus, perucas, sapatos, acessórios e vestidos, cujo nome é Guarda-Roupa.


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Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Ao entrar pela primeira vez no Guarda-Roupa, o encantamento é imediato e quase obrigatório. As araras, gavetas e prateleiras transbordam figurinos e transmitem uma espécie de vislumbre àqueles que se interessam por arte.

A personagem principal deste ato é uma mulher de 53 anos que há 12 trabalha desenhando, montando, costurando e produzindo para o acervo.

Ray Lopes é a figurinista do CAC. 


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Cena 2: De bancária a figurinista

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Quando pequena, Ray queria ser professora de psicologia. Mas cresceu e foi trabalhar como bancária. Sua mãe era costureira-professora da Vogue e, por isso, todas suas filhas sabiam costurar.

Quando se casou, Ray teve três filhos e saiu do banco para se dedicar à maternidade. Depois disso, não conseguiu mais reingressar em sua área. Com o objetivo de ajudar nas despesas da família, fazia pequenos trabalhos de costura.

RAY – A minha mãe sempre dizia que quando eu crescesse seria uma bela costureira, e eu morria de raiva. Não queria. Nunca tive pretensão de ser figurinista. Mesmo quando comecei a trabalhar com isso sempre repetia: “Pessoal, eu não sou costureira, esse trabalho é temporário.”

 

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Em 2006, Ray soube pela sua irmã de um concurso que seria realizado para trabalhar como figurinista na ECA. A princípio, não se interessou muito, mas depois decidiu prestar a prova.
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Eu achava que não ia conseguir, mas passei em primeiro lugar. Não acreditei! Hoje, amo trabalhar aqui, é como se todo dia fosse meu primeiro. É minha terapia, sempre tem uma novidade, uma coisa nova para fazer. É o meu local de trabalho, mas, às vezes, sinto que estou só brincando.

 

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Cena 3: O nascimento de um figurino

Todos os alunos do CAC e da EAD podem emprestar peças do acervo. Basta preencher uma ficha e devolver no dia combinado. Além disso, também podem levar projeto e tecidos e pedir para as figurinistas construírem os trajes necessários.

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Esse trabalho ocupa todo o tempo de Ray, que já perdeu a conta da quantidade de roupas que fez em seus 12 anos de USP.

RAY – O figurino tem que nascer da sua alma. Eu preciso ler o roteiro, assistir a uma parte da peça, conhecer os personagens. Depois, preciso dormir, pensar naquela história. Trabalhar com teatro é isso.


A saia da imagem foi feita para o trabalho final de um estudante da ECA e foi utilizada por uma noiva de quatro metros de altura, com perna de pau. Em cada babado está bordado (como homenagem) o nome de uma aluna que estudou com ele ao longo do curso

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.ATO 2

UM POUCO DE HISTÓRIA

Cena 1: O começo do Guarda-Roupa
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O Guarda-Roupa começou em 1948, com a fundação da EAD. Alfredo Mesquita, primeiro coordenador da escola, fazia trajes para peças e também recebia doações.

Nos anos 1970, a EAD foi incorporada à USP, assim como seu acervo de figurinos, que se juntou ao do Departamento de Artes Cênicas, tornando-se o Guarda-Roupa que conhecemos hoje.  

Antes, era possível emprestar figurinos para grupos externos à USP, mas com o crescimento da escola e do número de alunos, isso não acontece mais.

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Cena 2: O figurino também é documento 

Fausto Viana é professor de Cenografia e Indumentária na Escola de Comunicações e Artes. Desde 1989, quando ingressou na USP e se apaixonou pela área, acompanha a evolução do Guarda-Roupa.

Em 2010, quando Fausto já era professor, a ECA recebeu uma grande doação da Associação São Pedro para Cultura Paulista. Era um acervo histórico de produções do Estado de São Paulo e de todo o Brasil.
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Fausto realiza uma série de experimentos utilizando figurinos. Em um deles, para uma peça histórica, queria observar como a interação com o solo resultaria no tecido da réplica do vestido da Princesa Isabel.

Para isso, ele enterrou o figurino (veja na imagem abaixo) durante meses, depois o colocou em um manequim no jardim do CAC e deixou exposto à poluição.

FAUSTO – O resultado foi chocante. Mesmo depois de lavado e desinfetado, conseguimos ver muito da poluição no tecido do vestido.

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.ATO 3

O TRAJE, O TEATRO E A IDENTIDADE

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Mesmo na vida cotidiana, o traje tem extrema importância. Ele carrega uma razão de ser. O modo como nos vestimos, as roupas que escolhemos. É o elemento mais manipulado.

Em uma produção teatral, o mesmo acontece. Cada ator e diretor cria um vínculo diferente com o Guarda-Roupa ao longo dos anos.

Entre as muitas histórias que o acervo esconde, há a de uma ex-aluna da EAD que, quando foi convidada anos depois de formada para dirigir um espetáculo na escola, destruiu todos os figurinos que pôde.

FAUSTO – Ela explicou que, simbolicamente, estava fazendo as pazes com o Alfredo Mesquita. Estava resolvendo questões que tinham ficado mal resolvidas no passado. Não deixa de ser interessante, pois mostra como o traje extrapola o limite material, mas também mostra como esse acervo precisa de proteção.
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Hoje, o Guarda-Roupa vive de doações, tanto de alunos e professores como de pessoas externas à USP. Estudantes da ECA podem emprestar figurinos e pesquisadores de qualquer universidade podem conhecer presencialmente o acervo, basta encaminhar um e-mail para
faustoviana@usp.br.

 

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Pesquisa e texto: Mariangela Castro  |  Fotos: Cecília Bastos/USP Imagens  |  Arte: Thais Helena dos Santos

 

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