Na Semana de Recepção aos Calouros da USP, trote não é bem-vindo

As 42 unidades de ensino em oito cidades se preparam para cinco dias de integração e acolhimento sem práticas abusivas

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Capturas de tela do aplicativo Disque-Trote  da USP – Foto: Reprodução

O início do ano letivo na USP é marcado pela Semana de Recepção aos Calouros, que ocorre do dia 18 a 22 de fevereiro. A programação organizada individualmente pelas 42 unidades de ensino distribuídas nas cidades de São Paulo, Ribeirão Preto, São Carlos, Piracicaba, Pirassununga, Bauru, Lorena e Santos conta com atividades acadêmicas, culturais e recreativas que buscam acolher e integrar os novos estudantes.

A USP repudia trotes violentos, opressores e humilhantes. O trote é proibido na Universidade desde 1999, quando foi determinado que toda manifestação de acolhimento aos novos alunos deveria estar integrada à Semana de Recepção aos Calouros.

Qualquer estudante que se sentir constrangido ou ameaçado pode registrar o fato a partir do Disque-Trote, pelo número 0800-012-1090 e e-mail disquetrote@usp.br. Este ano há novidade: um aplicativo, disponível na Apple Store e no Google Play.

“Entendemos que os novos estudantes terão mais familiaridade com essa ferramenta, os aplicativos são utilizados cotidianamente pelos jovens”, afirma Oswaldo Crivello Júnior, professor da Faculdade de Odontologia (FO) da USP, em São Paulo, e responsável pelo grupo Pró-Calouro/Disque-Trote. “Todas as denúncias são encaminhadas ao professor responsável pela Semana de Recepção aos Calouros da unidade citada para que as devidas providências sejam feitas.”.

Cartazes da campanha Chega Mais

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O tema da campanha de recepção neste ano é 
Chega mais e foi desenvolvida por alunos do terceiro ano do curso de Publicidade e Propaganda da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, com coordenação do professor Dorinho Bastos. Para o grupo, um dos desafios era chamar a atenção dos alunos, conversar ao mesmo tempo com veteranos e calouros e falar sobre a não violência.

A escolha da campanha foi feita por um júri formado por responsáveis pela recepção aos calouros de cada unidade. Para Rudi Solon, estudante que participou do desenvolvimento da Chega Mais, o diferencial da campanha foi construí-la de maneira descontraída, com uma linguagem que representasse tanto o calouro quanto o veterano.

O papel do veterano na recepção

Em São Carlos, uma iniciativa do Grupo de Apoio Psicológico (GAPsi), do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, realizou uma roda de conversa com veteranos para melhorar a recepção. “Apresentamos pontos que incentivassem reflexão e discussão para que os próprios veteranos, que conhecem o ambiente da unidade melhor do que nós, pensassem em atividades para favorecer 0 suporte aos ingressantes”, explica Giuliana Mazota, estagiária do curso de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos, que atua no GAPsi.

A ideia foi focar em dois pontos: naqueles que mudam de cidade para cursar a graduação e apresentar a diferença da vida universitária para a do colégio. “É uma nova realidade na vida do ingressante, que passa a gerir a própria vida financeira, social e acadêmica. Além disso, a lógica de ensino da faculdade é totalmente diferente do ensino médio, por exemplo, e é preciso encontrar uma nova maneira de estudar”, destaca Giuliana.

Ela lembra que uma rede de apoio, que vai desde amigos mais próximos e família a colegas de sala e veteranos, é essencial. “A evasão universitária, muitas vezes, está relacionada à falta de suporte. Uma primeira impressão boa incentiva o calouro a continuar na Universidade mesmo que encontre adversidades.”

Mudança no Instituto de Geociências

A Semana de Recepção incentiva o respeito e a diversidade – Foto: Caio de Benedetto / USP Imagens

Desde 2016, o Instituto de Geociências (IGc) da USP, em São Paulo, tem passado por mudanças na recepção, priorizando um acompanhamento mais próximo por parte do professor e uma relação saudável entre o veterano e o novo estudante. Todas as atividades precisam ter aprovação da comissão da Semana de Recepção da unidade.

“Em 1979, o trote no curso de Geologia era organizado com a justificativa de desenvolver um movimento contra a ditadura militar da época. A opressão dos veteranos faria com que houvesse um espírito de revolta e luta por parte dos calouros”, conta o professor Paulo César Boggiani, do IGc.

Se antes tentavam justificar dessa maneira, a realidade agora é outra. Para Boggiani, o envolvimento dos alunos na organização das atividades e na indicação de nomes para palestras é de fundamental importância para o sucesso dessa atividade. “Alunos comprometidos com a programação se corresponsabilizam pelos erros e acertos, ajudando a evitar que os problemas aconteçam.”

Iniciativa solidária na Escola Politécnica

Em 2018, Emef Marechal Deodoro da Fonseca recebeu novos tons – Foto: Divulgação / Poli Social via Facebook

Na Escola Politécnica (Poli) da USP, em São Paulo, o grupo de extensão Poli Social implantou, em 2015, o primeiro Trote Solidário. Desde então, cerca de 100 alunos se organizam para revitalizar alguma escola próxima à USP.

“O objetivo é unir responsabilidade social, integração com os calouros e mudança de mentalidade”, conta Raquel Padovese, integrante da Poli Social. “Nós, veteranos, fazemos pequenos reparos, como tapar buracos de quadras ou nivelar um piso para que os calouros tenham apenas a tarefa de pintar. A ideia geral é aproveitar esse rito para aproximar o politécnico da causa social.”

O Trote Solidário será no dia 23 de fevereiro, das 9 às 17 horas. A Emef Theodomiro Dias foi a escolhida para a reforma e ela não arcará com nenhum dos custos. Os recursos advêm de uma parte da verba do Grêmio da Poli e do investimento de empresas parceiras.

E o prêmio vai para…

Com o intuito de incentivar ainda mais esta integração amigável com os ingressantes, a Pró-Reitoria de Graduação (PRG) da USP realiza anualmente o prêmio Semana de Recepção aos Calouros. A premiação homenageia a unidade e o centro acadêmico que organizam a melhor programação de atividades para receber os novos estudantes da Universidade.

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A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.


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