Da vivência em abrigos à USP,
Cláudio é o menino que apostou no viver

Professor de Filosofia de Ribeirão Preto reverteu as dificuldades da vida através da educação e, hoje, é o mais novo mestre da Universidade

Ilustração: Emerson Freire

Curiosamente, há uma relação de datas entre a história contada aqui e um samba. A canção de Roberto Ribeiro, de 1978, Todo menino é um rei fala dos sonhos de um moleque. Ele não projeta as dificuldades do caminho e aposta que tudo dará certo. “Eu sou aquele menino”, diz Cláudio Luiz da Silva.

Professor de Filosofia, ele é o mais novo mestre em Saúde Mental da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP. O “aquele” de sua afirmação é o combustível para seguir sua caminhada, começando de uma maneira e, com o passar do tempo, vivendo outras.              

Legenda: O “menino” Cláudio Luiz, além de professor de Filosofia e mestre em Saúde Mental, guarda uma história de vida cheia de superação – Foto: Serviço de Criação e Produção Multimídia EERP

Nas mesmas casas numerais de 1978, Cláudio com seus três anos de idade foi deixado por seu responsável no extinto Serviço de Amparo ao Menor Abandonado (Sama) de Bragança Paulista, interior de São Paulo. Lá, as apostas de um futuro melhor ainda não se cogitavam. A estrutura e tratamento do lugar não dão quintal para um menino brincar com sua ousadia. Mas havia espaço para os traumas. “Passei momentos assombrosos.”

O fim das atividades do Sama o leva para São Paulo. Sua nova casa é a então chamada Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor, a Febem. Na época, a convivência unia crianças em vulnerabilidade social e as que cumpriam medidas socioeducativas. Um pouco de sorte e ele foi transferido para uma unidade de Lins. “Lá, resolvi viver. Apostei. Tinha toda uma estrutura pedagógica, ecológica, de saúde, de alimentação. Formei meu caráter ali. Minha construção psicossocial.”

Em 1986, mais uma unidade da Febem é seu novo lar, agora, em Batatais. O ambiente é muito parecido com o de Lins, estruturado. Mas iniciar a vida escolar é complicado. As dolorosas lembranças de Bragança trazem dificuldades no relacionamento com outras crianças. “Consegui entrar na escola com 10 anos.” E foi na sala de aula que outra aposta de um bom caminho foi feita.

O primeiro contato com a Filosofia se inicia aos 16 anos. Quase uma paquera. Muito introspectivo, a biblioteca é o lugar escolhido para se refugiar. Logo começa a devorar os livros. O primeiro, A Cidade de Deus, de Santo Agostinho. Curioso, busca outro: um de São Tomás de Aquino. Num piscar de olhos, o menino, nem um pouco tímido com as páginas, lê toda a coleção Os Pensadores. Já é um casamento. “Vi que era meu propósito de vida.”

Ilustração: Emerson Freire

Aos 14 anos, a responsabilidade de ter um emprego se mistura com o planejamento dos próximos anos. A maioridade traz a obrigação de sair do abrigo onde vive depois de tanto tempo. Como deixar a Febem, que era o seu lar, e viver sozinho, ser adulto, ter uma profissão? A única certeza é ser filósofo.

“Fui para Ribeirão com 20 anos. Estava decidido que queria fazer faculdade de Filosofia.” Em 1998, alguns nós na linha do tempo surgem. Como pagar uma mensalidade? A solução:  free-lancer publicitário, corrigir textos e produzir conteúdo de propaganda. Mas a paixão não é a área da comunicação.

Durante a faculdade, vem a oportunidade da docência em cursinhos pré-vestibulares gratuitos. Em 2002, é oficialmente professor de Filosofia formado pelo Centro Universitário Moura Lacerda. Daí por diante, escolas da rede pública, cursinhos particulares e até universidade são suas novas casas de trabalho.

Ele quer mais. Em 2016, vem a terceira aposta: um mestrado. “Precisava redesenhar minha carreira. Me aventurei. Onde as coisas não estão boas, onde não há um gramado verde e, sim, uma terra um pouco mais complicada, é onde eu gosto de pisar.” Cláudio decide relacionar a sua formação com saúde mental. O quintal novo para brincar é a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP.

Filosofia é uma via que se pode caminhar através de transformações. Eu quero ser o guia deste caminho”

Dia 18 de março de 2019. A data da defesa do mestrado. Hoje, agrega o título de professor de Filosofia da Área da Saúde. Ele quer continuar o doutorado e ser um pesquisador da USP. Mas “aquele menino” do início do texto ainda está em Cláudio. “Minha projeção lá atrás era ter uma profissão que ajudasse as pessoas. Bem coisa de menino.”

Agora, Cláudio Luiz da Silva usa as salas de aulas para ajudar jovens que sonham com uma vaga na universidade. “Essas meninas e meninos de 16 anos querem entrar na USP. Eles têm um brilho. Não podemos perder isso. É preciso dizer para eles que é possível, diferente do que a avalanche de imbecilidade propõe.” Até brinca quando encontra um ex-aluno. “Conseguiu entrar, mesmo eu sendo seu professor!”

Ele usa sua história e caminhada para estimular os alunos a refletirem sobre como pessoas que passam por suas vidas trazem algum aprendizado. “Eles devem ser o que são e agir como eu: não deixar ninguém fazer algo que a gente não queira.”

Nos versos de 1978, a letra cantava que o menino uma hora acordava. E aquelas coisas nunca iriam se realizar. Era coisa de menino que pensa só sobre o amanhã. Sonhando. Depois de crescido, ele nunca mais veria aquilo. Na linha do tempo de 1978, um menino chamado Cláudio fez justamente do seu sonho, uma realização da vida. “Venci a institucionalização de ‘menor abandonado’. Vi que vale a pena viver. Eu sou aquele menino, sempre apostei.”

 

Cláudio na sala de aula, local em que “apostou no viver”, da EERP – Foto: Serviço de Criação e Produção Multimídia EERP
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