Além da inclusão, USP investe em socialização de vilas estudantis

Conjunto de moradias do campus de Ribeirão Preto recebe melhorias de infraestrutura que estimula a convivência e o bem-estar

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Raquel Mororo, Denis Cavalheiro e Braian Rodrigues Dias, na cozinha do CREU onde acontece a socialização dos estudantes – Foto: Rosemeire Talamone

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Douglas Fernandes é de Franca e cursa Economia Empresarial e Controladoria, Raquel Mororo, de São Paulo, é aluna de Enfermagem, já Denis Cavalheiro, de Orlândia, é aluno da Fisioterapia e Braian Rodrigues Dias, de Guarulhos, é da Farmácia.

Além de estudarem na USP, em Ribeirão Preto, algo mais os aproximam: todos são moradores do Conjunto Residencial dos Estudantes Universitários (CREU) e comemoram as ações de integração e lazer que a Prefeitura do Campus (PUSP-RP) vem promovendo nas moradias estudantis mantidas pela Universidade.

Elas estão em três locais diferentes do campus, na Rua Pedreira de Freitas, o Bloco F ao lado da Piscina, e a Vila Estudantil na área dos bancos. Esses locais ganharam novas áreas de convivência para a manutenção da qualidade de vida e bem-estar dos estudantes. 

Os espaços de socialização, que antes se resumiam às cozinhas compartilhadas de cada bloco, hoje, estão nas praças já prontas ou em construção, na manutenção de uma horta, na apresentação de teatro e até nas festas temáticas promovidas pelos alunos com apoio da PUSP-RP. 

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Praça do CREU na Rua Pedreira de Freitas, novo local de bate-papo – Foto: Rosemeire Talamone

 

Essas ações começaram a ser realizadas no ano passado e incluem também sessões de cinema, ensaio aberto de coral e rodas de conversa mediadas por psicólogo. Através delas, os estudantes recebem orientação sobre saúde mental, aspectos psicológicos e acolhimento de colegas no âmbito da moradia.

No final de junho, o ponto alto da confraternização foi a tradicional festa junina. “Foi  um momento de muita descontração e alegria, teve fogueira, barracas, dança”, relatam os moradores no Bloco B, do CREU. A festa ocorreu na pracinha construída neste mesmo bloco. 

Festa Junina no CREU no final do mês de junho – Foto: Gabriel Stefano

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Festa junina é momento de descontração entre os moradores do residencial estudantil – Foto: Gabriel Stefano

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Local onde serão construídas a praça e o pomar da vila estudantil – Foto: Maju Petroni

 

Para Douglas Fernandes, esse espaço facilitou o bate-papo e a socialização dos moradores, já os alunos “aproveitam mais o local, não só como moradia, mas para o lazer”. 

Raquel se entusiasma com as peças teatrais, mas reivindica mais divulgação das atividades e mais praças, “pois a área é grande e são muitos moradores”, diz, lembrando que “morar em locais isolados como esse é um fator de estresse, por isso a necessidade de mais eventos de descontração.”

 

Horta criada no Conjunto Residencial dos Estudantes na USP em Ribeirão Preto Foto: Maju Petroni

 

A estudante de Enfermagem destaca que a manutenção da horta vai além da distração, serve também como opção para os alunos que ficam no local no final de semana, quando não há refeição no Restaurante Universitário.

O mesmo ponto de vista tem a Maria dos Santos Luiz, de São Carlos. Ela também estuda Enfermagem e é moradora da Vila Estudantil. Maria reclama da falta de árvores na vila, que fica na área dos bancos no lado leste do campus. “Aqui é muito descampado, num dia como esse de muito vento é uma sensação muito ruim”, avalia. 

Denis Cavalheiro cita o ensaio aberto do Coral da USP nas dependências da moradia como uma das melhores atividades e os bate-papos. “Participei de uma roda de conversa e vi que foram levantados muitos temas para sanar dúvidas. Temos amigos com questões psicológicas para resolver e que usaram o espaço para desabafar, foi muito bom.”

 

Maria dos Santos, da Escola de Enfermagem, reclama da falta de arborização na Vila Estudantil. O Serviço de Áreas Verdes do campus vai criar um pomar no local – Foto: Maju Petroni

 

Também moradora da Vila Estudantil, Flavia Barioni, de Santa Rita do Passa Quatro,  faz Ciência da Informação e se ressente de não ter tempo para aproveitar todas essas mudanças.

A estudante concluirá o curso no final deste ano e vê todos os eventos da vila com entusiasmo. “Sempre volto para casa, pois minha cidade é bem próxima, realmente não temos o que fazer, até a piscina fecha. Já estou vendo as pessoas sentadas nos bancos debaixo da árvore, mostrando a necessidade mesmo de espaços de convivência.”

Segundo a assistente social do campus, Marcia Escaleira, trata-se de um projeto ainda em andamento. No residencial da Rua Pedreira de Freitas, foi implantada a horta e construída a praça.

Esses mesmos espaços estão em edificação no Bloco F, que fica ao lado da entrada da piscina e na Vila Estudantil. “Na vila, onde o espaço é bem aberto e pouco arborizado, teremos ainda um pomar.”

Márcia lembra que faltam as atividades esportivas. Previstas para breve implementação, elas serão desenvolvidas em parceria com o Centro de Educação Física e Esportes (Cefer), o que “deve estimular ainda mais a integração”.

Também fazem parte do projeto, visitas culturais, como às programadas ao Instituto Figueiredo Ferraz que, além do acervo permanente, promove exposições temporárias em parceria com diversas instituições culturais do País, cursos, palestras entre outras atividades. 

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Da esquerda para direita, Márcia Escaleira Bonagamba, Fabiana Santos Piçarro, Claudia Ortiz Regula e Jacqueline Souza Modesto, assistentes sociais do campus da USP em Ribeirão Preto – Foto: Paulo Cesar Teixeira Barbosa

 

Inclusão e qualidade de vida

Além de pesquisa, ensino e atividades de extensão, a Universidade oferece moradia estudantil para alunos regularmente matriculados nos cursos de graduação e classificados com perfil socioeconômico de grande vulnerabilidade social no Programa de Apoio à Permanência e a Formação Estudantil da Universidade. 

Em Ribeirão Preto, as residências estudantis estão divididas em três espaços diferentes, com 378 vagas no total. Além dessas vagas, em 2019, outros 1.131 alunos recebem auxílio-moradia. Cabe à PUSP-RP gerenciar esses espaços, além de diversos outros setores para a manutenção da infraestrutura do campus.

Já a Divisão de Atendimento à Comunidade (DVATCOM) e o Serviço de Promoção Social são responsáveis pela a inscrição e seleção dos alunos que vão residir no CREU e também a administração do espaço. 

Dos atuais 378 moradores do CREU, mais de 70% vêm de família com renda per capita de até um salário mínimo e meio e os demais, com renda de dois salários mínimos;  cerca de 50% vêm de cidades que distam mais de 100 km de Ribeirão Preto. No ensino médio, 62% desses alunos estudaram em escolas públicas e 20%, na particular, mas com bolsa total ou parcial. 

Morar num campus universitário, segundo pesquisas internacionais, pode impactar positivamente na formação do estudante, elevando a chance de conclusão do curso e o desenvolvimento de valores como empatia, companheirismo e espírito de liderança.

Por outro lado, as mesmas pesquisas apontam que isolamento social e falta de atividades que contribuam para a descontração em meio universitário são fatores que podem impactar na qualidade de vida e no bem-estar desses estudantes.

As moradias do Campus USP em Ribeirão Preto também foram alvos de estudos. A a implantação das melhorias e atividades no CREU é resultado da pesquisa A Qualidade de Vida no CREU e Formação de Novas lideranças, do Programa Unificado de Bolsas (PUB) da Pró-Reitoria de Graduação.

O estudo foi conduzido pelos graduandos Rafael Oliveira Lima e Tissiane Sarine Bruno, orientados pela professora Cláudia Souza Passador, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-RP) da USP, com com apoio da DVATCOM.

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Projeto quer melhorar qualidade de vida em moradia estudantil da USP

Após consulta aos moradores, a partir do preenchimento de questionários, os resultados revelaram a necessidade de uma vida social com atividades que contribuíssem para a descontração no meio  ambiente universitário. 

Segundo a prefeita do Campus da USP em Ribeirão Preto, Claudia Souza Passador, “esse projeto permitiu identificar as demandas dos alunos residentes, funciona como um projeto de extensão e de pesquisa, mas acima de tudo é uma forma de auxiliar na gestão universitária e essa interação entre essas três áreas é muito bem-vinda nos dias atuais”.

Vice-reitor da USP, Antonio Carlos Hernandes, e a prefeita do campus da USP, Claudia Souza Passador, visitam a horta do CREU – Foto: Imagens USP

Além das atividades de lazer e cultura, os moradores solicitaram uma série de melhorias na infraestrutura e manutenção do local, a maioria já atendida, segundo a PUSP-RP.

“Muitos desses estudantes passam até um ano sem retornar para a casa dos pais e, nas horas vagas, não tinham nada para se descontrair, sem contar que o transporte para a cidade nesses períodos também é mais difícil”, conta a assistente social Márcia Escaleira.

A memória de Renato Santos, formado em Administração pela FEA-RP, em 2017, corrobora com as reivindicações dos atuais estudantes.

Ele lembra que durante sua estadia de mais de três anos no CREU eram raras as oportunidades de descontração e, principalmente, de integração. 

“Morar no CREU foi o diferencial para a minha permanência na Universidade, pois moradia em Ribeirão Preto tem um custo muito elevado. Por outro lado, os cursos têm muitas atividades voltadas para o período da manhã e ficávamos um pouco perdidos depois disso. Naquela época, criamos uma república no meu bloco que acabou virando uma segunda família e se tornou referência para os demais blocos”, conta Santos. 

O ex-morador lembra ainda que, entre os problemas enfrentados durante sua passagem pelo campus, os moradores tinham dificuldade para entender o funcionamento e a dinâmica de um conjunto residencial estudantil, “sem contar que também existia um certo preconceito por parte dos demais alunos; esse projeto também pode ajudar para eliminar isso.”

Mas os impactos dos programas de permanência na Universidade são sentidos pelos estudantes da USP, em Ribeirão Preto, há mais de 20 anos e podem mudar para sempre a história de vida desses jovens, como conta Fernando Oliveira Soares em carta encaminhada às assistentes sociais da época. Formado pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP), o hoje economista escreveu: 

“Hoje, (20/01/2006) é um dia muito especial para mim. Estou me formando na maior e bem mais conceituada Universidade do país. A partir de hoje, embaixo da minha assinatura vai estar Economista da USP. Talvez vocês não tenham a noção de quão isso é gratificante pra mim e para minha família. Como demonstrei nos quatros primeiros anos nas avaliações sócio-econômicas, venho de uma família pobre. Sempre estudei em escola pública, infelizmente com uma qualidade que não desejaria a ninguém. Estudei muito e sozinho durante um ano inteiro. Larguei amigos, a namorada, o trabalho de officeboy em uma oficina de automóveis, tudo isso para pode ir atrás de um grande sonho, e como diria as pessoas mais humildes: “ser alguém na vida”. Fui aprovado em todos os vestibulares que prestei. Para falar verdade, não queria estudar na USP pela qualidade do ensino, e sim, por ser gratuita. Mesmo sendo gratuita, e tendo bolsa alimentação e bolsa moradia, existia a necessidade de adquirir livros, os xerox e outras despesas pessoais. Tive a sorte de sempre estar com uma remuneração que me proporcionava a permanência na Universidade. Trabalhei na biblioteca, no USP Recicla, no USP Legal, no PURE, na pró-aluno da FMRP e por último, no Centro de Informação da FEA. Todas essas bolsas foram fundamentais para mim. Sou muito grato por isso.

Não fui um excepcional aluno como alguns que encontrei nos meus cinco anos de faculdade (a maioria deles moram no CREU), mas fui um bom aluno. Acabei todas as disciplinas do meu curso com um ano de antecedência (vocês devem saber pelo histórico dos alunos de economia que isso é um caso particular). Assim, tive a oportunidade de disputar e ser aprovado em um disputado processo seletivo para ser estagiário da empresa Suzano Papel e Celulose SA. Hoje, fui efetivado nesta empresa e estou muito satisfeito. 

Márcia e Claudia, não importa o que aconteça de agora para frente, sou eternamente grato a vocês! Todas essas assistências que foram dadas a mim durante esses anos incríveis de universidade, mudaram a minha vida, pra melhor! Hoje estou convicto de que a única maneira da mobilidade social se fazer presente é por meio da EDUCAÇÃO com qualidade. 

Estou ciente do meu compromisso com a sociedade paulista que financiou indiretamente meus estudos; comprometo-me usar todo meu conhecimento adquirido nesses últimos cinco anos para maximizar o bem-estar de nossa comunidade. 

Saibam ainda, que sinto saudades do CREU! Fiz bons amigos, estudei bastante, algumas festas de confraternização também ajudavam a integração dos alunos. Saudades dos abacates que ajudavam na dieta quando das greves do “bandex” (risos), das chuvas e dos sóis de rachar a cabeça que tomei, das vezes que tinha que lavar minhas cuecas a mão quando as máquinas de lavar roupa permaneciam meses quebradas, dos bichos exóticos que apareciam em nossas residências. Mas tudo isso era recompensado pelas maravilhosas manhãs de domingos, com o sabiá cantando, os chorinhos no museu do café, além é claro, do ar puro do bosque. Porém, regras são necessárias e o público deve sobrepor ao privado. Conservem os estabelecimentos públicos e dêem ajuda privativamente aos que necessitam. 

Finalizando, gostaria de agradecer a vocês: MUITO OBRIGADO por tudo. Vocês ajudaram a mudar minha vida. Espero que meu filho estude nessa escola que me deu tantas alegrias, pretendo mostrar a ele onde eu vivi os melhores anos de minha vida, sem deixar de estudar. Provavelmente meu filho não precisará dos mesmos benefícios que o pai obteve, mas certamente ele estará ciente que os benefícios que foram concedidos ao pai lhe proporcionarão uma melhor condição para disputar uma vaga na minha querida Universidade de São Paulo.”

Após a conclusão do curso, Soares fez intercâmbio na Universidade da Califórnia e mestrado na Fundação Getúlio Vargas. Atualmente é professor no Instituto Federal de São Paulo, em Barretos, interior de São Paulo, e doutorando na FEA-RP, trabalhando numa pesquisa com o objetivo de avaliar a relevância de políticas compensatórias na educação básica para minimizar a influência do nível socioeconômico, aumentar a equidade no aprendizado e a permanência das crianças e jovens na escola. O economista lembra que foi o primeiro membro da família a entrar em uma universidade pública. Simultaneamente ao doutorado, faz outra graduação, agora em Pedagogia. 

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