Museus da USP integram crianças à Universidade com brincadeira e aprendizado

Estudantes da Comunidade São Remo, vizinha ao campus no bairro Butantã, semanalmente participam de visitas ao MAE, MAC e MAV

Crianças do Espaço Girassol da Comunidade São Remo no MAE – Foto: Pedro ezequiel / USP Imagens

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Aos olhos de uma criança, tudo pode ser uma fonte de descoberta. Para os museus, essa curiosidade é uma forma de aprender. Um projeto busca criar uma ponte de conhecimento entre os moradores do bairro vizinho ao campus da USP, no Butantã, e três dos museus mantidos pela USP. 

Maria Angela, educadora do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP – Foto: Pedro Ezequiel / USP Imagens

Chamado de Integrando a Comunidade São Remo com Museus da USP: o patrimônio cultural, natural e artístico numa perspectiva conjunta de aprendizagem, a ação reúne a comunidade São Remo e os Museus de Arqueologia e Etnologia (MAE), de Anatomia Veterinária (MAV) e de Arte Contemporânea (MAC) da USP. O projeto começou em março e vai durar dois anos.

As atividades recebem a participação de crianças que frequentam o projeto Girassol, vinculado à ONG Associação Metodista Livre Agente. Elas vão aos museus toda quarta-feira, em horário diferente do da escola.

 

Professor Camilo Vasconcelos, coordenador do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP – Foto: Pedro Ezequiel / USP Imagens

“Vamos trabalhar o ‘saber ouvir a criança’, sentar e conversar. Elas são muito espontâneas”, conta Maria Angela Serri Francoio, educadora do MAC.  “A proposta é ligar as áreas de conhecimento, interligar os saberes. Aliás, é o desafio da educação”, completa.

Como a cada semana a visita é em um museu diferente, há uma conexão das atividades.

São feitas oficinas nos espaços da Universidade e também na Comunidade São Remo. As crianças fazem uma espécie de estudo prévio durante as atividades no projeto Girassol antes da passagem no museu.

“Essa dinâmica é para ajudar a pensar o museu como um todo. Pensar na exposição, na curadoria, nos processos. Discutimos temas necessários com as crianças”, explica Camilo de Mello Vasconcelos, professor da USP e coordenador do MAE.

Conhecimento de si

Em uma dessas atividades no MAE, as crianças foram divididas em grupos. Um integrante era vendado. Através do tato, ele sentia a textura e o formato de um objeto arqueológico e um etnológico. Depois, voltava para a sala onde estava seu grupo, e os descrevia. O grupo pintava no papel a representação do que o amigo contou.

“Essa brincadeira, como as outras, tem o objetivo de fazer com que elas aprendam por si. Que tenham autonomia para pensar”, conta Eduardo Rosa. Ele é estudante do curso de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em São Paulo, e bolsista no projeto. “Aprendo sobre o público, sobre as crianças, sobre dar aula. Era um contato que eu não tinha tanto na graduação.”

Eduardo acompanhando as crianças em visita ao Museu de Anatomia Veterinária (MAV) – Foto: Reprodução / MAE
Professora Samara Sousa, do projeto Girassol da São Remo – Foto: Arquivo pessoal

Uma das propostas do projeto é justamente fornecer uma nova experiência no campo da extensão também para quem trabalha no ambiente do museu, tanto diretores quanto os estagiários de História, Educomunicação e Biologia.

“O MAE, por estar aqui do lado, é um recurso que nós não temos o costume de ir. O projeto abre esse horizonte para as crianças”, diz Samara Sousa. Ela é professora do projeto Girassol e acompanha as crianças nas visitas do período da tarde à USP. “É muito valioso ir ao museu. Elas passam aqui em frente com a mãe e pai e dizem: ‘Olha, eu já vim aqui! Vamos lá também!’. Isso incentiva de alguma maneira.” 

No próximo ano, será feita uma exposição com todas as atividades feitas pelas crianças.

Resultado de um dos grupos após a dinâmica – Foto: Pedro Ezequiel / USP Imagens

 

Histórias de mãos dadas

O nome do projeto é longo. Igual ao seu processo de criação. História que envolve o início do Museu de Arqueologia e Etnologia em seu novo prédio e os espaços de lazer da São Remo. Em 1993, o museu foi para um espaço ao lado da prefeitura do campus Cidade Universitária da USP onde ficava uma quadra de futebol para crianças e adultos. Mas o local foi desapropriado e isso gerou um desconforto para a direção do museu, que sentiu necessidade de dialogar com a comunidade e vice-versa.

Foram feitas atividades na Escola de Alfabetização de Adultos e com a Associação de Moradores. Tempos mais tarde, foi criada uma longa exposição envolvendo a vivência e a história dos moradores do bairro. Desde então, sempre há projetos em parceria, como o Integrando a Comunidade São Remo com Museus da USP: o patrimônio cultural, natural e artístico numa perspectiva conjunta de aprendizagem

Ele foi remodelado, firmou a parceria com os coordenadores do Girassol e estendeu-se para os Museus de Anatomia Veterinária e de Arte Contemporânea. Assim, concorreu ao edital do programa Aprender na Comunidade da Pró-Reitoria de Graduação da USP, e pôde contratar estagiários e ampliar as portas de visitas.

Crianças participam de atividades em um dos espaços do MAE – Foto: Pedro Ezequiel / USP Imagens

“Os museus devem se abrir para as comunidades. Se ampliar, pensar na acessibilidade em diferentes formatos”, diz Vasconcelos, coordenador do MAE.

“Esse trabalho é para reforçar o nosso papel social. Devemos dialogar com todos, romper as barreiras invisíveis e visíveis que têm por aqui na USP”, ressalta Maurício André, educador do MAE. Uma troca de repertórios que resulta em um aprendizado conjunto, entre o novo e a história. Entre as crianças e os museus.

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