Série de conteúdos produzidos pelo projeto Ciclo22, que remete à reflexão da USP sobre quatro grandes marcos (1822, 1922, 2022 e 2122): o bicentenário da independência do Brasil, o centenário da Semana de Arte Moderna, o tempo presente e os desafios para os próximos 100 anos

Carta enviada por Manuel Bandeira a Gilberto Freyre - Arte sobre foto / Museu de Literatura Brasileira - Wikipedia

Correspondência entre Manuel Bandeira e Gilberto Freyre revela paradoxos do modernismo brasileiro

De acordo com estudo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, cartas trocadas entre autores, de 1920 a 30, demonstram que o modernismo nacional foi diferente de outros países ao defender valores regionais

 20/08/2021 - Publicado há 4 meses  Atualizado: 03/11/2021 as 9:15

Crisley Santana

Os anos 1920 no Brasil ficaram marcados, entre outros acontecimentos, pelo movimento modernista, que buscava revolucionar os conceitos de cultura no país. Nesse contexto, intelectuais e artistas tornaram-se referência em suas áreas e muitos se aproximaram, criando laços de amizade. É o que demonstra a tese de doutorado Cartas provincianas: correspondências entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira.

O estudo foi realizado por Silvana Moreli Vicente Dias no Programa de Pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Em 2009, o projeto foi vencedor do Prêmio Capes de Tese, promovido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CNPq), vinculada vinculada ao Ministério da Educação (MEC). 

Foi em Recife, capital de Pernambuco, que Silvana encontrou parte do acervo consultado para a tese. Durante visita à Fundação Gilberto Freyre (1900-1987), tomou conhecimento da “riqueza de cartas”, como ela classificou, que havia na instituição. Decidiu, então, estudá-las após confirmar a possibilidade de consultar e editar o material. 

Buscou arquivos, ainda, no Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, localizado em Botafogo, Rio de Janeiro, no qual há acervo dedicado a Manuel Bandeira (1886-1968), correspondente de Freyre. 

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Silvana Moreli Vicente Dias - Foto: Arquivo Pessoal

Além das cartas, foram adicionadas fotografias, postais, crônicas, poemas e ensaios dos autores modernistas. Elas revelam não só as vivências compartilhadas, mas o contexto da época e seus paradoxos. O material demonstra aspectos do paradoxal  modernismo basileiro.

As contribuições para o modernismo

Ambos os autores tiveram participação fundamental na consolidação do movimento modernista. O estilo iniciou com a Semana de Arte Moderna na São Paulo de 1922, em evento marcado tanto por apoio quanto por contradições: obteve aprovação ao mesmo passo que críticas. 

Um dos principais objetivos era resgatar uma cultura essencialmente brasileira, afastando o crivo europeu de estética pelo qual eram avaliados artigos culturais e artísticos do país. “A maneira de modernizar seria conhecer o Brasil, trazer o país para o debate em questões sobre  a formação nacional e quem é o brasileiro”, analisou Dias.

Tanto Bandeira quanto Freyre se mostraram favoráveis ao que o movimento propunha. Passaram a realizar em suas publicações reflexões sobre a população brasileira, relacionadas à sua  origem e suas desigualdades. As contribuições buscavam democratizar um conhecimento mais complexo sobre o tema, fundamental em um período no qual havia poucas universidades e grande déficit educacional. 

“O tema da formação do Brasil nasce com o objetivo de aprofundar as reflexões, pois há uma herança que não é exclusivamente europeia, mas que dialoga com os povos originários e africanos”, ressaltou a pesquisadora. 

Os autores exploraram esses aspectos pela oralidade. Nas poesias e crônicas, Bandeira inovou ao abordar aspectos regionais e sentimentais, como a relação com a família e infância, além da estrutura de versos livres. Freyre debruçou-se sobre a discussão sociológica nacional, e inovou nesse aspecto, já que o maior foco dos intelectuais brasileiros era dado à Europa.

Manuel Bandeira e Gilberto Freyre - Foto: Wikipedia / Benício W. Dias, Bib. Virt. Gilberto Freyre

O regionalismo ganhou destaque com os autores. Ambos se denominavam provincianos, apesar do conteúdo moderno que dominavam. Segundo Silvana , eles defendiam as raízes. “Achavam que era possível ser moderno sem deixar para trás as questões que dizem respeito à história e à realidade, tipicamente brasileira”. 

Inovador também era o estilo das cartas trocadas entre os modernistas, nas quais predominava o aspecto informal e de crônica. A pesquisadora explicou que, na época, dificilmente se escrevia da mesma maneira em que se falava, e os autores exploram isso.“Não tem aquela formalidade que era até então cultivada no gênero carta do século 19”.

Os paradoxos da província

O estudo mostra que é paradoxal o conceito de província no movimento modernista. O Brasil diferenciou-se de outros países do Ocidente, nos quais o aspecto moderno está ligado, principalmente, a assuntos cosmopolitas, de defesa da urbanização e grandes centros urbanos. No movimento nacional, porém, houve grande defesa do regionalismo e da província, com objetivo de resgatar uma história local.

A contradição está na visão de que a defesa da província não exclui a modernidade. Silvana  disse que para os brasileiros defensores da tese, como Freyre e Bandeira, é possível ser provinciano e moderno ao mesmo tempo. “Como ser cosmopolita e esquecer que eu tenho uma herança que é tão desigual no Brasil? Como eu vou deixar de refletir sobre o aspecto histórico? Essa geração [de modernistas] vai tentar complexificar esse debate”, explicou

Os autores também defendem que ser provinciano estava relacionado a questionar os valores das metrópoles, como o sistema burguês da democracia liberal, presente em países como os Estados Unidos, no qual Freyre viveu. 

A proximidade entre os autores

O nome de Gilberto Freyre já circulava entre intelectuais importantes do país antes de Manuel Bandeira se tornar um escritor conhecido, destacou a pesquisadora..

Os laços entre os dois começaram a se estreitar quando o sociólogo convidou Bandeira para escrever  no jornal A Província, no qual era editor em Recife. Bandeira passa, então, a explorar sua faceta cronista, além da de poeta, pela qual é até hoje marcado. 

“Ele escrevia textos a cada quinze dias. Isso vai fazer sua faceta cronista circular e ser divulgada para um público mais amplo”, diz a pesquisadora, destacando a imprensa como ponte de aproximação entre os modernistas. 

Após a entrada de Bandeira no periódico, Gilberto Freyre ficou longe do país, em exílio forçado pela Revolução de 30 —  ele foi secretário particular do governador deposto na ocasião. Mesmo assim, permaneceram acompanhando um o trabalho do outro. . 

Na crônica Sou provinciano, por exemplo, publicada em março de 1933 no jornal O Estado de Minas, Bandeira se refere a Freyre, demonstrando estar a par das empreitadas do amigo. Mais tarde a crônica entrou para o livro Andorinha, andorinha, editado por Carlos Drummond de Andrade.

“Conheço um sujeito de Pernambuco, cujo nome não escrevo porque é tabu e cultiva com grandes pudores esse provincianismo. Formou‐se em sociologia na Universidade de Colúmbia, viajou a Europa, parou em Oxford, vai dar breve um livrão sobre a formação da vida social brasileira… Pois timbra em ser provinciano, pernambucano, do Recife.”, descreve no texto. 

De volta ao Brasil, Freyre publicou o livro Casa Grande e Senzala no fim daquele ano, consolidando-se no Brasil e tornando-se reconhecido também por intelectuais estrangeiros, especialmente pesquisadores da América Latina. 

A correspondência demonstra grande afinidade entre eles, com cartas escritas em tons cordiais, como a tese destaca.

A pesquisadora e a pesquisa

Silvana Moreli Vicente Dias é professora de Letras na Universidade Veiga de Almeida. Sua tese de doutorado foi orientada por Viviana Bosi, do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP. Ela desenvolveu a tese com  bolsa do CNPq  

“São trabalhos que demandam, efetivamente, um aparato da academia, um aparato científico de pesquisa para conseguir desenvolvê-los”, disse se referindo ao desenvolvimento de produções acadêmicas.  

Sua tese foi transformada em livro. Cartas provincianas: Correspondência entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira foi publicado pela editora Global em 2017. Todo o material analisado — cartas, cartões-postais, crônicas, ensaios, poesias e fotografias — está reunido no exemplar.

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