Incubadora da USP ajuda trabalhadores informais a criar cooperativas

ITCP, criada há 20 anos, apoia modo de produção baseado na economia solidária e autogestão

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Cristina Augusto e trabalhadores da cooperativa Monte Sinai Lanches, na FAU – Foto: Bruna Diseró

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A história da lanchonete e do restaurante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, em São Paulo, ajuda a contar como a economia solidária e a autogestão podem mudar a vida de trabalhadores. A cooperativa Monte Sinai Lanches é resultado de uma das primeiras ações da ITCP. A Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da USP é um projeto de extensão universitária que há 20 anos auxilia espaços e cooperativas, ensinando uma forma de produzir em que as pessoas, ao mesmo tempo, são trabalhadores e têm o capital.

O espaço de venda de alimentos para estudantes, professores, funcionários e visitantes da USP foi fechado pela antiga proprietária na semana do Natal, em 2002. Os funcionários ficaram surpreendidos e sem emprego. Um aluno da FAU indicou a incubadora para que eles se organizassem em uma cooperativa e continuassem o estabelecimento comercial. Assim nascia a Monte Sinai Lanches.

A ITCP foi criada em 1998, a partir de um grupo de estudos coordenado pelo professor Paul Singer, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, em São Paulo. Ela surgiu inicialmente para apoiar iniciativas dos moradores do bairro do Rio Pequeno.

“Os primeiros trabalhos foram no entorno da USP, como na comunidade São Remo e dentro dela, na Cooperativa Cooper Brilha e no restaurante Monte Sinai, na FAU”, explica Ana Luiza Laporte, doutoranda da Faculdade de Educação (FE) da USP e colaboradora da ITCP.

Hoje, o programa desenvolve projetos que orientam e acompanham grupos de diversos setores, a partir da educação popular e da multidisciplinaridade. O processo de “incubação” consiste na educação permanente, visando à autonomia e à emancipação dos grupos incubados, assim como ao desenvolvimento de novas relações de produção e de trabalho para os empreendimentos criados. Atualmente, o País conta com mais de 120 ITCPs.

Cada cooperativa e demais empreendimentos parceiros da ITCP da USP são acompanhados semanalmente por uma dupla de formadores específica. A visita pode ocorrer na sede da cooperativa, da associação de bairro, em reuniões de rede ou diversos outros lugares de acordo com cada caso. A dupla envolvida antes de ir ao campo se encontra em uma reunião também semanal para preparar as formações e atividades que irão realizar.

“Atualmente, nós fortalecemos, principalmente, pontos de economia solidária no Butantã. Mas temos um importante histórico de atuação na zona sul de São Paulo, no Campo Limpo, Capão Redondo, Jardim Ângela e Parelheiros”, conta o professor Reinaldo Pacheco da Costa, professor da Engenharia de Produção da Escola Politécnica (Poli) da USP e coordenador da ITCP.

A ITCP está ligada à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária. Assim como ocorreu com Ana Luzia, os integrantes são estudantes de graduação e pós-graduação que recebem bolsas, como Programa Unificado de Bolsas (PUB), Fusp, CNPq ou Finesp. Mas o papel da Universidade é limitado. “A maior parte do dinheiro que conseguimos é via projetos de política pública federal. A Universidade só nos dá o espaço”, explica o professor.

O que é economia solidária?

Para entender o conceito de economia solidária, é preciso conhecer o trabalho de Paul Singer. Ele foi professor titular da FEA entre os anos de 1986 e 1998, quando se aposentou. “O professor Paul Singer mostrou com seu trabalho que é possível existir uma economia solidária, em oposição à ideia clássica de que toda economia deve ser necessariamente competitiva”, afirma Pacheco.

“O conceito (de economia solidária) vem do corporativismo que pensa uma forma de produzir em que as pessoas são, ao mesmo tempo, trabalhadores e tem o capital. Esse é um de seus cernes: pensar outra organização do trabalho que seja pela autogestão”, define Laporte.

A autogestão, outro conceito que caminha junto com a economia solidária, propõe que os trabalhadores tenham o mesmo peso dentro do empreendimento. “O contrário chama heterogestão, ou seja, quando tem uma estrutura hierárquica. A autogestão é um plano horizontal”, explica o professor.

E engana-se quem pensa que o modelo alcança apenas o setor comercial. As outras etapas do processo, que consiste em produção, comercialização e consumo, também podem adotá-lo. “A produção pode ser de uma coisa ou serviço como, por exemplo, uma cooperativa de professores ou uma que produz mesa. Na comercialização, são redes de produtores que se juntam para comercializar como, por exemplo, a organização de feiras orgânicas”, diz Laporte.

Já para definir a aplicação de economia solidária na ponta do consumo, Costa usa como exemplo uma cooperativa que nasceu na USP, em 2007, quando moradores do Crusp buscaram alternativas para o cardápio do restaurante universitário: a ComerAtivaMente. “Reúne-se um pessoal que compra blocos de alimentos da agricultura familiar ou do MST e formam cestas. As pessoas vão uma vez por semana e compram essas cestas com os alimentos que estão disponíveis”, explica.

A economia solidária também facilita a aproximação entre consumidor e produtor. Para Ana Luzia, a preocupação com o produto já saiu de uma esfera mais individualista para uma preocupação com o outro e com o ambiente em geral. “A ideia do modelo é que se reduza a distância do produtor e do consumidor. Você sabe quem produziu o pão que você comeu hoje? Quanto mais distante da produção, pior vai ser nosso mundo”, afirma.

 

Ponto de Economia Solidária e Cultura do Butantã revende alimentos – Fonte: Facebook do Ponto

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“A ITCP foi como uma mãe para mim, meu colo”

Em dezembro de 2002, na semana do Natal, a antiga proprietária da lanchonete da FAU recebeu a notícia de que teria que deixar o local. “À noite, ela pegou suas coisas e foi embora. Quando eu e meus amigos chegamos, não tinha mais nada”, conta Cristina Augusto, uma das funcionárias do local na época.

Uma estudante da faculdade foi conversar com ela e sugeriu que procurasse a ITCP. “Ela me disse que havia um lugar chamado ITCP na USP que ajudava na formação de cooperativas. Eu pensei que era uma oportunidade de todos ficarmos juntos”, relata Cristina.

No começo, seus colegas desconfiaram do projeto, pois tinham preconceito com o conceito de cooperativismo. “O representante da ITCP me disse que uma cooperativa tinha que ser formada por vinte pessoas. Na época, ninguém queria saber de cooperativa.”

Cooperativa na FAU oferece lanches e almoços para estudantes da USP – Foto: Bruna Diseró

Depois de um início difícil, a cooperativa começou a funcionar com a ITCP auxiliando nas questões mais técnicas e Cristiana se tornou uma das “sócias” do empreendimento. “Na época, a incubadora não tinha tanta prática. Eles estavam começando junto com a gente. Eu saía à noite cansada e, às vezes, queria ir na incubadora só no outro dia. Mas, eles estavam lá, logo pela manhã, nos animando”, conta Cristina entre risos.

Mesmo com o apoio e a crença de que o modelo é o mais saudável para o trabalhador, ela conta que sua adaptação e a dos funcionários com o modelo cooperativista foi complicada. “O pior desafio é lidar com pessoas. Quando descobrem que a nossa cooperativa vive com o dinheiro que sobra, elas desistem porque querem uma relação mais segura, como CLT e carteira assinada.”

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“O papel da ITCP é essencial para os empreendedores”

A afirmação é de Risonete Costa, coordenadora do Ponto de Economia Solidária e Cultura do Butantã. Vinculada à Secretaria Municipal de Saúde da capital, a ideia de promover um ambiente de trabalho aos usuários no espaço do Centro de Apoio Psicossocial (CAPS) da zona oeste partiu dos próprios funcionários.

“O Ponto de Economia Solidária e Cultura do Butantã nasce dos sonhos, trabalho e luta de trabalhadores e usuários dos serviços de saúde mental”, conta Risonete. No começo, a infraestrutura era pequena. Hoje em dia, no entanto, o espaço conta com diversos setores de trabalho como artesanato, gastronomia (Bar do Saci), comércio de alimentos orgânicos (Orgânicos no Ponto) e cultura (Livraria Louca Sabedoria), além da promoção de eventos.

Livraria Louca Sabedoria – Fonte: Facebook do Ponto

A ação da incubadora foi a de orientar os organizadores do Ponto sobre Economia Solidária desde a produção ao beneficiamento e retorno. “A ITCP já é parceira do CAPS Butantã desde o início dos anos 2000”, diz Risonete. “Hoje, apesar de todas as limitações de recurso, ela está junto com o mesmo empenho: fomentando empreendimentos, formando e desenvolvendo o potencial das pessoas.”

As ideias de gerenciamento da ITCP são sentidas na visão que a coordenadora tem do espaço e das relações no trabalho. “Fazer economia solidária é um trabalho de minuto a minuto. No modelo convencional de economia, as pessoas são tragadas e descartadas. Há necessidade de buscar saídas e uma possível é a economia solidária”, afirma a coordenadora do Ponto de Economia Solidária.

Risonete destaca que o modelo criado por Singer encaixa-se bem na proposta do Ponto. “Quando o que mais importa é o lucro, o trabalho torna-se adoecedor. Se as pessoas se apropriarem da autogestão, trabalho cooperado e solidariedade, com certeza o coletivo será gerador de saúde e, portanto, de saúde mental.”

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A ITCP USP fica na Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 257 – Travessa 4, Bloco 28, campus Cidade Universitária, Butantã – São Paulo.

Com informações da ITCP

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