Fachada restaurada do Museu do Ipiranga - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Conheça as exposições que você vai encontrar na reabertura do Museu do Ipiranga

A partir do dia 8 de setembro, o museu reabre suas portas para o público, comemorando o bicentenário da Independência com 12 exposições, que reúnem cerca de 3,7 mil peças, sendo 353 delas multissensoriais; novo projeto curatorial quer construir um perfil menos elitizado para a instituição

 02/09/2022 - Publicado há 3 meses  Atualizado: 12/09/2022 as 10:34

Valentina Moreira

Depois de ficar nove anos fechado para uma grande reforma, que começou em 2019, o Museu do Ipiranga reabre para o público no dia 8 de setembro, em comemoração do bicentenário da Independência do Brasil –  no feriado do dia 7 de setembro, haverá uma inauguração simbólica para estudantes de escolas públicas e municipais e os trabalhadores envolvidos no projeto de recuperação. Serão inauguradas 11 exposições permanentes – e uma outra temporária, prevista para abrir em novembro -, em que os visitantes encontrarão um acervo diferente daquele exposto antes do fechamento.

No total são 3.700 itens, a maioria inédita, sendo que 353 deles receberam tratamento multissensorial, facilitando as interações táteis e olfativas – há salas com cheiros -, além de material em braile. Os objetos datam dos séculos 19 e 20, mas há itens mais antigos, que remontam ao Brasil colonial. São pinturas, esculturas, moedas, documentos textuais, fotografias, objetos em tecido e madeira e duas maquetes de grande porte.

A nova configuração do museu marca também uma nova fase curatorial, como afirma Vânia Carneiro de Carvalho, coordenadora-geral do projeto de concepção e implantação das exposições do Novo Museu do Ipiranga 2022. “O Museu do Ipiranga era visto como um museu das elites, porque isso é que teve visibilidade nas exposições durante muito tempo”, revela Vânia. Segundo ela, na época não foi possível fazer essa renovação, mas a reinauguração do museu estreia essa nova fase.

Como visitar o Novo Museu do Ipiranga?

O Museu do Ipiranga será reaberto ao público de terça a domingo a partir do dia 8 de setembro de 2022. De 8 a 11 de setembro, das 11h às 16h; depois, das 12h às 18h.

As visitas podem ser feitas gratuitamente (até o dia 6 de novembro), após agendamento prévio no site www.museudoipiranga.org.br, disponível a partir do dia 5 de setembro, às 10 horas. 

Endereço: Rua dos Patriotas, 100, Parque da Independência – São Paulo/SP 

Após mais de cem anos de existência, o museu passa a ter menos foco em personalidades e quer discutir a história a partir de questões da vida cotidiana. Segundo Vânia, desde a década de 1990, a instituição está passando por uma mudança no seu perfil. “O que o museu vai mostrar nas novas exposições não é apenas fruto do seu fechamento em 2013. Vamos mostrar um acervo que está sendo acumulado ao longo de 30 anos.” A professora Solange Ferraz de Lima, do Museu Paulista, acrescenta que “é um museu histórico, especializado em cultura material, ou seja, conta a história da sociedade através dos objetos”.

Acervo tem itens com tratamento multissensorial e maquete do museu - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Para a inauguração, os objetos serão distribuídos em 11 exposições permanentes, separadas em dois eixos: Para Entender a Sociedade traz seis mostras sobre a sociedade brasileira e os vários processos históricos que estão ligados à sua formação; e Para Entender o Museu, com cinco áreas dedicadas aos bastidores do museu. Haverá também a exposição temporária Memórias da Independência, focada no tema da Independência do Brasil, prevista para inaugurar em novembro. Conheça em primeira mão as novas exposições:

Para Entender a Sociedade

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Uma História do Brasil

Uma História do Brasil é onde o público irá matar saudades das obras clássicas do Museu do Ipiranga. Sua principal atração é o quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo. Além da obra, o espaço que começa no eixo monumental, atravessando o saguão e a escadaria do Salão Nobre, abrange toda a decoração promovida pelo antigo diretor do museu, Affonso Taunay, na ocasião da comemoração do centenário da Independência, em 1922. Essa área é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e sua configuração original não pode ser alterada. Como o próprio título explica, a exposição é apenas uma das várias perspectivas da história do Brasil que serão apresentadas ao visitante. 

E os bandeirantes? Quem visitou o museu antes do seu fechamento, deve se lembrar que a área do saguão e do Eixo Monumental é marcada pela presença de figuras que, nos últimos anos, se tornaram alvo de controvérsias. Manuel Preto, Raposo Tavares e Fernão Dias são alguns dos bandeirantes representados nas esculturas da decoração e em quadros do museu. As esculturas e as pinturas que retratam esses personagens continuarão em exposição, com a diferença que a curadoria orientada por Paulo Garcez Marin, pesquisador e professor do MP, irá propor uma visão reflexiva sobre elas. Nos textos explicativos, ao invés de celebradas, essas figuras serão discutidas quanto às questões que estão por trás de suas representações.

Passados Imaginários

De quantas formas diferentes a história pode ser representada? Essa pergunta norteia Passados Imaginários. Nela, o visitante irá encontrar produções artísticas que retratam diversos momentos da história do Brasil. Mas atenção! À primeira vista, essas produções podem parecer uma janela para o passado político brasileiro. Porém, os curadores querem propor uma outra perspectiva: trata-se de uma exposição sobre a história da arte e as formas de representação dentro de determinados gêneros artísticos.

Cidade de São Paulo em miniatura 
Aqui será o lugar da maquete de Hendrik Bakkenist, que foi encomendada no início do século 20 por Affonso Taunay, com o propósito de reproduzir a cidade de São Paulo em 1822. Para a reinauguração do museu em 2022, a obra passou por dois meses e meio de trabalho de restauração.

Isto não é um retrato
Você conhece a pintura Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500, produzida por Oscar Pereira da Silva em 1900? Nesta área ela estará exposta, com uma perspectiva diferente da convencional. A partir de textos e explicações visuais, o visitante será convidado a refletir sobre o contexto de criação dessa e de outras obras. A ideia é destacar que as pinturas tratam de interpretações de artistas que viveram mais de cem anos depois dos eventos ilustrados e não podem ser vistas como um espelho fiel da história.

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Territórios em Disputa

Irá contar como foram implementadas as noções de território no Brasil a partir da apresentação de livros, cartas e mapas que remontam aos séculos 16 e 17. 

Objetos e seus significados
Por trás dessa exposição, está a visão de que os objetos podem ser uma importante fonte de informação para se compreender uma sociedade ao longo do tempo. Essa perspectiva é conhecida como o estudo da história pela perspectiva da cultura material e é a linha teórica adotada pelos curadores na organização do projeto curatorial do museu.

Mundos do Trabalho

Os trabalhos manuais foram, por muito tempo, menosprezados quanto à sua dimensão intelectual e excluídos de espaços como os museus. Nesses trabalhos, o saber é construído com o uso do corpo e de ferramentas, e, para mostrar sua complexidade e importância, o Museu do Ipiranga inaugura a exposição Mundos do Trabalho. Por meio de equipamentos raros, o público vai conhecer algumas profissões que eram comuns nas ruas das cidades brasileiras. Entre ferramentas de artesanato, cadeiras de barbeiro e câmeras de retratistas, será possível observar como a tecnologia evoluiu e alterou a realidade do trabalho e descobrir profissões que desapareceram com o passar do tempo.

Casas e Coisas

Em Casas e Coisas, objetos de decoração e ferramentas do cotidiano são usados para pensar a construção das ideias tradicionais de feminilidade e masculinidade. Serão expostos elementos típicos da esfera privada, como objetos decorativos e materiais de escritório. Além disso, haverá um espaço dedicado para ferramentas de cozinha antigas, para discutir como as diferenças socioeconômicas se manifestam nesses objetos.

A Cidade Vista de Cima

Do mirante do edifício-monumento, os visitantes poderão avistar de cima o jardim do Museu do Ipiranga em contraste com a cidade de São Paulo. A vista será acompanhada por uma exposição de imagens que mostram os diferentes momentos da história da capital. Assim, será possível comparar a vista atual com outros períodos e refletir como a paisagem se transformou nos últimos séculos.

Para entender o Museu

Para Entender o Museu

No Térreo do Museu do Ipiranga, o visitante terá a oportunidade de conhecer a história da instituição e as áreas de estudo dentro da cultura material. Em sintonia com as outras quatros exposições do eixo, essa área foi criada para as pessoas desmistificarem o que será exposto nos outros espaços. Para os curadores, é importante mostrar como o conhecimento apresentado foi produzido, pois assim o público pode entender que não se trata de uma verdade absoluta.

Quatro “Cs” do Ciclo Curatorial
O processo que descreve o trabalho dos organizadores de um acervo é chamado de ciclo curatorial. Para explicar como este trabalho funciona, o eixo Para Entender o Museu está dividido nas quatro etapas que compõem esse ciclo: a coleta de peças, sua catalogação, o conserto de danos e a comunicação com a sociedade sobre o que está sendo preservado. São os quatro “Cs” do ciclo curatorial: coletar, catalogar, consertar e comunicar.

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Coletar: Imagens e objetos

A escolha dos objetos que irão compor um acervo nunca é uma decisão simples. Nesta exposição, o visitante irá aprender sobre as mudanças na  política de coleta de documentos e a lógica por trás dessas mudanças.  

Até pouco tempo atrás, o acervo do Museu do Ipiranga era muito eclético e continha itens de várias áreas, como história natural e etnografia. Foi na década de 1990, na gestão do Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses, Professor Emérito do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), que o Museu Paulista, órgão gestor do Museu do Ipiranga, começou a concentrar somente itens relativos à história brasileira.

O processo de coleta deixou de ser voltado para personagens históricos ou elementos isolados, e passou a tratar de processos coletivos amplos, representados por coleções mais completas.  

Hoje, a instituição tem investido na diversificação de suas coleções, para que elas possam representar camadas sociais mais amplas. Exemplo disso é a aquisição de objetos como instrumentos de trabalho usados por artesãos e objetos domésticos utilizados por mulheres. Dos 3.500 itens que estarão expostos na reabertura, muitos nunca foram vistos pelo público. 

Catalogar:
Moedas e medalhas

É por meio da catalogação que alguns objetos adquirem sentido em uma coleção. Para essa exposição, será apresentada a tradicional coleção de moedas e medalhas do Museu do Ipiranga, que vai mostrar como formas de identificação e descrição contribuem para a organização e manutenção do acervo.

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Conservar: Brinquedos

A conservação tem um papel muito importante para a construção de um acervo museográfico. Manter as peças em condições adequadas passa por várias etapas, entre elas, a avaliação, higienização, restauração, confecção de embalagens adequadas e guarda nas reservas técnicas. Durante a reforma do Museu do Ipiranga, foi feita a restauração de diversas peças da coleção, um trabalho que articulou os saberes da ciência com as artes.

Brinquedos antigos como espaçonaves, carrinhos, casinhas de boneca e soldadinhos de chumbo serão usados para ilustrar o processo de conservação. Na exposição, esses objetos irão mostrar como é feita a proteção e manutenção de peças do acervo.

Comunicar: Louças

Criar uma exposição vai muito além de colocar objetos raros em vitrines. Para que o público compreenda e se interesse pelo que está sendo apresentado, os curadores criaram uma trajetória que facilita a aquisição do conhecimento. Essa criação passa pela seleção dos objetos que fazem mais sentido dentro da proposta curatorial, um processo que, necessariamente, reproduz o ponto de vista dos especialistas envolvidos.

Para falar sobre a complexidade da etapa de Comunicação, serão expostas coleções de louças acumuladas no acervo do museu. A ideia é mostrar que diferentes formas de expor esses objetos produzem diferentes interpretações sobre eles.

Memórias da Independência

A única exposição temporária do Museu do Ipiranga será voltada para a comemoração do bicentenário da Independência. Memórias da Independência irá inaugurar a área expandida do museu e ficará disponível por quatro meses. Nela, será explicado como a Independência foi estabelecida em diferentes partes do País e estarão expostas obras de personalidades importantes nesse processo.

Para saber mais sobre o Museu do Ipiranga e fazer o agendamento de visitas acesse o site www.museudoipiranga.org.br e acompanhe as redes sociais Facebook, Instagram e Twitter.


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