Disciplina da USP busca fortalecer as redes comunitárias da região da Luz

Pós-graduandos do núcleo de pesquisa Diversitas puderam conhecer ações de coletivos que atuam no local

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Teatro que sedia as atividades do grupo – Foto: Divulgação / Coletivo Diversitas

A lista vai passando de mão em mão. Os alunos recebem, assinam o nome, e passam adiante. Na parte superior do papel, as informações parecem indicar que se trata de mais uma das muitas aulas de pós-graduação da USP. Porém, um detalhe deixa claro que essa não é uma classe comum: no lugar da tradicional estrutura da sala de aula, está o Teatro Pessoal do Faroeste, localizado em um pequeno edifício na Rua do Triunfo, no coração da região conhecida como Cracolândia, em São Paulo.

A disciplina em questão é O Lugar das Redes: Preservadas, descartadas, compartilhadas e expandidas, do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades do Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos (Diversitas) da USP. Ela foi oferecida no primeiro semestre deste ano, toda quarta-feira à noite, e buscou estabelecer uma relação mais forte com a população local, por isso a importância das aulas ocorrerem na própria região.

“O objetivo era fortalecer e adensar redes comunitárias que já existem e que não têm fortes conexões entre si”‘, conta Luís Galeão, professor do Instituto de Psicologia (IP) da USP e um dos três docentes que lecionaram a aula. Sérgio Bairon, da Escola de Comunicações e Artes (ECA), e Zilda Iokoi, do curso de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), completaram o trio.

Se pode parecer estranho professores de diferentes especialidades trabalharem em uma mesma aula, Galeão garante que a experiência é positiva. ”É um grande desafio. A formação disciplinar faz com que a gente veja os problemas só a partir de determinado ângulo.”

O início

Marcelo Carnevale, de quem partiu a ideia do projeto – Foto: Divulgação / Coletivo Diversitas

Tudo começou com Marcelo Carnevale, pesquisador do programa de pós-graduação do Diversitas, que já tinha um projeto relacionado ao diálogo comunitário na região da Luz, por causa de seu doutorado. Assim, fez um convite para que houvesse uma aproximação do núcleo de estudos com a região. ”O objetivo era conhecer uma série de assuntos que sintetizam a proposta do núcleo, que lida em torno da diversidade, dos direitos humanos e de outras legitimidades”, relata.

Com o passar do tempo, esse diálogo com a comunidade local foi se fortalecendo até que, no segundo semestre de 2017, foi oferecida uma primeira disciplina, mais teórica, relacionada a memória, que evoluiu para a criação da aula no ano seguinte, sobre o diálogo com as comunidades.

O projeto estimula o mundo acadêmico a sair de seus próprios muros e trabalhar mais fortemente com a sociedade e a população em geral. Segundo Sérgio Bairon, ”a ideia era levar a universidade pública para onde interessa e fazer com que daí surgisse uma interlocução.”

Foram exigidas dos alunos a leitura de uma bibliografia e a realização de um trabalho final, mas a experiência na Luz tornou a disciplina bem diferente do modelo tradicional. ”Vivenciamos algumas situações que, por mais introdutórias e superficiais que sejam, são infinitamente mais verdadeiras do que uma aula de leitura e discussão apenas”, diz o professor.

A porta do teatro ficava sempre aberta para quem quisesse entrar, o que incentivava alguns moradores, graduandos e membros de projetos sociais da região a se juntarem aos estudantes matriculados.

Para Luana Costa, jornalista e aluna especial da pós-graduação, essa interlocução é muito rica. ”A gente tem uma troca de experiências e de vivências muito importante, porque cada um aqui faz parte de coletivos e redes que já atuam de alguma forma em causas sociais.”

As parcerias

Sérgio Bairon, um dos coordenadores do projeto – Foto: Divulgação / Coletivo Diversitas

A aula de pós-graduação acabou se destrinchando em diversos projetos paralelos, como o que o Daniel Baptista, aluno do professor Bairon no curso de Publicidade e Propaganda da USP, participa. ”Estamos fazendo um trabalho em um hotel social com usuários de crack. Nosso intuito é fazer um documentário sobre a técnica de redução de danos”, conta.

Quase todos ali estão envolvidos em algo para além das aulas, no que Bairon chama de produção partilhada do conhecimento. ”Produzir junto com a comunidade e não sobre a comunidade”, método aplicado principalmente com os três principais parceiros do projeto.

Um deles é a Companhia de Teatro Pessoal do Faroeste, que se apresenta no local onde ocorrem as aulas. O espaço é de grande importância para o cinema brasileiro. Na segunda metade do século 20, as três quadras vizinhas sediavam produtoras, distribuidoras e estúdios. ”Andando por aqui há 30 anos você iria cruzar com Davi Cardoso, Vera Fischer e Sonia Braga”, diz Paulo Faria, diretor artístico da companhia.

De acordo com o professor do Diversitas, o reconhecimento da região neste aspecto é mundial, mas para boa parte da cidade essa história ainda é invisível. ”Tenho como objetivo criar um sentimento de pertencimento da população com a história e com a tradição do local. A Rua do Triunfo era conhecida por ser uma rua de gênero: faroeste, kung fu, drama histórico”. Faria explica que esse elo do grupo artístico com o mundo acadêmico já existia há algum tempo. ”Sempre ficcionamos as teses que estão dentro das universidades. Nossas peças surgem a partir de trabalhos acadêmicos sobre a história da cidade.”

A Casa Florescer, que acolhe mulheres transexuais da região, foi outro importante parceiro da disciplina. No local, a professora Zilda toca um projeto que visa contar as histórias das moradoras. “Eu faço algumas perguntas e elas vão narrando suas vidas.” Todo esse material sofre então um processo de transcrição e transcriação – adaptação da linguagem oral para a escrita – e, em seguida, é devolvido para que elas analisem e proponham mudanças. O objetivo é transformar o conteúdo em livro e filme.

Além disso, existe a Companhia de Teatro Mugunzá, que instalou  um centro cultural formado por contêineres na Rua dos Gusmões, e que ajudaram na interação da comunidade com os membros da pós-graduação.

A repressão

Alunos no Teatro Pessoal do Faroeste, na região central de São Paulo – Foto: Divulgação / Coletivo Diversitas

O centro de São Paulo nos últimos anos foi marcado por diversas intervenções, sejam do poder público ou de operações policiais. A eficácia desse tipo de ação, muitas vezes, é questionada. Para Deborah Fromm, pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da USP, “essas operações têm um histórico. Em 2005, teve a Operação Limpa; em 2012, a Sufoco. Elas, como seus próprios nomes deixam muito claro, têm uma ideia de tirar as pessoas ali do território. E sempre em uma tentativa de dispersão”.

Boa parte desses programas e operações coloca o tráfico como principal problema da região. No entanto, como explica Deborah, a Cracolândia apresenta muito mais nuances. “Ela está conectada com outros territórios e outras políticas que estão ocorrendo em diversos lugares da cidade. Se tem uma ocupação ou uma reintegração de posse, muitas pessoas vão para lá. Ali, a questão da moradia é muito central.”

Com o convívio no local todas as quartas-feiras, os participantes do curso foram percebendo estas nuances. Um exemplo citado por Bairon é o comportamento estratégico daqueles que moram na Cracolândia quando ocorre repressão. “A polícia já entra agredindo, então as pessoas saem quebrando tudo. Quando elas fazem isso, os comerciantes da região reclamam para o poder público, e o poder público pressiona a polícia para acalmar os ânimos. Dessa forma, sair quebrando tudo é uma estratégia contra a violência policial.”

Paulo Faria acredita que existem outros motivos para essa ação, mas confirma que evitar a repressão é um deles. ”Isso acontece quase semanalmente. No entanto, não há a violência com as pessoas, só com o patrimônio”, diz. ”Um dia estávamos caminhando pelo local e tinha policiais enquadrando pessoas de forma muito agressiva. Mas na hora em que a gente apareceu e eles viram o perfil do grupo, aliviaram. Depois, algumas dessas pessoas vieram nos agradecer”, relata o diretor.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo afirmou que ”possíveis irregularidades nas condutas dos policiais podem ser relatadas à Corregedoria para que as denúncias sejam devidamente investigadas.” Além disso, esclareceu que ocorrem reuniões semanais para o planejamento de ações na região, visando à preservação da ordem pública.

Atualmente não estão sendo ministradas aulas no local. Mais informações no site do Diversitas.

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