Documentos da USP contam parte da história da Física no Brasil

Acervo digitalizado do Instituto de Física da USP está disponível ao público

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Equipe de funcionários e professores do Departamento de Física da USP, no final dos anos 1930. Da esquerda para direita: Roberto Xavier de Oliveira, Dona Maria, Giuseppe Occhialini, Marcello Damy de Souza Santos, Sr. José, Yolande Monteux, Abrahão de Moraes, Mario Schenberg, Gleb Wataghin, Francisco Bentivoglio Guidolin – Foto: Reprodução

Mais de 1.600 documentos escritos e imagens ajudam a recriar o cenário da implantação do curso de Física na USP, no período de 1934 a 1970. Mais do que a relembrar uma parte importante da história da Universidade, o acervo contribui para contar um capítulo do desenvolvimento da física no Brasil.

César Lattes – Foto: Acervo IF

O Instituto de Física (IF) da USP, em São Paulo, digitalizou esses documentos e os disponibilizou para consulta on-line. Agora, qualquer um pode ter acesso ao arquivo, basta acessar o site oficial do acervo.

Entre os documentos, estão aqueles de caráter administrativo, educacional, científico e as correspondências da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), a unidade que inicialmente abrigou o curso de Física.

Segundo Ivã Gurgel, professor do IF e coordenador do acervo, as cartas são particularmente interessantes. “São os bastidores da história. Temos cartas recebidas pelos professores da USP, endereçadas a cientistas de renome.”

Uma delas é a enviada por Gleb Wataghin, professor ítalo-russo responsável pela implantação da seção de ciências físicas da FFCL, para Menezes de Oliveira, presidente da Academia Brasileira de Ciências, sobre o ganhador do prêmio Nobel de Física de 1933, Erwin Schrödinger.

“Wataghin relata ter interesse em trazer Schrödinger para o departamento que se formava, dizendo ter oferecido, excepcionalmente, um salário de 5.000 réis ao austríaco”, conta Gurgel.

Carta de Gleb Wataghin (clique para ampliar) – Imagem: Acervo IF

A reunião dos documentos relativos à história da Física na USP começou em 1995, com o trabalho da falecida professora Amélia Império Hamburger dentro do Projeto Memória do Instituto de Física. Seus esforços foram continuados através das décadas por diversos colaboradores. Atualmente, o acervo conta com outros fundos, como o Acervo Mario Schenberg.

A decisão de digitalizar o material veio da preocupação, de acordo com Gurgel, com a necessidade de qualquer historiador ter acesso aos documentos . “O acervo do IF pode ser interessante para pesquisadores de diversas áreas, então quisemos torná-lo mais acessível. Além disso, ao digitalizarmos o acervo, ele passa a ser menos manuseado e os documentos ficam mais preservados.”

O coordenador do arquivo explica que, além dos documentos, o site do acervo contém também uma seção de destaques, que conta a História da Física no Brasil. A intenção é criar um portal de referência, com material de consulta para quem possa querer saber mais.

“Me lembro que, como professor de física de ensino médio, ao falar pela primeira vez sobre César Lattes, deixei os alunos surpreendidos e interessados em saber que existiu um cientista brasileiro que deixou tamanha contribuição para a física”, conta Gurgel.

Cesare Mansueto Giulio Lattes graduou-se em Física pela USP em 1943, passando a trabalhar na Universidade com seus professores Gleb Wataghin e Giuseppe Occhialini. No Reino Unido, ele participou dos estudos que levaram ao descobrimento do méson pi, partícula que mantém o núcleo do átomo coeso. A descoberta é um dos pilares da física moderna e colocou o brasileiro entre os mais influentes pesquisadores no Brasil e do mundo.

O professor Gurgel destacou que o apoio do IF foi fundamental para a digitalização do acervo. “No Brasil, estamos longe da cultura de preservação e da cultura de preservação de memória histórica. Não queremos ter o passado presente, o apagamos com facilidade. É um elemento de identidade importante e ainda pecamos muito.” Ele lembrou que o desafio é trazer mais documentos para compor o acervo e ampliá-lo.

Mario Schenberg trabalhando na sala do terceiro andar da Escola Politécnica, em 1937 – Foto do Acervo IF, doação de Guidolino Bentivoglio

Um pouco de história

A criação da USP em 1934 contou no seu quadro de professores muitos europeus. Em geral, os franceses estavam mais presentes nas ciências humanas; italianos, nas ciências exatas; e alemães, nas ciências biológicas. Para o Departamento de Física, Teodoro Ramos – um dos fundadores da USP enviado em missão à Europa para contratar professores estrangeiros que viessem lecionar na nova Universidade – fez o convite ao físico italiano Enrico Fermi, que não pôde vir, mas indicou o físico russo-italiano Gleb Wataghin, da Universidade de Turim, que chegou a São Paulo em 1934.

Chamado para dar aulas na Escola Politécnica e convidado a criar o curso de Física, Wataghin foi uma referência para o ensino superior de Física no Brasil, devido ao incentivo à pesquisa, à forte proximidade com os estudantes e a sua boa relação com pesquisadores estrangeiros.

A primeira turma de físicos da USP se formou em 1936. Ela era composta de alunos que se tornariam pesquisadores notáveis, como Marcello Damy de Souza Santos e Mario Schenberg. A segunda turma se formaria em 1937, com a presença da primeira mulher graduada em física no Brasil: Yolande Monteux. Ela teve trabalhos de reconhecida importância apresentados em simpósios nos anos seguintes e por mais de 20 anos foi uma das poucas mulheres com diploma superior trabalhando no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

 

 

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