Caloura que entrou na USP sem vestibular sonha ser cientista

Aos 17 anos, Monick abriu as portas da Universidade por meio da medalha que conquistou na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas

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Monick com os pais na primeira visita ao ICMC – Foto: Reinaldo Mizutani

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Ela sempre estudou em escolas públicas. Aos 17 anos, conquistou uma vaga na USP e não precisou sequer se inscrever no vestibular ou no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Bastou Monick Pereira Zeitounian preencher as informações em um formulário on-line e comprovar a conquista da medalha de prata na 15ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP).

“Eu preenchi as informações sem acreditar que seria possível conquistar uma vaga”, contou a estudante na primeira visita que fez ao Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, dia 19 de dezembro de 2019. Ela veio com a mãe, a arquiteta Renata Fernanda Pereira, conhecer o campus, conferir a infraestrutura oferecida pelo instituto e verificar a distância que percorrerá toda vez que quiser matar a saudade dos pais, que vão continuar morando em Itapevi, a cerca de 230 quilômetros de São Carlos. “É um passo importante: ela vai ganhar o mundo, ela merece”, ressaltou a mãe.

Desde segunda, 17 de fevereiro, Monick já está participando das atividades da Semana de Recepção aos Calouros do ICMC. Aluna do curso de Matemática Aplicada e Computação Científica, a garota sabe muito bem o caminho que deseja seguir. “A única coisa que penso agora é que quero trabalhar com pesquisa e me tornar uma doutora.”

Meninas nas exatas

Determinada, Monick sempre se interessou pela área de ciências exatas. O pai, que é engenheiro eletricista, incentivou as duas filhas, desde muito pequenas, a descobrirem o mundo brincando com Lego, montando robôs, desenvolvendo aplicativos: “Comecei a programar usando a linguagem C há muito tempo”.

O estímulo e o incentivo do pai e da mãe para que as filhas desenvolvessem novos conhecimentos em diferentes áreas do saber – desde matemática, robótica, até artes plásticas – levaram Monick a compreender que as ciências exatas, tal como as demais ciências, são um lugar propício para pessoas de todos os gêneros. “Eu conheço meninas que falam: engenharia para mulher não rola”, diz a garota.

Ainda bem que, para a nova aluna do ICMC, nunca houve essa barreira. “Eu quero ser uma mulher influente. O que é isso? Ser uma mulher que não depende de outras pessoas, que estuda por si mesma porque gosta do que faz”. A irmã de Monick também escolheu o caminho das ciências exatas: conquistou uma bolsa integral e está cursando Engenharia de Produção em uma universidade particular na cidade de São Paulo.

Incentivo na escola

Não foram apenas os pais de Monick que desempenharam um papel fundamental na trajetória da garota, ela também contou com o apoio de Cláudia Chaves, professora na unidade Brasílio Flores de Azevedo (Jardim Belval) da Fundação Instituto de Educação de Barueri (FIEB), onde Monick concluiu, no fim do ano passado, o curso Técnico em Informática.

Na escola, a professora coordena o Projeto de Iniciação Científica (PIC) da OBMEP, que propicia aos estudantes premiados ou que recebem menção honrosa na competição realizarem diversas atividades para ampliarem o conhecimento. Um dos benefícios do PIC é despertar a vocação científica nos jovens ao aprenderem a lidar com problemas desafiadores de matemática.

Segundo Monick, a conquista da medalha de prata na OBMEP só foi possível porque, nas edições anteriores da competição, ela ganhou menções honrosas e ingressou no PIC. Aliás, a garota participa da OBMEP desde o 6º ano do ensino fundamental. No ano passado, por exemplo, ela fez cursos abordando conteúdos como cálculo diferencial e lógica.

Nem Fuvest, nem Enem

Em 2019, foi a primeira vez que a USP abriu a possibilidade de ingresso direto na graduação para quem participa de olimpíadas acadêmicas nacionais e internacionais. No total, foram criadas 113 vagas adicionais em 60 cursos de graduação oferecidos por 20 diferentes unidades de ensino e pesquisa, localizadas em São Paulo, Ribeirão Preto, Piracicaba, Lorena e São Carlos.

A seleção foi realizada de acordo com um sistema de pontuação que tinha como base, no caso de uma competição nacional, a medalha obtida pelo aluno. Já nas olimpíadas internacionais, a mera participação garante pontos. Cada unidade da USP definiu quais olimpíadas aceitaria na seleção e qual pontuação mínima seria exigida em cada curso.

O ICMC foi a unidade do campus da USP, em São Carlos, que disponibilizou o maior número de vagas para ingresso pela nova modalidade, 15 no total, cinco para cada um desses cursos: Bacharelado em Matemática Aplicada e Computação Científica, no qual Monick ingressou; Bacharelado em Ciências de Computação; Bacharelado em Sistemas de Informação; Bacharelado em Estatística e Ciência de Dados; e Matemática (depois de concluir o ciclo básico, o aluno escolhe a Licenciatura ou o Bacharelado).
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Estudantes participam da Semana de Recepção aos Calouros no ICMC – Foto: Denise Casatti

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“Optamos por oferecer três vagas adicionais em cada um desses cinco cursos de graduação, que era o máximo permitido para este ano. Dependendo do interesse dos alunos e também da aprovação do Conselho de Graduação da USP, a oferta de vagas poderá ser ampliada no futuro”, conclui a professora Sarita Bruschi, vice-presidente da Comissão de Graduação do ICMC.

Ao ampliar o acesso direto à Universidade para quem participa de competições científicas, a USP está estimulando o engajamento dos jovens em atividades desafiadoras antes mesmo que eles se tornem alunos de graduação. Monick é uma entre os 55 mil estudantes premiados pela OBMEP em 2019. Imagine quantas outras histórias de sucesso existem nesse universo e entre os premiados pelas diversas outras competições nos mais diferentes campos do saber. Reconhecer o esforço desses jovens é uma excelente ferramenta para despertar, cada vez mais cedo, o encanto pela ciência e reduzir a desigualdade de gênero nas exatas.

Denise Casatti / Assessoria de Comunicação do ICMC

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