Do norte ao sul, famílias buscam hospital da USP para atendimento especializado

Centrinho, em Bauru, trata anomalias craniofaciais congênitas, síndromes associadas e deficiências auditivas

A paciente Clédina Correa da Silva e o professor Carlos Ferreira dos Santos, superintendente do Centrinho e diretor da FOB, durante a expedição do Programa FOB-USP em Rondônia, em Calama, realizada no mês de julho – Foto: Denise Guimarães/FOB-USP

Calama, um distrito de Porto Velho, capital do Estado de Rondônia, está localizada às margens do Rio Madeira, próximo da divisa com o Amazonas, na região Norte do Brasil. A população de cerca de três mil habitantes precisa ir até a capital para receber atendimentos de saúde. De barco, são 17 horas de navegação rio acima. De lancha, a viagem dura cinco horas.

É nessa comunidade ribeirinha que vive Clédina Correa da Silva, 37 anos. Única pessoa nascida com fissura labial em Calama, Clédina chegou ao Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da USP em Bauru em 1992, encaminhada por membros da Universidade que desenvolviam atividades em Rondônia. Ela tinha dez anos de idade e apresentava ainda a abertura no lábio.

Naquele mesmo ano ela realizou a cirurgia reparadora. Em 1995, retornou ao HRAC para tratamento com a equipe de Odontopediatria. Posteriormente, sua condição clínica permitiu acompanhamento em seu Estado de origem.

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Mais de 20 anos depois, no último mês de julho, Clédina encontrou a expedição do Programa FOB-USP em Rondônia, que esteve em Calama. Desenvolvido pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP, o projeto de extensão leva assistência odontológica e fonoaudiológica a moradores daquela região, por meio da atuação dos professores, alunos e funcionários da instituição. Profissionais e estudantes do Centrinho também atuam no projeto, que em 2020 contará ainda com a participação dos alunos do curso de Medicina da FOB.

Foto de Clédina Correa da Silva aos nove anos de idade, antes da cirurgia reparadora do lábio. Foto: Arquivo pessoal

“Encontrei o pessoal da USP de Bauru por acaso. Fui fazer a unha do dono do barco em que estava a expedição. Conversei com os doutores, inclusive com o diretor do Centrinho, professor Carlos. Fiquei muito feliz”, conta Clédina, que hoje é manicure, artesã e faz bolos. Ela é casada e tem dois filhos, um rapaz de 19 anos e uma menina de 10, que nasceram sem fissura.

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Clédina lembra que o tratamento propiciou uma grande transformação em sua vida. “Eu tinha muitos apelidos na escola, beiço partido era um deles. Uma irmã mais velha defendia-me e brigava com aqueles que me xingavam, mas eu sempre chegava em casa chorando. Eu também tinha muita vontade de passar batom, mas não passava em razão da fenda. A pior coisa era olhar no espelho. E o tratamento mudou a minha vida. Hoje tenho uma vida normal! Agradeço a Deus e a todos que me ajudaram”, relata.

“Foi uma surpresa e uma grata satisfação esse encontro em Calama. Uma demonstração de gratidão e carinho como essa que recebemos da paciente Clédina ilustra bem a importância e o alcance do trabalho realizado pela equipe do HRAC ao longo dos seus 52 anos, e também a transformação na vida das pessoas”.

Afinal, o objetivo maior da reabilitação é propiciar qualidade de vida e plena inserção do indivíduo na sociedade”, ressalta o professor Carlos Ferreira dos Santos, superintendente do HRAC e diretor da FOB.

Carreira e homenagem

Outra história que mostra o impacto e a extensão do trabalho do HRAC é a da enfermeira Gabriela Oliveira Silva, 29 anos, que vive em Pelotas (RS), na região Sul do País.

Nascida com fissura labiopalatina, a gaúcha iniciou o tratamento no hospital da USP aos três anos de idade. “O tratamento foi fundamental na minha vida. Com o tratamento recebido no Centrinho recuperei minha estética e a parte funcional. Consegui ter uma vida normal: estudei, me formei, trabalho, tenho família. Estou inserida na sociedade como qualquer outra pessoa”, afirma Gabriela.

“Vivi muito tempo dentro de hospital, em meio a profissionais da área da saúde. Acredito que isso influenciou inclusive a escolha da minha profissão”, revela a jovem, que se formou em Enfermagem e atua na área.

Aos 22 anos, após o enxerto ósseo alveolar – cirurgia que reconstitui o osso do arco dentário em pacientes com fissura labiopalatina –, Gabriela tatuou o logo do Centrinho sobre a cicatriz na região do quadril, de onde é retirada parte do osso para o enxerto. “Foi uma maneira de homenagear o hospital”, pontua.

A paciente Gabriela Oliveira Silva (à direita), com o marido, Rodrigo, a mãe, Marta, e a filha de três meses, Laura – Foto: Jennifer Villanova / Arquivo pessoal

A fissura labiopalatina

Condição congênita em que há comprometimento da fusão dos processos faciais durante a gestação, a fissura labiopalatina está relacionada a fatores genéticos e ambientais. Apresenta grande variabilidade clínica, podendo envolver desde uma pequena cicatriz labial até fissuras completas e bilaterais, que atingem o palato e são mais complexas. Pode ocorrer de forma isolada, estar associada a outras malformações ou ainda fazer parte de um quadro sindrômico. A prevalência no Brasil é de uma a cada 650 crianças nascidas.

As principais implicações que as fissuras podem trazer ao indivíduo são dificuldade na alimentação, alterações na arcada dentária e na mordida, comprometimento do crescimento facial e do desenvolvimento da fala e audição. Ao longo dos anos, essa condição pode inclusive trazer impactos sociais e também o bullying.

O tratamento é um processo que envolve a atuação de equipe interdisciplinar das áreas de cirurgia plástica, odontologia, fonoaudiologia, entre outras especialidades, todas indispensáveis à reabilitação, que engloba aspectos funcionais, estéticos e emocionais.

A instituição

Fundado em 1967, o HRAC é pioneiro em suas áreas de atuação e considerado centro de referência no tratamento das anomalias craniofaciais congênitas, síndromes associadas e deficiências auditivas, com assistência disponibilizada via Sistema Único de Saúde (SUS). O acesso de novos pacientes é por meio das centrais de regulação, a partir de avaliação inicial em unidade básica de saúde. Nessas cinco décadas de atividades, o hospital registra mais de 115 mil pacientes matriculados, vindos de todos os Estados do País.

Tiago Rodella / Assessoria de Imprensa do HRAC

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